Brasil

Despedida de Dilma foi encenação marqueteira


Presidente afastada desenterrou todos os chavões que usou na campanha pela reeleição de 2014. O risco é que essa linguagem está caducando


  Por João Batista Natali 12 de Maio de 2016 às 14:28

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Embora o marqueteiro João Santana esteja preso pela Lava Jato desde 23 de fevereiro, Dilma Rousseff seguiu as instruções dele, nesta quinta-feira (12/05), nos dois breves pronunciamentos com que se despediu da Presidência da República.

Única diferença: em lugar de fazer previsões trágicas sobre Marina Silva ou Aécio Neves, que ameaçavam sua reeleição em 2014, ela desta vez ela mirou no presidente interino Michel Temer.

A presidente afastada mencionou os mais pobres, que passaram a ter acesso à universidade e às escolas técnicas, falou da valorização do salário mínimo, do Mais Médicos e da habitação com o Minha Casa, Minha Vida.

Se depender das previsões de Dilma, o governo Temer deverá atropelar esse conjunto de programas e – segundo a cartilha que por anos o Partido dos Trabalhadores aplicou aos anos FHC – passará a governar para as mesmas “elites” que teriam conspirado contra ela e prejudicado a eficiência de seu governo.

O mesmo exagero jocoso foi cometido durante a madrugada desta quinta pelos senadores do PT, do PC do B ou do PDT, que defenderam a então presidente no plenário do Senado.

Com especial desempenho para a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que por duas vezes insistiu, em questão de ordem e no encaminhamento de seu voto, que Dilma estava com seu mandato em risco apenas por ser mulher.

É uma dupla falsificação de argumentos.

Primeiro, porque em 2010 Dilma não foi objeto de nenhuma discussão pública de gênero, mas sim de uma indicação autoritária do ex-presidente Lula. O PT não teve o direito de elaborar outras opções.

Segundo, porque em nenhum momento, durante o processo de impeachment, o fato de a presidente ser mulher foi remotamente invocado como indício de vocação para crimes de responsabilidade. O que seria um absurdo.

Ao deixar o Planalto, Dilma destoou das instruções de Santana apenas ao se referir ao suposto “golpe” que a vitimou.

Trata-se de um chavão capaz de mobilizar o público interno do establishment petista. É também o sintoma de um grupo político incapaz de assumir os próprios erros e que, ao ser punido, consegue apenas responder que se trata de uma punição inconstitucional ou hedionda.

Não há com relação a isso nenhuma novidade. Em 2005, quando o Mensalão eclodiu com o peso de primeiro grande escândalo de corrupção da era Lula, para o PT nada havia de extraordinário na existência de um “simples caixa-dois”. Tanto que José Dirceu e José Genoíno, ao irem para a cadeia, foram reverenciados como “prisioneiros políticos”.

Com o Petrolão e seus desdobramentos complexos, evidenciados pela Lava Jato, repetiu-se ladainha semelhante. A condenação do tesoureiro petista João Vaccari Netto foi minimizada como o produto da delação premiada. O que seria um absurdo penal, já que nenhum juiz condena sem a existência de provas sólidas.

O mesmo ocorreu no governo Dilma no campo das imperícias das políticas públicas, sobretudo na área econômica. Se o país está em recessão, a culpada é a China, que diminuiu suas importações de minérios. Ou então a oposição, que não aprovou no Congresso os projetos que permitiriam voltar ao crescimento.

Não existiram jamais pedaladas fiscais ou a irresponsabilidade com os bancos públicos, e os R$ 118 bilhões de déficit em 2015 (1% do PIB) são mais ou menos o que já se praticava nos tempos do governo federal tucano. O Banco Central e seu histórico de estatísticas ficariam de cabelos em pé.

Essa postura próxima à infalibilidade papal irritou a sociedade como um todo e sedimentou dentro dela a ideia de que o governo dialogava apenas com os militantes da CUT ou do MTST. Tais grupos da chamada “sociedade civil organizada” são dóceis e permitem a perpetuação da ideia de que o Brasil está dividido entre “nós contra eles”.

E, como cereja sobre o bolo político e partidário, surgiu a narrativa de que a oposição tinha como motivação o ódio, e que o ódio partia exclusivamente dela.

Em suma, criou-se um edifício construído por irracionalidades e baseados na consistência mais que duvidosa das geleias sentimentais. Em que os sentimentos ganhavam um colorante ideológico.

Esse conjunto de representações esquizofrênicas (que remetem apenas a si próprias e não à realidade externa, bem mais complicada) estava presente nesta quinta-feira na despedida de Dilma Rousseff.

É um estilo que funciona com frequência no plano eleitoral. Mas é também um narrativa perigosa, de baixa credibilidade. A sociedade e o Congresso abriram os olhos. E Dilma, logicamente, está fora do poder.

 

FOTO: Elza Fiúza/Agência Brasil

 

 





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