Brasil

Eduardo Cunha está em vias de se tornar um cadáver político


Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão nas duas residências dele. Comissão de Ética votou por continuar o processo que poderá cassá-lo


  Por João Batista Natali 15 de Dezembro de 2015 às 13:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O deputado Eduardo Cunha deu nesta terça-feira (15/12) dois novos passos na direção de se transformar em cadáver político.

A Polícia Federal, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), lançou-se, entre 6h e 11h30, em operação de busca e apreensão nas duas residências dele, em Brasília e a do Rio de Janeiro.

Pouco depois das 12h30, o Conselho de Ética da Câmara aprovou, por 11 votos a nove, o prosseguimento das investigações contra ele por quebra de decoro parlamentar.

O processo tende a terminar com a cassação do mandato do deputado, que mentiu em depoimento à CPI da Petrobras, ao negar ter conta bancária na Suíça.

Além de documentos apreendidos em sua casa de Brasília, cujo conteúdo é ainda desconhecido, Eduardo Cunha teve apreendidos três telefones celulares e dois computadores. Os policiais ganharam acesso, com isso, aos seus e-mails e mensagens de whatsapp.

A situação de Cunha parecia tão delicada e precária que no final da manhã, no Congresso, ganhavam credibilidade declarações do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) de que era iminente a renúncia dele. Um pouco mais tarde, o próprio Cunha desmentiria esse rumor. Minimizou a importância da ação policial e a considerou "estranha", colocando-a sob a suspeita de favorecer os interesses do governo e do PT.

Do primeiro escalão peemedebista também tiveram suas casas vasculhadas pelo PF dois ministros da presidente Dilma Rousseff, Celso Pansera, da Ciência e Tecnologia, e Henrique Eduardo Alves, do Turismo.

Estava ainda na lista o senador Edison Lobão (PMDB-MA), que foi ministro das Minas e Energia do ex-presidente Lula e do primeiro mandato de Dilma.

É uma maneira de dizer que, além de Cunha, o governo, por meio de dois ministros, também saiu chamuscado.

Na casa de Cunha, na Península dos Ministros, um chaveiro foi convocado por volta das 10h para arrombar possivelmente um cofre.

O presidente da Câmara não saiu de casa e deixou de participar, na Câmara, de uma sessão especial em homenagem – vejam a ironia! - ao Ministério Público.

O pedido para desencadear a operação foi assinado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e deferido pelo ministro Teori Zavascki.

Segundo a Globonews, Janot também se movimentou para que a operação tivesse como alvo a residência do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), em pedido que Teori rejeitou.

Mas foram objetos da mesma operação peemedebistas muito próximos de Renan, como Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, e o deputado Anibal Gomes (PMDB-CE), ambos comprometidos com o propinoduto da Petrobras.

Eduardo Cunha é, no entanto, o personagem de maior valor simbólico. Ele foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por ter recebido US$ 5 milhões em propina, em contrato de locação de navios-sonda pela Petrobras. É objeto de inquérito por corrupção e lavagem de dinheiro.

Acabou prevalecendo sobre ele uma versão em nada provável de que sua participação no escândalo teve motivação individual.

No entanto, se ele foi remunerado pela corrupção na estatal, foi porque, desde que se elegeu deputado federal, em 2002 e foi um dos mais fiéis e combativos integrantes da base aliada nos governos Lula-1 e Lula-2 e também no Dilma-1.

Nas eleições presidenciais de 2014 ele trabalhou pela reeleição da atual presidente, com quem rompeu em fevereiro deste ano, ao disputar, contra chapas encabeçadas pelo PT e pelo PSB, a presidência da Câmara.

Não há uma ligação direta entre o Cunha vasculhado nesta terça-feira pela Polícia Federal e o Cunha que, como presidente da Câmara, instalou no início de dezembro a comissão especial de impeachment da Câmara.

É apenas esse segundo personagem que terá suas decisões analisadas amanhã (16/12) em sessão do STF, que também deverá deliberar sobre o ritual de impeachment a ser obedecido pelo Congresso.

Se o peso afeta um dos pratos da balança, isso automaticamente alivia o outro prato. Dilma é beneficiada (“eu nunca tive contas na Suíça”) e a ela interessa se colocar como vítima de Cunha no plano pessoal.

Com isso, o processo de impeachment não passaria de uma vingança do deputado e não o produto da petição assinada pelos juristas Miguel Reale Junior, Hélio Bicudo e Janaína Paschoal, que definiram a ocorrência de crimes de responsabilidade da presidente.

Oficialmente, o Planalto procura não tirar proveito dos episódios desta terça, mesmo porque, além de Cunha, dois ministros estão envolvidos. Nota da Secretaria de Imprensa afirma esperar que os fatos investigados “sejam esclarecidos o mais breve possível”.

Quanto ao PT, a ideia principal é a de não melindrar o PMDB em pleno procedimentos de impeachment. O partido sairia perdendo se os peemedebistas se unissem ao redor de Cunha, o que é inverossímil, em razão das divisões internas do partido no Congresso.

O vice-presidente Michel Temer reuniu-se pela manhã com seu homem de confiança, o ex-ministro Eliseu Padilha.

Nesta quarta, a Executiva Nacional do PMDB deveria se reunir para desfiliar Leonardo Picciani (PMDB-RJ), que tem manobrado com o auxílio do Planalto para voltar à liderança do partido na Câmara. Picchiani se opõe ao impeachment.

Mas a questão se tornou secundária diante do pequeno terremoto que se abateu nesta terça sobre o partido.
No total, a Polícia Federal cumpriu 53 mandados de busca e apreensão em oito Estados e no Distrito Federal. Em São Paulo foram 15 mandados, e em Brasília outros nove.

FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil







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