Brasil

Haddad cresce ou derrete? Resposta interessa a Alckmin


São maiores que se esperava as dificuldades para que Lula (dir.) transfira suas intenções de voto. Sem o nome do ex-presidente na urna eletrônica, eleitor tende a se abster


  Por João Batista Natali 05 de Setembro de 2018 às 11:35

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Há alguns dias o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, foi perguntado quem seria o mais votado no primeiro turno. A resposta foi um tanto paradoxal: não será um candidato a presidente, mas a soma dos brancos, nulos e abstenções.

Ou seja, um contingente de eleitores que não se reconhecerá entre as opções que aparecerão na urna eletrônica.

A tendência tem até uma vertente histórica. Nas presidenciais de 2010. esse tipo de eleitor totalizou 25%, e, quatro anos depois, 27%. Acontece que desta vez, de acordo com as pesquisas, o grupo daria um salto para 39%.

Pois bem, um levantamento do site Poder360 revela que o “não voto” cresce em 23 Estados, e mais no Distrito Federal, onde Lula deixou de ser uma opção.

Uma maneira de interpretar esse fato é a seguinte: uma quantidade imensa de eleitores tende a não aceitar a recomendação do PT para que as intenções de voto do ex-presidente sejam transferidas para Fernando Haddad.

Escapam a essa regra apenas Ceará, Mato Grosso e Pará. No entanto, em outros Estados com maior densidade eleitoral, como Pernambuco, o “não voto” supera 40%. O mesmo ocorre em colégios menores como Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe.

A moral provisória dessa história tem dois aspectos. O primeiro é de que será menor do que o PT espera a transferência de intenções de Lula para Haddad.

O segundo aspecto é igualmente óbvio: com Haddad desidratado, aumentam as chances de Geraldo Alckmin chegar ao turno final.

Nenhuma dessas conclusões estão explícitas no levantamento que o Poder360 publicou na terça-feira (4/9). Mas elas podem ser responsavelmente deduzidas a partir da metodologia usada.

Por essa metodologia, comparou-se o resultado final das eleições presidenciais de 2010 e 2014 com o conjunto das pesquisas até agora publicado.

Nos dois casos, voto branco ou nulo é uma coisa só. Na outra ponta, a ausência do eleitor nas votações já realizadas é assimilada à indefinição da escolha que, agora em outubro, ele poderia fazer.

DIFICULDADE DE ACENDER O POSTE

Vejamos as duas eleições –para presidente, em 2010, e para a prefeitura de São Paulo, em 2012 -em que nomes menos conhecidos dentro do próprio PT saíram vitoriosos das urnas em razão do apoio insistente de Lula.

Na primeira eleição de Dilma, o hoje ex-presidente era dono de uma popularidade invejável, com índices de aprovação superiores a 80%. E o país havia superado rapidamente a tempestade que se abateu em 2008 (crise do sub-prime) na economia mundial.

Votar em Dilma, para o eleitor petista ou simpatizante, significava assegurar o prosseguimento políticas agressivas de inclusão e de crescimento do emprego.

Em 2012, a adesão ao candidato de Lula foi igualmente bem-sucedida. Eram eleições municipais, e o PT concorria em centenas de municípios.

Mas o ex-presidente concentrou seu esforço em São Paulo. Não apenas pela importância econômica e demográfica da cidade, mas porque uma vitória de Haddad significaria também a derrota de José Serra (PSDB).

Lula foi então bem mais que um apoiador. No horário eleitoral do rádio, transformou-se em âncora que introduzia entrevistas, conversava com eleitores e, ao fim, abria o microfone para falar Fernando Haddad, seu ex-ministro da Educação.

O candidato petista foi eleito, mais pelos méritos de Lula e bem menos por seus próprios méritos.

Essa mágica não chegou a funcionar em 2016. O prestígio do PT estava em queda após a Lava Jato e o impeachment de Dilma, e mesmo com o voto útil dentro da esquerda no primeiro turno (Haddad desidratou a candidatura de Luíza Erundina, do Psol), foi impossível conter o furacão tucano de João Doria.

A PRISÃO E AS MÃOS ATADAS

Para a candidatura presidencial de Haddad –que poderá ser oficializada pelo PT na próxima terça-feira (11/9), prazo dado pela Justiça Eleitoral –os complicadores são bem maiores.

Lula está preso em Curitiba, desde 7 de abril, e, por mais que tenha liderado as intenções de voto para o Planalto, são grandes as dificuldades logísticas para trabalhar por seu candidato.

O Tribunal Superior Eleitoral limita sua participação como “apoiador” na campanha presidencial petista a no máximo 25% do horário reservado ao PT.

Não poderá viajar pelo país em companhia de Haddad, adaptando os discursos às singularidades regionais do eleitor.

E o PT não tem apenas, diante de si, um candidato do PSDB para ser derrotado. Precisará, se for o caso, preocupar-se com Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede), que disputam o eleitorado de esquerda, e, sobretudo, Jair Bolsonaro (PSL), o candidato da direita para quem as chances de chegar ao Planalto passam hoje pela possibilidade de disputar com o PT o turno final de outubro.

É um quadro complicado, em que também existe como agravante a lógica judicial do Lula presidiário (ele fará de tudo para esgotar os recursos que acredita ainda dispor para se candidatar a presidente) que nem sempre coincide com a lógica eleitoral do PT.

Caso essa última prevalecesse, Lula já teria desistido de sua própria candidatura, para que o nome de Haddad circulasse nacionalmente como seu concorrente.

Mas o que está acontecendo é uma espécie de esconde-esconde com o Judiciário.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impugnou a candidatura petista por seis votos a um. Mesmo assim, Lula quer recorrer ao STF e ainda instrumentalizar a seu favor a Comissão de Direitos Humanos da ONU, cujas decisões não têm valor legal no Brasil.

Estamos nesse pé.  

 

 

FOTOS: Ricardo Stuckert/Divulgação