Brasil

Dilma erra a dose e lança apelo chocho ao Senado


Presidente afastada leu a carta em que se defende dos crimes de responsabilidade, não menciona os próprios erros e defende plebiscito (inviável) para a antecipação das eleições presidenciais de 2018


  Por João Batista Natali 16 de Agosto de 2016 às 16:29

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A presidente afastada Dilma Rousseff perdeu, nesta terça-feira (16/8), a oportunidade de fazer uma despedida que a faria entrar para a história.

Em carta encaminhada aos senadores, que deverão julgá-la por crime de responsabilidade, qualificou de “golpe” o processo do qual é ré e, na remota possibilidade de ser reconduzida ao Planalto, sugeriu um plebiscito que anteciparia a eleição presidencial de 2018.

Esse plano vem sendo repetido por Dilma nas últimas seis semanas, mas já foi rejeitado pelo presidente do Partido dos Trabalhadores, Ruy Falcão, que o considerou inviável, e, ainda nesta terça, pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para quem “a ideia não é boa” por não estar prevista na Constituição.

O cálculo da presidente afastada foi simples. Já que o presidente interino Michel Temer não registra altos índices de aprovação, uma nova eleição faria hipoteticamente a atual crise recuar para a estaca zero, cabendo ao eleitorado decidir quem governaria o país.

Mesmo que despertasse entusiasmo na opinião pública e em parcela do Congresso, o que está longe de ser o caso, um plebiscito deveria ser objeto de uma emenda à Constituição para a qual são necessários dois terços dos votos na Câmara e no Senado.

Dilma não tem minimamente a possibilidade de conquistar tal apoio, tanto que não reuniu nas duas Casas um terço dos votos que poderia obstruir o processo de impeachment para que ela reassumisse a Presidência.

O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), qualificou a proposta de plebiscito de “brincadeira de criança”.

Michel Temer, bem ou mal, está reconstruindo um clima de confiança para superar a recessão e pôr fim à mais longa crise econômica da recente história republicana. É de esperar que a sociedade – dentro da qual o impeachment chegou a ser defendido por 82% dos brasileiros – tampouco apoiasse o plano da ex-mandatária eleita pelo PT.

Dilma deveria ter lido a carta diante de uma plateia de jornalistas a partir das 15h. Mas atrasou 50 minutos porque – é a versão corrente no Planalto – não quis dividir as atenções com a disputa, na Olimpíada, da partida de futebol feminino entre o Brasil e a Suécia.

Ao reiterar todos os argumentos já amplamente enunciados por seu advogado de defesa, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, Dilma consolidou a reputação de personagem incapaz de criar fatos novos para convencer os senadores.

São eles que votarão pelo seu afastamento definitivo no final de agosto. Nas duas oportunidades em que eles se manifestaram sobre o impeachment, Dilma obteve 22 e em seguida 21 dos 81 votos. Ela precisaria agora de 54 para reverter o processo, num cálculo que mesmo seus mais apegados aliados consideram, confidencialmente, impossível.

Na carta encaminhada ao Senado, Dilma afirma que “quem afasta o presidente pelo conjunto da obra é o povo nas eleições”. Se aprovado pelo Senado, seu afastamento seria “um golpe de Estado”.

Reiterou ser inocente dos crimes pelos quais é acusada e não foi humilde o bastante para reconhecer os erros dela e de sua equipe, com resultados desastrosos na economia.

Preferiu, em lugar disso, partir para frases eloquentes.

Um exemplo: “Esse processo de impeachment é frágil, juridicamente inconsistente, um processo injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente. O que peço às senadoras e aos senadores é que não se faça a injustiça de me condenar por um crime que não cometi. Não existe injustiça mais devastadora do que condenar um inocente.”

FOTO: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo