Brasil

Eike, de "campeão nacional" a procurado pela Interpol


Empresário deveria ter sido preso em operação da Polícia Federal que apura propina de US$ 16,5 milhões ao ex-governador do Rio, Sérgio Cabral


  Por João Batista Natali 26 de Janeiro de 2017 às 15:36

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Eles foram dois exemplos de como não fazer política e de como funciona no mundo dos negócios a rapinagem contra o Estado..

Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro (2007-2014), está preso desde 17 de novembro de 2016. Eike Batista deveria ter sido preso nesta quinta-feira (26/01), mas está foragido, e a Polícia Federal já pediu que ele fosse localizado pela Interpol.

Cabral e Eike se cruzam por terem sido parceiros em operações de corrupção que podem ter chegado a US$ 100 milhões (R$ 318 milhões), segundo o procurador Leonardo Freitas, do Ministério Público Federal.

No maior malabarismo para a entrega de propina, o ex-governador recebeu do empresário US$ 16,5 milhões, sob a forma da compra fictícia de uma mina de ouro.

Outro cruzamento entre Cabral e Eike está no fato de ambos terem sido favorecidos pelo ex-presidente Lula.

Cabral, do PMDB, controlava sua bancada na Câmara e no Senado, com provas sucessivas de fidelidade ao Planalto. Seu principal operador era o deputado Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e agora também preso por corrupção.

Eike, por sua vez, integrava um pequeno círculo de eleitos no meio empresarial, que Lula e o Partido dos Trabalhadores acreditavam poder integrar uma espécie de vanguarda do empresariado.

Seriam os os chamados campeões nacionais, que, para crescer, recebiam leis favoráveis, contratos com o governo e financiamentos do BNDES.

A falsa prosperidade desse modelo é exemplificada com a fotografia na qual Eike, Lula e Dilma, com uniformes de petroleiros, mancham as mãos de petróleo supostamente extraído pela OGX, que deveria se tornar a grande concorrente privada da Petrobras.

A prisão de Eike foi pedida pelo juiz Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro, pela “necessidade de estancar imediatamente a atividade criminosa”.

Bretas comanda a segunda etapa da Operação Calicute, batizada de Eficiência, e que é um desdobramento fluminense da Lava Jato.

É ATÉ POSSÍVEL QUE EIKE NÃO VOLTE

Essa operação demonstra mais uma vez que o combate à corrupção não está circunscrito à Petrobras e à equipe do juiz Sérgio Moro, em Curitiba.

O advogado de Eike afirma que em dois dias ele se apresentará à Justiça, e que ele embarcou a negócios, na última terça-feira, num voo da American Airlines, do Rio para Nova York.

Mas a polícia teme que ele tenha planos para permanecer foragido no exterior. O embarque se deu com um passaporte alemão.

A mãe de Eike, Jutta Fuhrken, nasceu em Hamburgo. Seu pai, Eliezer Batista, foi presidente da Companhia Vale do Rio Doce e ministro das Minas e Energia.

Eike chegou a procurar espontaneamente os procuradores da Lava Jato, no final de 2016, para afirmar – foi a versão dele, na época – que havia sido vítima do ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, que lhe pediu uma “doação” de R$ 6 milhões, em caixa dois, para a campanha à reeleição de Dilma Rousseff, em 2014.

Ele disse também que foi procurado por Mônica Moura, mulher de João Santana, para cobrir despesas de campanha da ex-presidente.

Em verdade, o empresário contou apenas uma pequena parte do que sabia e acreditou que, com isso, permaneceria longe dos tentáculos da Justiça.

Seus vínculos com Sérgio Cabral, agora esclarecidos, referem-se à propina e a incentivos fiscais do Estado do Rio de Janeiro, durante o mandato do ex-governador.

Cabral teria sugerido que, além da mina de ouro fictícia, parte dessa propina fosse paga com a compra de ações de empresas brasileiras na Bolsa de Nova York.

Dos US$ 100 milhões que ele desviou, mais de US$ 80 milhões já foram recuperados pela Polícia Federal. Há entre os ativos lingotes de ouro, diamantes e joias.

UM BLEFE NO CAPITALISMO BRASILEIRO

Quanto a Eike Batista, ele foi com certeza o maior blefe da recente história do capitalismo brasileiro, acasalando a própria megalomania com a ideia ilusória de grandeza que Lula procurou dar aos empresários que lhe eram próximos.

Em 2011, no auge dessa ilusão, Eike Batista chegou a ser o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna calculada em US$ 30 bilhões.

Ele quebrou porque suas empresas, sobretudo a OGX (petróleo e gás) não entregaram ao mercado os resultados que prometiam.

O plano consistia em explorar a Bacia de Campos com base em informações privilegiadas que teriam sido entregues por ex-engenheiros da Petrobras que ele contratou.

Com a descoberta de que o rei estava nu, as ações das chamadas “empresas X” começaram a cair. Eike tentou uma parceria com o banco BTG Pactual para recuperar a credibilidade.

O tiro de misericórdia veio em julho de 2013, quando Eike admitiu não poder cumprir as metas de exploração de petróleo.

Isso arrastou para baixo a cotação das ações de todas as demais empresas do grupo EBX. Três meses depois, o grupo deixava de pagar US$ 44,5 milhões a credores estrangeiros.

Era o final patético de um projeto desenhado para ser grandioso.

Sérgio Cabral também terminaria do mesmo jeito. Além da descoberta do imenso esquema de corrupção que chefiou, o ex-governador também é o responsável direto da imensa crise fiscal que quebrou o Rio de Janeiro, provocando a queda da qualidade ou a supressão de serviços públicos e a dependência de um plano de recuperação com o governo federal.

FOTO: José Cruz/Agência Brasil






Publicidade


Publicidade



Publicidade



Publicidade




Publicidade



Publicidade




Publicidade