Brasil

Dilma continua rodeada de más notícias, a 8 dias do voto do impeachment


Presidente tem imagem atingida por delações da Andrade Gutierrez, por imperícia da Petrobras e por novos dados sobre pedaladas fiscais


  Por João Batista Natali 07 de Abril de 2016 às 15:28

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Dilma Rousseff não tem nenhuma boa notícia para comemorar. E bem que ela precisa, no momento em que, segundo levantamento de O Estado de S. Paulo, para ela faltariam ainda 52 votos para barrar o impeachment no plenário da Câmara.

As três principais bordoadas vieram da delação premiada dos executivos da Andrade Gutierrez, de um documento da Petrobras e de um relatório do Banco Central sobre as pedaladas fiscais.

No caso da empreiteira, seu presidente, Otavio Marques de Azevedo, entregou à Procuradoria-Geral da República a planilha de suas doações para a reeleição de Dilma em 2014.

Ele contribuiu, ao todo, com R$ 34,7 milhões, uma parte para o Partido dos Trabalhadores, outra para a candidata.

Mas nessa última parcela, de R$ 20 milhões, a metade representou propina em troca de contratos com estatais. Trata-se, no caso da Petrobras, da construção da refinaria Comperj, no Rio, e, no caso da Eletrobras, da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

O conteúdo da delação foi publicado nesta quinta-feira (07/04) pela Folha de S. Paulo, que, na véspera, também revelou, com base em documento do BC, o tamanho desproposital das pedaladas durante o governo da presidente.

Pelo levantamento, calculado por determinação do Tribunal de Contas da União, ao final do governo de Fernando Henrique Cardoso (2002) o Tesouro devia aos bancos oficiais R$ 948 milhões.

Mas no final do ano passado, essa quantia havia subido para R$ 60 bilhões. Ou seja, um salto de mais de quase 63 vezes.

As pedaladas estão justamente entre as razões que abriram a discussão do impeachment. O Planalto gastou bem mais que arrecadava em 2014 – para exibir números positivos dos programas sociais na campanha da reeleição – e continuou a fazê-lo no ano seguinte.

Isso desorganizou as contas públicas, transformou em superávit o que configurava um enorme déficit fiscal e alimentou a inflação, a recessão e o desemprego.

Com relação especificamente à Petrobras, o jornal Valor Econômico tem publicado desde quarta (06/04) informações de um relatório interno, não submetido ao Conselho da empresa, segundo o qual investimentos de US$ 26 bilhões (mais de R$ 100 bilhões) foram aprovados com a certeza prévia de que não ofereceriam o devido retorno.

Trata-se mais uma vez do Comperj, complexo petroquímico fluminense, e da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

Os dois empreendimentos, devidamente superfaturados, serviram, segundo a operação Lava Jato, para abastecer com propinas os orçamentos de campanha do Partido dos Trabalhadores e seus aliados.

Excetuadas as pedaladas, esse conjunto de barbeiragens ou de provas de gestão temerária não está diretamente em pauta durante as discussões do impeachment.

Mas são informações se somam para a construção da imagem de desonestidade e imperícia da atual administração federal. Justamente ingredientes prejudiciais à ambição da presidente de permanecer em seu cargo.

O curioso é que, a partir da última segunda-feira (04/04), o diagnóstico gerado pelo governo passou a ser o de que “o jogo havia virado” e que o impeachment já havia sido afastado.

Jaques Wagner, chefe-de-gabinete de Dilma e seu principal articulador político, chegou a afirmar que “o impeachment caiu por terra”.

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, segundo um colunista carioca, teria afirmado que o governo ganhará com facilidade no plenário da Câmara, onde a questão pode ser votada a partir do próximo dia 17.

O fato, porém, é que o único grande feito de Lula foi o de manter o PP gravitando na esfera do Planalto. Para tanto, pesou a oferta de ministérios, mas também a ideia de que, caso Dilma se mantenha, a tendência é de esfriamento da Lava Jato, operação que compromete boa parte da bancada daquele partido.

Caso o clima fosse de realmente de euforia, o Advogado Geral da União, José Eduardo Cardozo, não teria afirmado, nesta quinta, que o Planalto pretende recorrer ao STF, caso os deputados votem em plenário o afastamento de Dilma.

É uma operação delicada, já que o Tribunal anunciou não poder entrar no mérito do impeachment, já que se trata de um julgamento político do Congresso. Mas Cardozo teria informações de que ao menos um ministro, Luiz Edson Fachin, pensaria de outra maneira.

A aparência de otimismo traz como problema básico imaginar que, do outro lado da cerca, estão apenas as habilidades insuficientes das três grandes bancadas da oposição (PSDB, PPS e DEM), quando, na realidade, o que se assiste é a discreta montagem do futuro governo de Michel Temer.

Dentro dele, por exemplo, os principais ministérios – Fazenda, Saúde, Educação ou Infraestrutura – seriam reservados a personalidades reconhecidas como fortes por amplos setores da sociedade.

E só ministérios menores ou de segunda linha seriam entregues aos partidos que participassem ativamente do impeachment.

Um tipo de composição mais próximo do que foi o primeiro governo de FHC e bem distante da composição fisiológica e inflacionada em número de pastas de um Dilma-2.

Dentro desse quadro, e sem indícios de corrupção, a atual gestão do PT é um armário com esqueletos que inesperadamente começam a cair.

Como o da Caixa Econômica Federal, forçada pela chamada “nova matriz econômica” a baixar os juros e a aumentar as operações de crédito para manter de modo artificial tentar manter o crescimento econômico.

A surpresa, do lado da CEF, foi a informação de que ela está vendendo com enorme deságio R$ 23 bilhões de irrecebíveis de 2015. No ano anterior, R$ 13 bilhões de irrecebíveis foram leiloados por R$ 419 milhões.

São milhares de pequenas operações, dentro das quais os compradores desse tipo de dívida não têm a mínima esperança de um pagamento integral, mas devem ao menos extrair dos credores uma pequena parcela que compense o negócio.

FOTO: Estadão Conteúdo