Brasil

Eleição de outubro? Por enquanto, só indefinições


As eleições presidenciais foram o tema de debate do Conselho Político e Social da ACSP. Paulo Delgado, ex-deputado federal petista (à dir. na foto), disse que Lula "é um espantalho no jardim da esquerda, que não deixa nenhuma outra ave pousar"


  Por João Batista Natali 19 de Março de 2018 às 15:40

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Em debate sobre as eleições presidenciais deste ano, integrantes do Conselho Político e Social (Cops) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) discorreram, nesta segunda-feira (19/03), sobre a ampla indefinição dos cenários disponíveis.

“Parece que ainda falta um século para votarmos”, disse o deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), assinalando que, nas eleições anteriores, por volta de março os partidos já haviam definido seus candidatos e propostas, e as campanhas já estavam nas ruas.

E isso com alguns paradoxos, segundo o ex-deputado Paulo Delgado (MG), como a constatação de que o que era anacrônico – menção aos governos do Partido dos Trabalhadores – já passou, mas o personagem que encarna esse período ainda está atuante, numa alusão indireta a Lula.

Estamos diante de fatores desconhecidos, disse o ex-deputado e ex-ministro tucano Pimenta da Veiga. O financiamento público de campanha tende a mudar o perfil da disputa, com maior controle dos gastos pela Justiça Eleitoral. “Estamos agora longe do modelo de financiamento privado que em 2014 permitiu, apenas em Minas Gerais, que o PT gastasse com seus candidatos R$ 300 milhões.”

O debate foi aberto por Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), que constatou atravessarmos “um momento muito delicado para a política brasileira”.

ALCKMIN, UM DOS FINALISTAS

Os trabalhos foram dirigidos pelo ex-senador Jorge Bornhausen (SC), que é o coordenador do Cops. Apelando para que se “fulanizasse” a discussão, expressão do ex-vice-presidente da República, Marco Maciel, Borhnausen disse acreditar ser mais plausível que o segundo turno seja disputado, no final de outubro, por um finalista do PT e um outro do PSDB.

A presença no segundo turno do tucano foi também evocada por Pimenta da Veiga. Segundo ele, o governador de São Paulo e virtual candidato presidencial tucano é um homem do compromisso e da conciliação, o que traz sua candidatura para o centro do tablado político e afasta o perigo dos radicalismos.

Não houve consenso, no entanto, sobre qual seria, nessa forma de polarização, o concorrente petista. A única certeza era a de que Lula não poderia se candidatar. Referindo-se ao ex-presidente, Delgado – um ex-petista – qualificou-o de “um espantalho no jardim da esquerda que não deixa nenhuma outra ave pousar”.

Pimenta da Veiga disse não ter certeza de que o PT terá fôlego para chegar ao segundo turno. Acredita que, se for para apostar num dos nomes da esquerda, esse candidato seria mais provavelmente Ciro Gomes (PDT).

Outro tema levantado foi o de candidatos regionais de pequenos partidos que tendem a atrapalhar os nomes mais viáveis. A citação coube perfeitamente ao senador Álvaro Dias (Podemos-PR), que tem votos no Paraná e em Santa Catarina, mas que tende a atrapalhar o PSDB.

E não é por acaso que ele pode receber o apoio do prefeito de Manaus, Artur Virgílio, que tentou disputar a candidatura tucana com Alckmin.

Os participantes do debate foram bastante críticos com o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que, para o deputado Heráclito Fortes, “é o candidato daqueles que perderam a fé”.

Por mais que durante o debate as discussões personalizassem bem pouco as candidaturas do segundo turno, nenhum dos participantes situou Bolsonaro nesse papel.

JUDICIALIZAÇÃO DA POLÍTICA

Pimenta da Veiga foi bastante duro com o Judiciário e, sobretudo, com o Supremo Tribunal Federal (STF), onde, segundo ele, os onze ministros concebem a República de onze maneiras diferentes, levando-os a substituir o Executivo e o Congresso em suas constantes decisões.

“Cada um deles decide ao seu bel prazer”, afirmou. Eles são, em verdade, “onze tribunais diferentes”.

Paulo Delgado, ainda mais mordaz, afirmou que “há ministros do Supremo querendo que país vista a sua fantasia pessoal. Não adianta nada estar na frente, se a pessoa está na estrada errada.”

Delgado disse acreditar que as indecisões do STF e a partidarização de alguns de seus ministros são indiretamente responsáveis pela sobrevivência política do ex-presidente Lula. O Supremo, disse ele, “é hoje o poder mais conservador” da República.

Delgado e Pimenta da Veiga evocaram a cláusula de barreira votada pelo Congresso em 1995 e que o STF julgou inconstitucional, o que levou à proliferação de pequenos partidos de aluguel. A nova versão da cláusula, do ano passado, é mais tímida e apenas retira o fundo partidário e o tempo de TV dos partidos sem representação parlamentar.

Heráclito Fortes disse que, mesmo assim, a própria existência desse fundo se tornou um instrumento de venalidade descarada na política.

Citou um notório candidato presidencial nanico que na semana passada afirmava, nos corredores do Congresso, que tinha R$ 8 milhões para dar a algum deputado eleitoralmente viável. Isso porque, só com deputados eleitos, o partido continuaria a receber o dinheiro do fundo.

Depois de ouvir atentamente revelações semelhantes, um dos mais reputados conselheiros do Cops, o professor da USP José Pastore, especialista em CLT e reforma trabalhista, confessou-se “desanimado”.

Isso porque “os problemas estruturais da economia brasileira ainda não foram resolvidos”. Para que isso aconteça, são necessárias decisões políticas, que o próximo Congresso aparentemente não terá noção de como resolver.

IMAGEM: Patricia Gomes Baptista/ACSP