Brasil

Dilma só entrega ministérios depois de voto do impeachment


Presidente não aceita compromisso verbal de apoio de pequenos partidos; vitória do governo permanece incerta


  Por João Batista Natali 05 de Abril de 2016 às 15:42

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Dilma Rousseff anunciou nesta terça-feira (05/04) que só entregará ministérios aos pequenos partidos depois da votação do impeachment na Câmara dos Deputados.

Em verdade, a presidente foi um pouco mais eufêmica. Afirmou que seu governo “não planeja estruturação ministerial antes de qualquer processo de votação na Câmara”.

É uma maneira de dizer que premiará as bancadas que votarem em favor dela, e punirá aquelas que optarem por desalojá-la do Planalto.

O jogo é, no entanto, perigoso. Ao pagar para ver, Dilma poderá afastar apoios puramente fisiológicos de aliados que não acreditam em sua sobrevivência política.

Ela também caracteriza a distribuição de cargos como uma forma de se manter no poder, e não como uma operação destinada a refazer sua enfraquecida base de apoio.

As declarações da presidente coincidem com momentos cada vez mais agudos da atual crise. Ela não acredita que sobreviverá à comissão de impeachment instalada pelos deputados.

Mas acredita ter alguma chance quando a questão for a plenário, onde dois terços dos 513 votos são necessários para que o impeachment seja remetido ao Senado.

Entre os senadores, por maioria simples, abre-se formalmente o processo e Dilma é afastada do Executivo por 180 dias, em etapa que dificilmente teria garantias de volta.

Os partidos cortejados pela presidente e que têm sido objeto de contatos frequentes do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva são os integrantes do chamado “central” (PP, PSD, PR, PRB).

Pelos cálculos do Planalto, eles poderiam compensar a defecção parcial do PMDB, que na terça passada (29/03) decidiu deixar a base parlamentar de apoio ao governo e aderir ao impeachment. Dos sete ministros do partido, no entanto, seis permanecem em suas pastas.

Ainda nesta terça, Dilma afirmou que o Ministério da Educação não está sendo negociado. Ele tem como titular Aloizio Mercadante, homem de confiança da presidente e seu ex-chefe da Casa Civil.

Mercadante já afirmara a amigos que estaria até disposto a deixar o governo, caso seu nome fizesse parte de um roteiro de recomposição destinado a salvar o mandato da presidente.

Mas a inclusão de seu ministério na barganha representaria a descida de um novo degrau na operação de descaracterização daquilo que sobrou das diretrizes do Partido dos Trabalhadores e de seu governo. O lema do segundo mandato de Dilma é “Pátria Educadora”.

Enquanto isso, também nessa terça, um dos maiores críticos de Dilma e um dos grandes aliados de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara dos Deputados, o deputado Paulinho da Força, presidente do partido Solidariedade, afirmou, sem fornecer provas, que o governo está “comprando votos” para evitar o impeachment.

Disse que um deputado contrário ao impeachment recebeu a oferta de R$ 2 milhões para mudar de posição, ou apenas R$ 400 mil, caso, no momento da votação, se comprometesse a deixar o plenário.

A informação é perigosa e deve ser tratada com muito cuidado. Qualquer deputado disposto a prejudicar definitivamente o governo poderia participar da encenação de uma venda de seu voto, para depois denunciar de público a operação e com isso afundar de vez o PT e o processo contra a presidente da República.

Num outro plano, o Planalto qualifica de natimorta a iniciativa de alguns senadores do PMDB de propor a renúncia da presidente, de seu vice e de todo o Congresso, para que novas eleições permitam um “choque de legitimidade”, capaz de tirar o país da crise.

Além de Dilma ter reiterado que jamais renunciaria, a proposta traz embutido o cenário de renúncia aos seus atuais mandatos de todos os deputados e senadores, cenário considerado irrealista e inviável.