Brasil

E se o segundo turno de 2018 for entre Alckmin e Marina?


Cenário é levantado pelo cientista político Antônio Lavareda, em palestra na ACSP. Ele não acredita que Lula estará na disputa e acha que Doria é visto como inexperiente


  Por João Batista Natali 16 de Outubro de 2017 às 15:27

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A única certeza com relação às eleições presidenciais de 2018 é que elas serão tão fragmentadas quanto as de 1989 – na qual Fernando Collor e Lula se enfrentaram no segundo turno.

Dentro da prevista fragmentação –com número excessivo de candidatos no primeiro turno -, o cenário mais viável é o de que, desta vez, Lula não concorrerá. Sem ele, por enquanto a decisão final estaria entre Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB).

São estas algumas das previsões de Antônio Lavareda, cientista político e autor de 11 livros sobre questões eleitorais. Ele fez palestra nessa segunda-feira (16/10) na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Foi o convidado do encontro mensal do Conselho Político e Social (Cops), coordenado pelo ex-senador Jorge Bornhausen. Os trabalhos foram abertos por Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp).

Lavareda foi muito cuidadoso sobre os prognósticos, não tanto em razão dos 12 meses que ainda precedem o primeiro turno, mas pelo quadro fragmentado de candidaturas.

NÃO TEMOS UM POLVO PAUL

Empregou, nesse cenário, a expressão “um macaco atirando dardos”, usada por cientistas políticos norte-americanos quando se trata de antecipação problemática de resultados.

“A única predição plenamente exitosa foi a do polvo Paul”, que na penúltima Copa do Mundo acertou sete das sete previsões que lhe foram submetidas.

Mesmo assim, não se parte hoje da estaca zero, “apesar de uma taxa de fracionamento de 0,82” (dentro de uma escala de 0 a 1), o mesmo índice da primeira eleição direta para presidente depois da redemocratização.

As pesquisas dão hoje o segundo lugar ao deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), “mas ele não é competitivo para ganhar o segundo turno”, num cenário em que bem mais competitiva seria Marina Silva.

Ela aparece com 20% das intenções de voto, o que representaria 27% dos votos válidos no primeiro turno. Em 1989, Lula recebeu 17% dos votos nesse mesmo turno inicial.

Lavareda acredita que Marina, desta vez, “vai arrecadar na piscina de Lula também os 20% dos votos que Dilma Rousseff recebeu no primeiro turno de 2014”.

Ou seja, ela reúne condições para liderar a votação do turno inicial, ocupando o espaço político de centro-esquerda.

Ela disputaria no turno final a Presidência com o candidato do campo liberal mais próximo do centro.

Surgem, então, nomes como o do senador Álvaro Dias (Podemos-PR), que. no entanto, parte de um Estado de menor peso demográfico e eleitoral, e com uma reputação administrativa que empalidece entre os eleitores mais jovens – ele se elegeu governador do Paraná em 1986.

Restariam, como adversários potenciais de Marina, o prefeito paulistano João Doria (ainda PSDB), que para o eleitor ainda carece de preparo.

“É como se entregar a um cirurgião cardiologista formado em Harvard, mas há apenas 11 meses.”

O outro nome, por exclusão, é o do governador Geraldo Alckmin (PSDB), a quem Lavareda acredita que o eleitor atribui três características positivas fundamentais: preparo, equilíbrio e confiabilidade.

Assim, apesar dos senões provocados por um quadro político bastante complicado, a aposta do cientista político é de um segundo turno disputado por Marina Silva e Geraldo Alckmin.

O PAPEL DA TELEVISÃO

Apesar de toda a mística que surgiu sobre o papel das redes sociais, a mídia privilegiada de informação nas eleições de 2018 será a televisão, disse Lavareda.

Nas famílias com renda familiar inferior a cinco salários mínimos, o voto é definido a partir da TV por 70% dos eleitores.

Na população, como um todo, 47% têm renda inferior a dois salários mínimos. No Nordeste, essa fatia de renda é de 61% da população e no Sudeste de 41%.

Nas famílias de renda mais baixa, de até dois salários mínimos, 62% definem suas opiniões políticas pela televisão, com 40% com a programação em sinal aberto e com 20% por meio de parabólicas.

Entre esses eleitores e telespectadores, outra variante está no papel do presidente Michel Temer, cujo candidato teria hoje chances extremamente reduzidas de sucesso. Isso num quadro em que 68% das notícias sobre o governo são desfavoráveis, e apenas 9% favoráveis.

ALENCAR BURTI, PRESIDENTE DA ACSP, ABRE A SESSÃO DO COPS

Mas há dados contraditórios nessa imagem presidencial. Se de um lado 89% acreditam que Temer deveria ser processado a partir da segunda denúncia da Procuradoria Geral da República, cai para 40% os que acreditam que ele deveria concluir seu mandato.

A questão, no entanto, é outra. Quando os brasileiros estiverem votando no primeiro turno de 2018, a economia estará crescendo em 4%, segundo projeção do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros.

Não é o que fará de Temer um bom cabo eleitoral. Mas o fator econômico gerará confiança em termos de consumo e de segurança no emprego.

Tanto que para 44% dos brasileiros sua situação individual deve melhorar, contra 17% que pensam ao contrário.

Com esses dois fatores, cai na escala de valores o fator corrupção, que passou a ser associada ao Planalto, sobretudo depois da divulgação, em maio, da gravação de Joelhe Batista.

O papel de Temer não será, portanto, tão negativo no momento da eleição. “A imagem dele não será parecida à de José Sarney, mas também não terá as tonalidades mais positivas de Itamar Franco.”

 

FOTOS: Thais Ferreira/Diário do Comércio e Renato Santana de Jesus