Brasil

Dias sombrios para a Argentina de Mauricio Macri


Greve que paralisou o país nesta segunda-feira é resposta ao "tarifaço" de maio e à desvalorização do peso, que deve acelerar a inflação


  Por João Batista Natali 25 de Junho de 2018 às 11:38

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Os dias não têm sido nada gloriosos para a Argentina, paralisada nesta segunda-feira, 25/6, pela terceira greve geral, desde que o presidente Mauricio Macri foi eleito, em dezembro de 2015.

Existem sólidas razões econômicas e políticas e um inevitável oportunismo sindical por detrás da paralisia.

Mas o que também conta é o choque de autoestima, com o empate contra a Islândia (1 x 1) e a derrota contra a Croácia (3 x 0). E ainda tem, nesta terça, 26/6, um jogo difícil contra a Nigéria.

É claro que o futebol corre em faixa própria nos caminhos da crise argentina. Mas o país deixou de amar a si mesmo com os desastres do técnico Jorge Sampaoli e com a impossibilidade de Lionel Messi, isoladamente, reverter o pessimismo.

Os sindicatos, sobretudo a central peronista CGT, que apoia em 2019 a candidatura da ex-presidente Cristina Kirchner, foi o primeiro a convocar a greve desta segunda, e por motivos que fazem sentido.

Os dissídios coletivos na Argentina acontecem por volta de abril, e a última rodada se baseou numa previsão da inflação de 15% até o final do ano. Mas a inesperada desvalorização do peso em 30% abria o cenário de um forte arrocho salarial.

A Argentina sofreu na segunda metade do semestre uma fuga de capitais. Sem reservas em dólar para salvaguardar sua moeda, a única solução para o governo foi recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

A rigor, aquela organização e Macri compartilham dos mesmos valores em política econômica, sobretudo quando se trata de equilíbrio fiscal.

Mas o FMI é uma bandeira diabolizada pela esquerda peronista. Ela evoca a tragédia que ocorreu em 2001, quando o peso se deslocou do dólar e o país caiu no maior buraco de sua recente história.

NÃO É MAIS BEM ASSIM

Foi de pouca utilidade o esforço do presidente argentino ao argumentar que aquilo que acontecia agora não tinha a mais leve semelhança com o fim traumático da dolarização, adotada pelo ex-presidente Carlos Menen (a Argentina deixou de ter dólares em quantidade para manter a paridade).

O fantasma voltou a circular, com um peso ideológico semelhante ao da derrota contra a Croácia.

Somem-se a isso um conjunto de outras más notícias. O desemprego está em alta (9,1%, contra 7,2 no último trimestre de 2017). E a própria popularidade de Macri caiu para 35%, frente a 58%, em outubro.

Naquele mês, o presidente argentino obteve uma razoável vitória nas eleições legislativas parciais (o Congresso não é eleito de uma só vez). Não chegou ainda a conquistar a maioria.

Mas contava com o apoio dos peronistas de direita, que nas presidenciais de 2019 preferem, no fundo, Macri a Cristina.

Ora, até esse grupo oficioso de governistas também debandou. E aconteceu em maio, com o projeto do governo que elevou o transporte urbano e as contas de gás e eletricidade.

Em verdade, um “tarifaço” anterior já havia ocorrido quando Macri tomou posse e pôs fim aos subsídios de bens de consumo essenciais que provocavam déficits orçamentários monstruosos nos tempos de Cristina Kirchner.

A questão se tornou, desde então, fundamental nas discussões sobre o papel do Estado na Argentina. Ou ele engordava, para subsidiar os mais pobres, ou então ele emagrecia, e o mercado encontrava o ponto de equilíbrio dos preços e tarifas.

Era no fundo uma queda de braço, em que Macri convencia a imensa e poderosa classe média argentina de que sua política era a mais realista e viável.

O jogo estava equilibrado ou favorável ao governo até que veio a portentosa pressão sobre o peso, que encarece as importações e impede que a inflação chegue em dezembro ao ponto mais distante dos 40% herdados de Cristina.

A AVENTURA DOS LEBAC

Esse problema tem nome e sobrenome. Chama-se Lebac. É a abreviação do nome de um título chamado Letras do Banco Central.

A coisa funcionava, resumidamente, assim: o governo emitia esses títulos de curtíssimo prazo, pagando juros anuais de 29%. Os investidores – da classe média baixa às grandes empresas financeiras -, no momento do resgate, podiam receber pesos argentinos ou dólares.

O estopim que desequilibrou o mecanismo veio dos Estados Unidos, com o aumento das taxas de juros do Federal Reserve, o que criou um efeito manada no mercado argentino de títulos.

Seguindo os investidores de maior porte, a classe média passou a vender seus títulos e exigir dólares em troca. O câmbio então rolou ladeira abaixo, com uma desvalorização da moeda argentina em relação à norte-americana.

Vejam que não há nisso, a rigor, nenhuma manobra “neoliberal” para concentrar renda e prejudicar os assalariados.

Mesmo assim, o adjetivo voltou a ser aplicado a Macri, que também foi obrigado a aplicar as regras fiscais do FMI, para justificar o empréstimo-ponte de US$ 50 bilhões que a Argentina contraiu.

Estamos nesse ponto. E pode ainda piorar mais um pouco para Maurício Macri.

 

FOTO: Nahuel Padrevecchi/GCBA