Brasil

Faltou ousadia ao líder Tite


Com uma campanha irretocável à frente da Seleção Brasileira, Tite virou unanimidade nacional. Mas não foi ousado na escolha dos 23 jogadores que irão disputar a Copa da Rússia


  Por Wladimir Miranda 15 de Maio de 2018 às 18:25

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Adenor Leonardo Bacchi, este é o seu nome completo. Porém, poucos brasileiros são capazes de ligar o nome ao personagem. Mas se grafar apenas Tite, seu apelido, o Brasil e, por que não dizer, o mundo, o conhece.

O técnico da Seleção Brasileira virou unanimidade nacional. Ele assumiu o comando de uma equipe desacreditada que, com Dunga à frente, um treinador que nunca fez questão de ser simpático e se notabilizou por usar métodos arcaicos, tanto de treinamentos como no relacionamento com o grupo, corria sérios riscos de não se classificar para a Copa do Mundo da Rússia, que começa dia 14 de junho próximo.

Tite começou a dirigir a seleção em junho de 2016. O desafio era enorme. O time ocupava a incômoda sexta posição nas Eliminatórias para a Copa da Rússia. Pior: não estava entre os classificados para o mundial. Seria algo inédito não conseguir um lugar entre os que estarão na Rússia. Algo tão ou mais trágico do que os 7 a 1 que sofreu da Alemanha na copa disputada no Brasil em 2014.

Em onze jogos nas Eliminatórias Sul Americanas, Tite e cia conquistaram nove vitórias e dois empates. A vaga foi garantida muito antes do esperado.

Nesta segunda-feira, 14/05, o técnico que conquistou o carinho e o respeito de todos os brasileiros divulgou a lista dos 23 jogadores inscritos para o mundial.

Nenhuma surpresa. Previsível, escolheu a maioria dos jogadores que vinha chamando desde que foi colocado no posto pela direção da Confederação Brasileira de futebol (CBF).

Por isso, há o perigo de que Adenor esteja incorrendo no mesmo erro cometido por Luiz Felipe Scolari em sua lista de convocação para a Copa de 2014. Na ocasião, Felipão fechou com o grupo que havia conquistado a Copa das Confederações, disputada também no Brasil um ano antes do mundial, e o resultado, ou os resultados, todos conhecem.

O Brasil foi humilhado pela Alemanha na fase semifinal ao ser goleado por 7 a 1 e, na disputa da terceira posição do torneio, fracassou novamente ao ser massacrado pela Holanda e derrotado por 3 a 0.

Ou seja, sofreu dez gols em dois jogos. E só marcou um.

Felipão ficou empolgado com o rendimento do time na Copa das Confederações, em que o Brasil foi campeão, sem se dar conta de que a competição não é levada a sério pelas seleções que dela participam, notadamente os europeus.

Felipão, escorado no sucesso que conseguiu em 2002, com a conquista do pentacampeonato pela sua “família Scolari”, recusou-se a fazer alterações em seu esquema tático e o que se viu em campo foi um time com enormes dificuldades para superar adversários de nível médio como Colômbia e Chile e ser goleado vergonhosamente por Alemanha e Holanda.

Claro, há uma imensa diferença na maneira de Tite e Felipão pensar o futebol.

Tite é um estudioso da matéria. Antes de assumir o comando da Seleção Brasileira, foi para a Europa acompanhar os mais modernos métodos de treinamentos colocados em prática pelos treinadores europeus de sucesso.

Um deles, o italiano Carlos Ancelotti, passou a ser um de seus ídolos. De sua parte, Ancelotti passou a admirar o trabalho do colega brasileiro.

TITE PREFERIU CONVOCAR JOGADORES QUE ESTÃO COM ELE DESDE 2016, QUANDO ASSUMIU
A SELEÇÃO

Mas há ressalvas a fazer na lista de convocados de Tite. Se não formou a “família Tite”, deu preferência a quem caminhou com ele desde o início da jornada, em junho de 2016, na arrancada que resultou em nove vitórias e dois empates nas eliminatórias.

Poderia ter sido mais ousado. Não quis abrir mão de Renato Augusto, volante e meia que está em má fase no seu time, o Beijing Guoan, da China, e insistiu em chamar o atacante Taison, do Shaktar, que nas vezes em que foi convocado, nunca encheu os olhos dos torcedores brasileiros.

Para o lugar de Renato Augusto, seu ex-jogador dos tempos em que treinava o Corinthians, Tite, caso quisesse ousar, bem que poderia levar Artur, do Grêmio, um dos destaques do time gaúcho na recente conquista da Copa Libertadores da América, e comprado pelo Barcelona.

Outro que também merecia integrar a lista de Tite é o meia Luan, figura fundamental na conquista do Grêmio.

Para o ataque, Vinícius Júnior, comprado pelo Real Madrid ao Flamengo, seria uma alternativa a ser usada quando o time precisasse de um jogador que unisse velocidade e criatividade para furar bloqueios defensivos, que certamente serão utilizados pelos adversários brasileiros no mundial.

Outra opção, caso Tite quisesse alçar voos mais altos e sair do lugar comum, seria convocar Rodrygo, jovem revelação do Santos, que anda encantando torcedores santistas ou não, com seus dribles e arrancadas pelos lados do campo.

Falta de ousadia que não tira os méritos do treinador gaúcho, que nasceu em Caxias do Sul há 57 anos.

Ele é um líder. Segundo Renato Grinberg, especialista em gestão e liderança, o treinador da seleção é o “melhor líder esportivo do país”.

Segundo o especialista, um dos motivos do bom rendimento da equipe é a forma como o técnico conduz o grupo de jogadores.

“Tite conseguiu, claramente, fazer um turnaround (virada de jogo) em uma equipe cheia de problemas, que passou a ter maior probabilidade de vencer o campeonato”, diz Grinberg.

Para Renato Grinberg, Tite tem muitas valências como líder. Entre as virtudes, ele destaca a facilidade que o técnico tem para criar lideranças.

“Tite sabe que não pode existir apenas a liderança do técnico em uma equipe de futebol. Há que se incentivar o aparecimento de novas no grupo”, afirma.

Este é um aspecto que marca o trabalho de Tite na seleção.

Desde que ele assumiu o grupo, tem dado a faixa de capitão para vários jogadores. Ao longo da história, a Seleção Brasileira sempre teve um único capitão. Com Tite, o “posto” pula de braço em braço. No amistoso contra a Croácia, em 03/06, o privilégio será do novato atacante Gabriel Jesus.

“Tite já demonstrou que a vitória e a derrota fazem parte do jogo e são importantes para atingir o resultado final. Seu trabalho vai além. Como um bom líder, sabe passar isso para o time em todos os momentos, mostrando que o importante é a preparação da equipe e que cada um dê o melhor de si para alcançar um mesmo resultado no final: a vitória, seja ela dentro ou fora do campo de futebol”, exemplifica Grinberg.

VEJA A LISTA DOS CONVOCADOS POR TITE 

Goleiros:
Alisson (Roma)
Cássio (Corinthians)
Ederson (Manchester City)

Laterais:
Danilo (Manchester City)
Filipe Luís (Atlético de Madrid)
Marcelo (Real Madrid)
Fagner (Corinthians)

Zagueiros:
Marquinhos (PSG)
Miranda (Inter de Milão)
Thiago Silva (PSG)
Geromel (Grêmio)

Meio-campistas:
Casemiro (Real Madrid)
Renato Augusto (Beijing Guoan)
Fernandinho (Manchester City)
Paulinho (Barcelona)
Philippe Coutinho (Barcelona)
Willian (Chelsea)
Fred (Shakhtar)

Atacantes:
Neymar (PSG)
Gabriel Jesus (Manchester City)
Roberto Firmino (Liverpool)
Douglas Costa (Juventus)
Taison (Shakhtar)

 

IMAGEM: Agência Brasil