Brasil

Falta de investimentos e de gestão, eis o nó do setor de energia


Em seminário promovido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) alguns dos principais especialistas no tema debateram os caminhos para reformular o setor


  Por Renato Carbonari Ibelli 04 de Agosto de 2015 às 19:21

  | Editor rcarbonari@dcomercio.com.br


O custo elevado da energia elétrica tem funcionado como uma âncora para a economia, afetando a produção industrial e o poder de compra dos consumidores. 

A eletricidade chega em nossas casas hoje 50% mais cara do que no ano passado, e o preço não deve baratear muito em 2016, de acordo com especialistas presentes nesta terça-feira (4/08) no seminário “A Política Energética Brasileira”, organizado pelo Conselho de Infraestrutura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). 

É consenso que não faz sentido o país possuir um enorme potencial energético e ter um custo de geração que é um dos mais elevados do planeta.

Mudar isso passaria pela readequação da matriz elétrica nacional, que hoje despreza o potencial solar e subutiliza o e eólico e aquele proveniente da biomassa. 

As hidrelétricas compõem a base dessa matriz, com uma participação atual de 65 %. Não há problema nisso, uma vez que o país dispõe de uma enorme capacidade hídrica e a energia produzida por essa fonte é barata e limpa.

A questão é que, ao longo dos últimos últimas três décadas, a maior parte das hidrelétricas instaladas não foram compatíveis com a realidade do país. 

Como afirmou o físico José Goldemberg, ex-ministro de Ciências e Tecnologia, desde 1985 a maior parte das usinas implantadas não possuem reservatórios.

GOLDEMBERG: ATÉ 2023 A CAPACIDADE DE GERAÇÃO DAS HIDRELÉTRICAS CRESCE 35%, MAS A DOS RESERVATÓRIOS, APENAS 2%

São as chamadas ‘usinas a fio d’água’, assim batizadas pela falta de capacidade de armazenar grandes volumes de água, dependentes das chuvas para operar.

Desde então tem ocorrido um descolamento entre o aumento do potencial hidrelétrico instalado e a capacidade de armazenamento das usinas.      

De acordo com Goldemberg, até 2023 a expectativa é que o potencial instalado cresça 35%, mas o armazenamento, apenas 2%.

O físico e professor explicou que pressões de grupos ligados ao meio ambiente praticamente inviabilizaram as usinas dotadas de reservatórios.

“Faltou aos governos esclarecer a população. Realmente há impacto na instalação de uma hidrelétrica. Afeta em média 20 mil pessoas, mas beneficia 1 milhão”, disse Goldemberg durante o seminário da ACSP.

Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostra que de 50 projetos de usinas à fio d´água estudados, 35 poderiam ter reservatórios.

Nessa realidade, quando faltou chuva em 2012 as hidrelétricas não puderam dar conta do abastecimento. Foi quando as térmicas foram acionadas. Elas queimam gás e diesel para gerar eletricidade, o que evidentemente é mais caro do que deixar a água fazer esse trabalho. O preço da geração da energia aumentou.

Se o país dispusesse de uma matriz energética mais diversificada poderia suportar a falta de chuva sem depender tanto dos despachos das térmicas.

Mas segundo Goldemberg, não há previsão de grandes mudanças na matriz do país pelo menos até 2023, com exceção da eólica, que deve crescer dos atuais 2% para 8,1%. 
 
PODER DOS VENTOS

O pais deve fechar 2014 com 5,9 Gigawatts (GW)de capacidade eólica instalada (aqueles 2% da matriz), o que colocava o Brasil na 10° posição entre as nações que mais se utilizam dessa fonte.

Já com relação aos investimentos no setor o país se colocou no ano passado entre os quatro primeiros do mundo, atrás apenas de China, Alemanha e Estados Unidos.

Esses investimentos devem fazer o potencial eólico instalado crescer para 7 GW segundo projeção de Sandro Yamamoto, diretor técnico da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), elevando para 2,5% a participação dessa fonte na matriz.

“A energia eólica complementa a hídrica perfeitamente. Os ventos aumentam no segundo semestre, justamente quando as chuvas diminuem”, disse Yamamoto.

O potencial eólico brasileiro é enorme, capaz de dobrar a capacidade de geração instalada no país atualmente, considerando todas as fontes, de acordo com a Abeeólica.

Os ventos são propícios para a geração de energia, especialmente no Nordeste, onde correm a 7 metros por segundos de média, com picos de 12 metros por segundo.

“As condições são melhores do que as encontradas nas China ou nos Estados Unidos”, disse Yamamoto.  

Mas há entraves a este potencial. Hoje há dez parques eólicos prontos para produzir energia, mas não conseguem fazer o que geram entrar no sistema porque as linhas de transmissão não chegaram até eles. O problema foi maior - já foram 40 os parques parados por não estarem conectados ao sistema – e até o final do ano deve estar superado.

DESPERDÍCIO 

O caminho para expansão é um pouco mais longo para o setor de energia solar, embora o momento seja propício para esta fonte, segundo Paulo Cezar Tavares, diretor da SOLenergias, empresa que atua na área. 

“Com o preço da energia elétrica elevado, a implantação de painéis solares vira uma alternativa para quem quer economizar”, comentou Tavares no seminário.

Embora a economia trazida pela geração solar seja grande, o gasto inicial para instalação dos painéis ainda é considerado elevado, o que prejudica a disseminação desses equipamentos em residências e plantas industriais e comerciais. 

Hoje o país possui 15 MW instalados de capacidade solar, o que representa 0,01% da matriz. Quase nada. Um desperdício, já que o nível de insolação por aqui é um dos melhores do mundo. 

Embora o preço dos painéis solares tenha reduzido consideravelmente nos últimos anos, a tributação brasileira ainda onera o equipamento.

O componente mais importante do painel é o inversor fotovoltaico – que converte a corrente elétrica para o padrão usado comercialmente –, que tem mais de 60% de carga tributária. 

Os painéis em si recebem benefícios fiscais, como a redução de IPI e ICMS. Mesmo assim, 30% do seu preço corresponde a impostos. 

Um caminho alternativo seria oferecer linhas de financiamento mais adequadas ao setor para impulsionar essa fonte. “Na Europa e nos Estados Unidos o leasing fez o uso da energia solar disparar. Por aqui ainda não temos prazos tão interessantes”, disse Tavares.   

O prazo máximo hoje para financiar a compra de painéis é de cinco anos, mas o setor diz que 10 anos seria o mais adequado. 

TRAVA AO DESENVOLVIMENTO

Para Luiz Gonzaga Bertelli, coordenador do Conselho de Infraestrutura da ACSP, o investimento nas matrizes energéticas é indispensável para o desenvolvimento do pais. “Energia é um insumo básico. Quando tem o preço elevado, afeta o ritmo da economia”, disse.

O problema energético do país não se limita ao setor elétrico. “O aumento da produção de etanol pode reduzir a nossa necessidade de importação de derivados do petróleo. Mas o setor do etanol enfrenta problemas.

BERTELLI, DA ACSP, DIZ QUE DEZ USINAS DE AÇÚCAR VÃO FECHAR ATÉ O FINAL DO ANO

Das 355 usinas de açúcar em operação, dez devem fechar até o final do ano”, comentou como lembrou Bertelli.

Um dos principais vilões dos problemas no setor de etanol foi a manutenção pelo governo federal dos preços da gasolina em patamar baixo de maneira artificial, o que ocorreu nos últimos cinco anos. 

A disputa por preços nas bombas obrigou as usinas a baixarem o preço do etanol, reduzindo a lucratividade do setor. 

Esse problema hoje é menor. Mas segundo Plínio Nastari, presidente da Datagro, ainda há muito o que se fazer para estimular o etanol brasileiro, como melhorar a regulação do setor. 

“A comercialização do etanol é frágil. Ele funciona totalmente à vista, o que não permite precificação”, disse Nastari. 

Apostar no etanol também coloca o Brasil em linha com o que foi decidido entre os países do G7, que buscam a erradicação da energia gerada por meio de derivados do petróleo até 2100. 

“Os países não vão esperar todo esse tempo para fazer seus programas de redução, mas o Brasil, com todo esse potencial, não tem nada previsto ainda”, comentou Nastari.  

Essa meta definida pelo G7 também traz pressão à indústria do petróleo brasileira, segundo Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

“O pré-sal ficou seis anos sem leilões. Com as metas de redução do uso de derivados do petróleo o país pode deixar no subsolo grande parte desse recurso”, disse Pires no seminário da ACSP.

PIRES, PRESIDENTE DO CBIE, PEDE MAIS LEILÕES PARA TIRAR A PETROBRAS DO BURACO

Ele lembrou também dos problemas enfrentados pela Petrobras, e disse que eles serão superados só no longo prazo. “Se olharmos para dívida da Petrobras chegamos a R$ 194 bilhões. A dívida é cinco vezes a geração do caixa da empresa. Então, os próximo s cinco anos serão apenas para equacionar a dívida”, comentou.

Dos R$ 194 bilhões da dívida da estatal, Pires estima que R$ 60 bilhões decorrem da política de controle de preços praticada pelo governo.

“Superar o problema não simples, principalmente agora que o preço do barril do petróleo se fixou em US$ 54, valor 50% inferior ao de quatro anos atrás. Não vejo mais como os preços voltarem a ficar acima de US$ 100”, disse Pires.

FOTOS: Paulo Pampolin/ Hype