Brasil

Dilma toma carona no zika para recuperar a popularidade


Campanha com 220 mil militares nas ruas supera a imagem de inanição de uma presidente com as mãos até agora atadas para evitar o impeachment


  Por João Batista Natali 15 de Fevereiro de 2016 às 12:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Com a taxa de aprovação  de seu governo oscilando entre modestos 5% e 12%, dependendo do instituto que a aferiu, a presidente Dilma Rousseff tende a se beneficiar pela campanha de combate ao vírus zika da imagem de inanição administrativa que afetava o governo nesses 14 meses de Presidência.

Também pesou a distribuição de ministros pelos Estados, durante o fim de semana, com entrevistas sobre o vírus e bem pouco sobre política partidária.
 
Dilma até agora se esforçava em driblar o impeachment e a preservar no Congresso um mínimo de apoio parlamentar para evitar a interrupção de seu segundo mandato.

Entre as decisões controvertidas está a substituição, em outubro último, de Arthur Chioro – petista indicado por Lula, professor de Unifesp, mas visto como competente pelos escalões técnicos de Brasília – por Marcelo Castro, deputado federal pelo PMDB e portador, em magra biografia, de votos contra o impeachment em sua bancada.

As declarações de Chioro sobre o zika foram de início erráticas, transmitindo a ideia de ministro fraco, numa área que se tornou fundamental para a imagem da presidente.

Desde fevereiro de 2014 o Brasil registrou 462 casos de bebês nascidos com microcefalia, dos quais apenas 41 estão ligados ao zika. O número tende a crescer com a análise de 3,852 mulheres grávidas que contraíram o zika.

A Organização Mundial da Saúde está em estado de alerta, com o registro de possível microcefalia provocada pelo zika em duas dezenas de países, sobretudo na Colômbia e Venezuela.

O vínculo do vírus com essa patologia na gestação não está ainda comprovado por cientistas. Sem qualquer relação com o zika, por exemplo, os Estados Unidos registram anualmente 25 mil bebês com a circunferência craniana inferior a 32 centímetros.

Mesmo assim, o governo Barack Obama destinou US$ 1,2 bilhão para o combate ao vírus, em pesquisas norte-americanas e em parcerias externas, uma delas com o Brasil.

Em termos essencialmente nacionais, Dilma e sua equipe temem os efeitos do zika nos Jogos Olímpicos de agosto, no Rio de Janeiro.

Sem informações concretas, uma onda de rumores circulou entre as delegações estrangeiras. De concreto, no entanto, há muito pouco, como a recomendação dos Estados Unidos de permitir a ausência de atletas do sexo feminino que estejam grávidas. O que é numericamente insignificante.

A oposição ao PT acredita que o zika virou pretexto para uma grande operação de marketing. Em artigo na Folha de S. Paulo, nesta segunda-feira (15/02), o senador Aécio Neves (PSDB-MG), assinala que a metade dos domicílios brasileiros não está ligada à rede de esgotos, o que favorece águas paradas que funcionam como criadouros do mosquito que transmite o vírus.

Especialistas constatam que a questão do saneamento é crônica no Brasil. Esgoto é uma “obra enterrada” que boa parte dos 5.500 prefeitos deixa de privilegiar, pela visibilidade administrativa menor.

Há casos regionais bem mais graves. Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, os afluentes do Tietê têm cerca de 70 áreas ocupadas por moradias irregulares, que o poder público prioriza com água encanada (para baixar a mortalidade infantil), postos de saúde e escolas.

Mas a rede de esgotos entra apenas com prioridade secundária. Há então um pequeno oceano fragmentado geograficamente de águas paradas, que funciona como foco de reprodução do mosquito transmissor.

Mas o que passa agora a contar, em termos de imagem, é que o governo decidiu se tornar ativo diante de uma emergência sanitária. A transformação de militares em agentes é uma solução ao mesmo tempo barata e de grande visibilidade nos noticiários das TVs.

O Brasil não dispõe de um Osvaldo Cruz (1872-1917), que erradicou a febre amarela e a varíola do Rio de Janeiro. Ele enfrentou a chamada “revolta da vacina” – a resistência da população –mas manteve o pulso firme, com o apoio irrestrito do então presidente da República, Rodrigues Alves, com mandato entre 1902 e 1906.

Em resumo, e voltando para os tempos atuais, o vírus zika turvou repentinamente um cenário já confuso para a presidente Dilma. Mas ela soube tirar proveito por meio da campanha desencadeada por seu governo.

É cedo ainda para calcular se estamos diante de efeitos semelhantes ao do Mais Médicos, lançado em julho de 2013 e pelo qual, sobretudo com a importação de médicos cubanos, Dilma obteve ganhos no campo da imagem bem maiores que os efeitos daquele programa na saúde pública.

FOTO: Agência Brasil