Brasil

Delação de Delcídio congela plano de fazer Lula ministro


Ex-presidente assumiria alguma pasta para ajudar Dilma a reverter impeachment no Congresso; ele também ganharia foro privilegiado e escaparia de ações da Lava Jato


  Por João Batista Natali 15 de Março de 2016 às 16:16

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A crise gerada nesta terça (15/03) por novas revelações da delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) suspendeu o plano de Luís Inácio Lula da Silva de se tornar ministro da presidente Dilma Rousseff.

Lula estava disposto na noite de segunda-feira (14/03) a assumir um ministério com um duplo objetivo: ter foro privilegiado, para escapar de um eventual constrangimento da Operação Lava Jato, e reverter o pessimismo do Planalto quanto à votação do impeachment no Congresso.

Delcídio, que já foi líder do governo no Senado, permaneceu preso por 87 dias e foi solto sob a promessa de delatar o que sabia sobre a corrupção no governo.

Uma primeira versão do que ele havia revelado foi publicada no início de março pela revistaIsto É. Mas nesta terça o ministro Teori Zavascki, encarregado no Supremo Tribunal Federal dos processos gerados pela Lava Jato, homologou a delação e suspendeu o sigilo sobre as revelações de Delcídio.

No mesmo momento, a edição online da revista Veja publicou que o senador petista instruiu um assessor a gravar uma conversa com o então chefe da Casa Civil, Aloyzio Mercadante, que ofereceu a ele vantagens para que não aceitasse a delação premiada.

No meio da tarde o próprio Lula foi envolvido pela narrativa de Delcídio. Segundo ela, o ex-presidente pagou de R$ 110 milhões para R$ 220 milhões (a quantia é muito vaga) ao publicitário Marcos Valério, para que ele não tornasse públicas informações comprometedoras.

O dinheiro seria fornecido por empreiteiras, contratadas pela Petrobras ou por outras estatais.

Valério, personagem do mensalão petista, já cumpre pena de 37 anos de prisão. Ele teria informações sobre o assassinato, em 2002, do então prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel, na época responsável pelo programa da campanha presidencial de Lula.

Mercadante, hoje ministro da Educação, foi convocado antes do meio-dia pela presidente Dilma Rousseff para uma conversa a portas fechadas. Ao deixar o encontro, ele negou – ao contrário do que davam a entender as gravações - que tenha tentado comprar o silêncio de seu colega de PT.

Outra revelação de Delcídio diz respeito à Usina de Belo Monte, em operação que teria gerado R$ 50 milhões para as campanhas eleitorais petistas e de partidos aliados.

Lula passou a manhã, em São Paulo, no instituto que leva o seu nome. O plano dele era viajar a Brasília na noite desta terça ou na manhã da quarta para acertar com Dilma os detalhes sobre sua entrada no governo.

A avaliação geral em Brasília era de que a presidente não tinha outra escolha para evitar o impeachment, diante da intenção do PMDB de deixar o governo e da falta de apoio político depois das imensas manifestações populares de domingo (13/03).

Por sua vez, Lula, entrando no governo e ganhando foro especial, só poderia ser processado pelo STF, e não pela Justiça Federal de primeira instância, em Curitiba, em operação comandada pelo juiz Sérgio Moro.

Mas a mulher do ex-presidente e seus filhos não têm foro especial e continuarão a ser investigados por Sérgio Moro. Uma decisão desta terça do STF, relativa à mulher e à filha do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, abriu indiretamente o precedente.

O Ministério Público paulista, que na semana passada pedira a prisão preventiva de Lula, foi escanteado a partir da decisão tomada, nesta segunda-feira, pela juíza de primeira instância, de transferir o processo à Lava Jato, que também trata do tríplex do Guarujá, imóvel pelo qual o ex-presidente é suspeito de lavagem de dinheiro e omissão de patrimônio.

Paradoxalmente, os advogados do ex-presidente entraram com recurso para que o processo permanecesse em São Paulo, onde os promotores haviam sido denunciados pelo PT por suposta parcialidade.

A lógica do recurso é simples: evitar que o assunto caia nas mãos de Sérgio Moro, um juiz cujas decisões não têm sido derrubadas pelas instâncias superiores e que o PT acredita estar engajado na perseguição de Lula.

A possibilidade de Lula se tornar ministro gerou desde segunda-feira uma forte reação contrária do mercado.  O índice Bovespa caiu 1,55% e, nesta terça, caia em meados da tarde quase 4%. As ações do Banco do Brasil caiam 16%, e as da Petrobras (ordinárias) quase 10%.

O temor é que Lula, no governo, aplicasse planos atribuídos a setores do PT que, para reativar a economia, voltassem à chamada nova matriz econômica (ministro Mantega) e lançassem mão das reservas cambiais para permitirem a saída da crise.

O economista Alexandre Schwartsman, em entrevista à CBN, disse que a tendência, com Lula de volta ao governo – e desta vez para também ter voz ativa na área econômica – seria a de aumentar os gastos públicos para sair da recessão. “O que seria uma estupidez sem tamanho.”

Basicamente o que se atribui a Lula, ou ao economista que o acompanharia no Ministério da Fazenda, seria gastar um terço das atuais reservas cambiais – hoje em US$ 370 bilhões – para injetá-las na economia, por meio de incentivos fiscais e crédito.

Esse dinheiro também poderia servir, numa segunda hipótese, para abater a dívida interna, o que daria uma condição de maior conforto para as finanças públicas.

 

Foto: Ale Vianna/Estadão Conteúdo