Brasil

Delação de Delcídio empurra Dilma para a beira do abismo


Senador do PT, preso por 87 dias, foi líder do governo no Senado e agora compromete a presidente e Lula com informações de altíssima gravidade


  Por João Batista Natali 03 de Março de 2016 às 14:20

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O mandato da presidenteDilma Rousseff sofreu um novo e forte abalo nesta quinta-feira (03/03). E não foi pela queda do PIB em 3,8%, anunciada pelo IBGE.

E nem pela transformação, de provisória em preventiva, da prisão do marqueteiro João Santana, o que o deixará por mais tempo na cadeia para as investigações sobre vínculos entre corrupção na Petrobras e o orçamento da campanha presidencial de 2014.

O que abalou Dilma foi a informação de que o senador Delcídio do Amaral (PT-MS), preso por 87 dias pela Lava Jato e que foi solto no último dia 19, está em delação premiada e com informações que comprometem seriamente a presidente e o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

O episódio, informado pela Isto É, é negado pelos advogados do delator e pela Procuradoria Geral da República. Mas a revista semanal reproduz algumas das 400 páginas do documento preliminar de delação, e o mercado levou a informação a sério.

Apesar do PIB, que normalmente provocaria queda na Bolsa e alta do dólar, foi justamente o contrário que ocorreu. Por volta das 11h, o índice Bovespa chegou a avançar 2%, enquanto a moeda americana recuava 1,3%.

E isso num dia de cenário internacional desfavorável. Apesar de nova queda no preço internacional do petróleo, as ações da Petrobras subiam 7,1% (preferencial) e 9,4% (ordinária).

O mercado não apenas levava a notícia a sério, como também a interpretava como um indício poderoso de que o mandato presidencial de Dilma poderia estar com os dias contados, com um cenário de troca de governo e adoção de diretrizes econômicas mais confiáveis.

O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardoso, que nesta quinta tomou posse na Advocacia Geral da União, respondeu em nome do governo. Afirmou que o senador estava se vingando, porque a presidente Dilma não se esforçou para tirá-lo da cadeia.

O próprio Delcídio, por meio de um de seus advogados, publicou nota no final da tarde em que afirma que "não reconhece" as declarações atribuídas a ele pela revista Isto É. Mas ele não desmentiu a reportagem, em razão da situação delicada em que se encontra. Seu depoimento de 400 páginas corre o risco de ser desconsiderado pelo MP e pelo STF.

Quando Delcídio foi solto, em fevereiro, o jornal O Globo informou que a soltura se deu em razão do compromisso de delação. Mas nenhuma prova concreta foi apresentada.

Os advogados do senador, ao negarem que isso seja verdade, demonstram lealdade ao cliente, que hoje possui, como primeira prioridade, preservar seu mandato no Congresso.

Delcídio implica em denúncias de corrupção senadores do PT e do PMDB (os detalhes são desconhecidos), que poderiam cassar o mandato dele em processo já aberto pela Comissão de Ética. Caso permaneça no Congresso, Delcídio preservaria o foro privilegiado e não teria seu caso enviado a um juiz de primeira instância.

As acusações mais graves que ele faz, segundo a revista semanal, é a de que Dilma e Lula procuraram bloquear a Lava Jato para evitar que a Polícia Federal e o Ministério Público apurassem fatos comprometedores.

Com relação a Dilma, Delcídio diz nos depoimentos preliminares que a presidente manobrou para que Marcelo Navarro fosse indicado ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), em troca do compromisso permitir a libertação de empreiteiros hoje detidos, como Marcelo Odebrecht.

Ela interferiu pessoalmente nesse sentido, em companhia de Cardozo, o então ministro da Justiça.

Delcídio também diz que Dilma estava perfeitamente bem informada sobre todos os detalhes da aquisição pela Petrobras da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, um negócio pelo qual a estatal sofreu um prejuízo de US$ 792 milhões, segundo o Tribunal de Contas da União.

O caso de Lula é também bastante delicado. Segundo o senador petista, foi o próprio ex-presidente quem o convenceu a oferecer uma mesada mensal de US$ 50 mil a Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, caso ele deixasse o país e não testemunhasse contra o pecuarista José Carlos Bumlai, muito amigo do ex-presidente e que também está preso.

Foi justamente a descoberta dessa tentativa de silenciar Cerveró, em novembro do ano passado, que levou o STF a determinar a prisão do senador.

O episódio se encontra, agora, na seguinte etapa: há um termo de delação, negociado entre o senador e a Procuradoria Geral da República. Delcídio pediu que o ministro responsável pela Lava Jato no STF, Tori Zavascki, desse a ele um prazo de seis meses para que seu depoimento definitivo fosse incorporado aos autos.

Ele queria justamente ganhar tempo para preservar seu mandato de senador. Mas o ministro Tori não concordou com a condição, e a questão continua a ser negociada.

Mas o problema não é apenas de procedimento dentro da esfera criminal. É sobretudo política. Tanto que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), complicadíssimo e desde já declarado réu pelo STF, por corrupção, afirmava nesta quinta que as revelações de Delcídio justificavam a apresentação de um novo pedido de impeachment contra Dilma.

Tudo isso gera um clima fortemente desfavorável para a ocupante do Planalto. No Congresso, além de um núcleo duro de fidelidade (dentro do PT, PC do B e PMDB), poucos apostam agora que Dilma permanecerá na Presidência até 2016. Com isso, ela perde o poder de barganha e engrossa numericamente o grupo de deputados e senadores disposto a votar pelo impeachment.

A impressão de que Dilma está no fim e de que agora falta apenas dar um empurrãozinho também funciona como estímulo para as manifestações de rua, que, no domingo 13 de maios, mais uma vez, pedirão que a presidente seja afastada.

Foto: Agência Brasil