Brasil

Internet junta gente nas ruas, mas não produz partidos políticos


Dos protestos de Seattle, em 1999, ao Movimento Passe Livre, em 2013, no Brasil (foto), mobilizações não criaram agremiações qualificadas para disputar eleições e participar do poder


  Por João Batista Natali 13 de Julho de 2016 às 13:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Para os que se lembram, foi em 30 de novembro de 1999. Reunia-se em Seattle, nos Estados Unidos, uma conferência em nível ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio).

Eis que uma multidão de 40 mil pessoas promove ruidosas manifestações contra a globalização e entra em atrito com a polícia. Centenas de presos e alguns feridos.  

Mas não era isso o importante. Os manifestantes, que não pertenciam a nenhum partido político e traziam uma coloração ideológica indefinida, haviam-se mobilizado, pela internet, a partir de grupos de discussão em igrejas luteranas, coletivos ambientalistas ou universidades sem maior tradição contestatária.

A mídia e os cientistas políticos se entusiasmaram com a novidade. Acreditavam que se tratava de um novo tipo de ativismo que, por suas convicções e agressividade, poderia substituir as formas tradicionais de fazer política.

Não foi, no entanto, o que aconteceu. Com o tempo, o ímpeto inicial de mobilização acabou perdendo a força e, exceto por manifestações de menor intensidade, do lado de fora de reuniões do FMI (Fundo Monetário Internacional) ou do FEM (Fórum Econômico Mundial), na cidade suíça de Davos, o grupo acabou se dispersando.

Mas a novidade que o movimento trazia era sedutora. Demonstrava que grupos que se reuniam nas listas de discussão ou redes sociais poderiam deixar o espaço virtual para ocupar as ruas em movimentos de protesto.

Em Seattle, o caso mais emblemático foi talvez as donas de casa que diziam fazer doações em suas igrejas para financiar planos de combate à fome em países mais pobres.

Mas os efeitos filantrópicos da iniciativa eram neutralizados pelos prejuízos às estruturas econômicas tradicionais que a nova economia globalizada imediatamente trazia.

O fator determinante para que esse tipo de organização tivesse pouco fôlego está na maneira pela qual funcionam o Estado e suas instituições. O poder de decisão está em mãos de um Executivo e de um Parlamento eleitos. E, por conta disso, a única forma de exercer o poder está na adesão a partidos políticos.

Foi assim que, na Espanha, um movimento "horizontal" (sem uma nítida hierarquia) chamado Podemos se verticalizou rapidamente para se viabilizar como partido.  

A agremiação dirigida por Pablo Iglesias surgiu em 2014, como alternativa à esquerda do Psoe (Partido Socialista Operário Espanhol), e em junho último chegou em terceiro lugar nas eleições parlamentares.

Caso semelhante aconteceu na Grécia. Uma parcela da militância estava desencantada com o velho Partido Socialista (Pasok) e criou o Syriza. Mas a crise econômica que atingiu em cheio o país em 2010 teve duas consequências.

Levou o Syriza ao poder, para implementar uma plataforma econômica alternativa (sem sacrifícios para a população). Mas, ao mesmo tempo, o dirigente do novo partido e já primeiro-ministro, Alexis Tsipras, foi obrigado a se curvar ao ajuste fiscal imposto pelo Banco Central Europeu, no qual a Alemanha tem um poder determinante.

Em outras palavras, para uma Europa monetariamente integrada – a moeda da Grécia é o euro – as decisões chegam empacotadas de fora das fronteiras gregas.

Em setembro de 2011, a mídia ficou mais uma vez perplexa com a aparição do Occupy Wall Street, um acampamento em que se revezavam duas centenas de ativistas em praça pública, em protesto contra os bancos na crise desencadeada em 2007.

A mídia tradicional e depoimentos no Youtube davam a impressão de que algo de novo acontecia em Nova York. Ledo engano. O movimento arrefeceu, e hoje parte dos norte-americanos se entusiasma pelo maluco do Donald Trump, que é a antítese de tudo isso.

Vejamos um exemplo brasileiro. Em 2005, durante reunião do FSM (Forum Social Mundial), em Porto Alegre, surgiu um coletivo a partir da experiência bem-sucedida no ano anterior, em Florianópolis, quando, após dez dias de grande mobilização de rua e alguns previsíveis distúrbios, as autoridades anularam o reajuste nas tarifas do transporte público.

O episódio, conhecido como "revolta das catracas", hibernou até 2013, quando catalizou, a partir de São Paulo, um dos mais impressionantes movimentos de rua da recente história política brasileira.

Acontece que o MPL (Movimento Passe Livre), apesar de afinidades políticas com a esquerda, pouco ou nada fez em termos de mobilização quando se tratou de operar com as instituições. Ou seja, eleger governadores, deputados e presidente em 2014.

Por mais que trouxesse, via internet, um poder de mobilização que juntava sentimentos de descontentes, o MPL deixou de ser personagem do jogo político.

De certo modo, a mesma coisa que aconteceu, a partir de 2015, com os movimentos de mobilização pelo impeachment de Dilma Rousseff. Eles tinham agenda, marcavam pela internet as datas das manifestações.  

Mas não eram proprietários do processo político. Tanto que não reivindicaram qualquer vantagem – que não teriam obtido – do governo do presidente Michel Temer.

Estamos, então, com uma história relativamente curta – de Seattle para cá, foram-se apenas 17 anos – em que a utopia das organizações "horizontais" acabaram tendo um fôlego menor.

O Estado moderno é o criador de modelos implícito de instituições com as quais dialoga ou cede uma parcela de poder. E essas instituições devem se "verticalizar" para deixarem de ser meros grupos de pressão, e, a partir de então, tornarem-se sócias do poder.






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