Brasil

Debatedores propõem renúncia de Dilma para país sair da crise


Debate desta segunda (30/11) ocorreu na Associação Comercial de São Paulo; presidente seria afastada até por interesse eleitoral do PT


  Por João Batista Natali 30 de Novembro de 2015 às 15:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A possibilidade de renúncia da presidente Dilma Rousseff como solução para a crise política e econômica foi levantada nesta segunda-feira, (30/11), em debate na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por meio do Conselho Político e Social e do Conselho de Economia.

Não se trata de uma recomendação oficial da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp). Mas a renúncia surgiu como uma saída possível, entre os debatedores, a partir da constatação de que a imobilidade política é determinante para o agravamento da crise em que o país mergulhou.

“O governo Dilma se inviabilizou e não tem mais condições para continuar a dirigir o Brasil”, disse Pimenta da Veiga, ex-deputado federal e ex-prefeito de Belo Horizonte, um dos defensores da alternativa.

Ele acredita que estamos às vésperas de tensões sociais que poderão levar o próprio Partido dos Trabalhadores a sugerir que a presidente se afaste voluntariamente.

Citou o exemplo dos Estados Unidos, quando Richard Nixon renunciou à Presidência (1974), porque o Partido Republicano o convenceu de que a permanência dele na Casa Branca, em pleno escândalo do Watergate, contaminaria e inviabilizaria suas lideranças no plano eleitoral.

No caso do Brasil, disse Pimenta da Veiga, a alternativa é prevista pela Constituição, com a eleição pelo Congresso de um presidente – que ele propõe ser alguém de fora dos atuais partidos – que concluiria o atual mandato até 2018.

José Jorge, ex-deputado e hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), disse que “a situação econômica é desastrosa” e que, caso nada se faça, “2016 será ainda pior que 2015”.

“O impeachment é complicado. Resta a alternativa da renúncia”, como meio de permitir que o PT mantenha alguma viabilidade eleitoral.

O ex-deputado Paulo Delgado (MG) concordou com o cenário e disse que o presidente para o exercício desse mandato-tampão precisa ser um conciliador, “não pode ter um comportamento ardoroso [entusiasmado, apaixonado]”.

A atual crise, disse ele, coincide com a falência da ilusão de que a o acesso aos bens de consumo produz a cidadania.

Para o ex-senador e deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), evocando 34 anos de Congresso Nacional, o próximo recesso parlamentar fará com que os parlamentares, em contato com suas bases, dimensionem o quanto é preciso afastar a presidente para qualquer esboço de solução para a economia.

Ele também acredita que o Congresso chegará à conclusão de que não é possível “segurar esse governo”. E concluiu: “A crise é Dilma, e sobre isso há consenso. ”

O economista Roberto Macedo, professor da Universidade de São Paulo e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, também esboçou um quadro pessimista quanto à recessão.

Com uma única exceção: desta vez não há crise cambial. Mesmo assim, entre as 20 maiores economias do Planeta, o Brasil só perderá este ano para a Rússia em maior decréscimo do Produto Interno Bruto (PIB).

A crise, segundo ele, é produto da “falta de liderança política”. Seria conveniente afastar a presidente, transformá-la “numa rainha da Inglaterra” e entregar o governo a um grupo capaz de assegurar o comando.

Quanto à hipótese da renúncia, os participantes do debate disseram não ser propriamente uma desonra e citaram o general e ex-presidente De Gaulle (1969) e mesmo o Papa Bento 16 (2013).

OS ESPAÇOS POLITICAMENTE VAZIOS

Pimenta da Veiga afirmou que, ao se enfraquecer, o governo Dilma abriu espaço para um protagonismo maior do Poder Judiciário, aquilo que Paulo Delgado chamou pouco depois de “poliarquia unitária” – a maneira unida com que se comportam os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Delgado criticou o PT – partido do qual foi fundador e pelo qual se elegeu aos primeiros mandatos – por acreditar ser proprietário do Estado e, em decorrência, das riquezas que a economia produz.

Entre os caminhos possíveis para a política – o da violência, o da corrupção e o da virtude – ele obviamente escolheu o último, a partir do qual o PT devolveria o controle de uma função de que se apoderou.