Brasil

Ilhados no Largo do Paissandu


Sem clientes, e com aluguel para vencer, comerciantes tentam sobreviver à restrição de acesso às imediações do prédio que desabou no centro da capital paulista


  Por Wladimir Miranda 10 de Maio de 2018 às 16:40

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


O espaço é pequeno. Quem entra, pega o lanche que escolheu e come em uma das cinco cadeiras colocadas junto à parede. São lanches árabes, feitos na hora por Abdulrahma Alsaie. Aos 32 anos, Aboud, como faz questão de ser chamado, chegou ao Brasil há quatro anos. Ele é sírio, e em seu país Aboud trabalhava em açougues.

O Aboud Shauarma & Comida Árabe está no mesmo lugar há quase um ano. Fica no número 55 do Largo do Paissandu. O local foi interditado pelas autoridades que trabalham no rescaldo e na procura pelas vítimas do Edifício Wilton Pereira de Almeida, distante do seu negócio apenas 20 metros.

O incêndio que fez com que o prédio desabasse, ocorreu na madrugada de terça-feira, 01/05. Naquele dia, todos os estabelecimentos comerciais que ficam próximos ao prédio foram impedidos de abrir as portas pela Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil.

ABOUD SENTE DUPLAMENTE OS EFEITOS DA TRAGÉDIA.
ALÉM DO COMÉRCIO PARADO, O PRÉDIO ONDE MORA
TAMBÉM FOI INTERDITADO PELA DEFESA CIVIL

Aboud foi um dos inúmeros comerciantes da região afetados pela restrição. Seus lanches ficaram encalhados. Ao preço de R$ 13,00 cada, as iguarias chegam a levar 500 clientes ao estabelecimento em dias normais.
Com a tragédia, o movimento despencou.

“Como você pode perceber, a loja está vazia. Após a queda do edifício, 25 pessoas, no máximo, entram em nosso estabelecimento”, diz Aboud, com muitas dificuldades para falar o português.

Aboud foi duplamente atingido pelo desmoronamento do prédio. Ele morava no Condomínio Edifício Caracu, que fica ao lado do prédio que desabou. Não fazia parte do grupo que ocupava prédios vazios em São Paulo. Longe disso, pagava R$ 1,5 mil mensalmente de aluguel. “As autoridades desocuparam o prédio todo. Tive de ir para um hotel”, afirma.

O salão comercial onde ele faz as iguarias é alugado por R$ 6 mil por mês. Está no Brasil sozinho.

A entrada para a sua e as outras casas comerciais do Largo do Paissandu está interditada. Só entra quem disser que vai consumir no Ponto Chic, Restaurante Estrela do Paissandu, em duas barbearias e em uma loja de artigos de couro da região. São os únicos estabelecimentos comerciais que tiveram permissão para funcionar a partir do segundo dia de interdição.

ESTEVAN DIZ QUE O MOVIMENTO CAIU 80% EM SUA
LOJA DE BOLSAS

Dezenas de outras lojas estão fechadas.

Estevan Luís Souza Júnior é dono da Malas Guarujá. Ele herdou o estabelecimento do pai, que se aposentou em 1973. Ele também amarga prejuízos. “Quarta-feira, dia seguinte ao desmoronamento, não pude abrir. Abrimos a partir de quinta-feira, mas o movimento caiu 80%”, conta ele.

O gasto médio nas Malas Guarujá é de R$ 150,00. A mochila mais barata custa R$ 29,00, a mais cara sai por R$ 300,00.

Estevan mostra desalento ao comentar a falta de informações por parte das autoridades. “Ninguém fala nada."

José Trajano é o dono da Barbearia do Zé, que também fica dentro do espaço ocupado pelas autoridades que trabalham no rescaldo. “Antes da tragédia nós atendíamos oitenta clientes por dia. Agora, não passam de vinte.

SEM CLIENTES, E COM ALUGUEL DE R$ 6 MIL, JOSÉ
SE PREOCUPA COM O FUTURO DE SUA BARBEARIA


A escassez de clientes começa a preocupar José Trajano, que paga R$ 6 mil mensais de aluguel. “Não está fácil”, reclama.

BUSCAS

Os bombeiros localizaram na manhã de quarta-feira, 9/05, novos restos mortais em meio aos escombros do desabamento do prédio no Centro de São Paulo .

“Esses ossos foram encontrados no subsolo, um local diferente de onde foram achados os outros ossos de ontem”, disse o capitão Marcos Palumbo, porta-voz dos bombeiros. Segundo o capitão, isso reforça a hipótese de que os restos mortais pertençam a indivíduos diferentes.

A mãe e o irmão de Selma Almeida da Silva, uma das desaparecidas no desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, chegaram à capital paulista, vindos do interior da Bahia, para reconhecimento de restos mortais encontrados nos escombros.

Selma morava no local com os dois filhos gêmeos, que também são considerados desaparecidos. 

Os bombeiros consideram que mais seis pessoas podem estar ainda sob os escombros. Já a Defesa Civil conta como desaparecidas 72 pessoas – aquelas que ainda não se apresentaram às autoridades e constavam da lista de moradoras do edifício no último levantamento feito pela prefeitura antes do desabamento.

Isso não significa, porém, que todas estivessem no local no momento da tragédia, ressalta a Defesa Civil.

 

Foto: Wladimir Miranda