Brasil

É inacreditável, mas Alckmim começou a decolar


Mas candidatura do ex-governador de São Paulo se compromete com o fisiologismo dos partidos do centrão, o que é ruim para as reformas


  Por João Batista Natali 30 de Julho de 2018 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A grande novidade política nos últimos dez dias tem nome e sobrenome: Geraldo Alckmin. O anúncio (19/7) da adesão do centrão à sua candidatura tornou finalmente viável uma opção liberal para a sucessão de Michel Temer.

Entre a divulgação da decisão desse grupo de cinco partidos (DEM, PR, PP, PRB e PSD) até a última sexta-feira (27/7), o índice Bovespa subiu 2.400 pontos e chegou a ultrapassar os 80 mil pontos na quinta passada.

As pesquisas de intenção de voto ainda não refletem a mais que provável ascensão do candidato tucano. Mas no último levantamento da XP/Ipespe ele apareceu pela primeira vez com 10%, embora crescendo dentro da margem de erro, que é de 3,2 pontos naquele levantamento.

Nada mal para quem, dependendo do instituto, permaneceu, nos últimos meses, afundado numa profunda palidez eleitoral, com 6% a 8% das intenções.

Em termos de pureza ideológica, o centrão é um aliado incômodo, porque, em lugar de propostas de políticas públicas, as exigências desses partidos são bem mais fisiológicas.

A adesão do grupo também pode prenunciar, em caso de vitória de Alckmin, quatro anos de “presidencialismo de coalizão”, com a distribuição de ministérios e cargos do segundo escalão, segundo a mesma receita que, sob os 13 anos de governos do PT, resultaram nos escândalos do mensalão e da Petrobras.

Em termos concretos, esses aliados com mais de 160 deputados na Câmara igualmente tendem a desvirtuar qualquer pauta consistente de reformas do Estado e, no caso da Previdência, estão tão vulneráveis quanto as esquerdas aos mais incômodos interesses cartoriais.

Um pequeno aperitivo sobre esses riscos foi dado pelo deputado Paulinho da Força (SD-SP). Ele ameaçou se retirar do acordo caso Alckmin não se comprometesse a recuar no dispositivo da Reforma Trabalhista que acabou com o imposto sindical.

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura (23/7), o candidato do PSDB afirmou que tal imposto estava definitivamente enterrado. Disse, no entanto, que apoiaria uma taxa de negociação que fosse decidida pelos assalariados.

A rigor, não há diferença entre uma coisa e outra. É um puro jogo de eufemismos, que indica que Paulinho da Força será satisfeito em sua exigência.

UMA ORIGEM MEIO TORTA

É também preciso reconstruir o caminho que levou o centrão ao colo de Geraldo Alckmin.

O grupo tem um líder inconteste, o ex-deputado Valdemar Costa Neto, paulistano de 68 anos, condenado a sete anos e dez meses de prisão pela corrupção praticada durante o mensalão, e que teve a pena progredida para prisão domiciliar, em seguida liberdade com tornozeleira e, por fim, liberdade integral, após indulto assinado por Michel Temer.

Costa Neto é o presidente do Partido Republicano (PR) e uma espécie de alma articuladora do centrão, condição a que chegou por sua proximidade operacional com o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), ex-presidente da Câmara e preso desde 2016.

Pois bem, Costa Neto foi um antigo aliado do PT desde 2003, quando, para não ficar nas mãos do MDB no Congresso, o então ministro da Casa Civil do primeiro governo Lula, José Dirceu de Oliveira, costurou um acordo com pequenos partidos em que a fisiologia se sobrepunha a qualquer outro interesse.

Pois Costa Neto permanece um amigo pessoal de Lula – preso em Curitiba por corrupção desde o início de abril. E foi Lula quem dissuadiu o ex-deputado a se aliar à candidatura de Ciro Gomes (PDT), concorrente do lulismo dentro da esquerda, dentro da estratégia eleitoral meio amorfa que os petistas por enquanto manifestam na sucessão presidencial.

A maior prova de que isso é verdade está no depoimento do próprio Ciro Gomes, na noite de domingo (29/7), no programa A Hora do Voto, da TV Gazeta de São Paulo.

Sem o centrão, Ciro Gomes parte desesperadamente para a tentativa de se aliar ao PSB, para não ficar com uma minguada propaganda eleitoral gratuita.

O interesse de Lula em favorecer indiretamente Geraldo Alckmin tem duas explicações. Ou ele acredita que seu candidato – quase certamente Fernando Haddad –teria mais chances eleitorais num segundo turno em caso de polarização com o concorrente tucano, ou então Lula aposta implicitamente na derrota.

Para ele, Lula, seria, no caso, bem melhor manter o PT na oposição, mas sob seu absoluto comando. Um outro petista na Presidência da República tiraria o partido das mãos dele.

O PESO DA MÁQUINA

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não fechou o cálculo sobre o tempo de rádio e televisão à disposição dos partidos. Mas a estimativa é que Geraldo Alckmin terá 40% do horário de propaganda eleitoral.

Seus adversários afirmam que isso não é decisivo, e lembram o exemplo de 1989, quando Aureliano Chaves (PFL) e Ulysses Guimarães (MDB) tiveram amplo tempo de TV, mas suas candidaturas demonstraram um pífio desempenho.

A comparação correta, no entanto, não é essa. É preciso identificar a junção entre a campanha que está na mídia e aquela que está sendo feita nas bases partidárias dos Estados e pelas máquinas administrativas estaduais e federal.

É nesse ponto que está a ampla vantagem da campanha de Alckmin. Ele terá governadores, bancadas federais e estaduais em busca da reeleição, ministérios e secretarias estaduais ligadas a políticos regionais, e ainda estatais que, indiretamente – e sem nenhuma ilegalidade –estarão abastecendo essa imensa canalização de intenções de votos.

É bem verdade que esse conjunto de máquinas não terá o poder de neutralizar a narrativa negativa que o Judiciário vem construindo sobre os desvios de verbas da administração tucana, no Metrô de São Paulo e no Rodoanel.

Mas os prejuízos derivados desses episódios tendem a ser contrabalançados pelo marketing de uma equipe que os tucanos esperam ser competente.

Em outras palavras, o cenário de uma vitória eleitoral de Alckmin, de histriônico, passou à viabilidade. O que leva setores liberais da sociedade a respirarem com muito alívio.

FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil