Brasil

Da entrada confiante até a saída sob críticas do PT


À medida em que a crise política se aprofundava, a arrecadação se retraia, as vitórias de Levy foram minguando


  Por Estadão Conteúdo 19 de Dezembro de 2015 às 16:47

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


No dia 27 de novembro de 2014, quando foi apresentado o futuro ministro da Fazenda do segundo governo Dilma Rousseff, Joaquim Levy adentrou o salão leste do Palácio do Planalto com um sorriso confiante de quem tinha o apoio irrestrito do mercado financeiro.
Falou naquele dia ao lado de Nelson Barbosa, que havia sido preterido para a Fazenda e indicado ao Planejamento. O "Chicago boy" de formação ortodoxa era naquele momento tido como o fiador da política econômica. Levy era a esperança do mercado de dias melhores na economia depois de um processo eleitoral difícil, contas públicas maquiadas e déficit fiscal.

Assumiu o ministério com um duro discurso criticando fortemente o patrimonialismo e as políticas setoriais. "O patrimonialismo, como se sabe, é a pior privatização da coisa pública. Ele se desenvolve em um ambiente onde a burocracia se organiza mais por mecanismos de lealdade do que especialização ou capacidade técnica, e os limites do Estado são imprecisos", afirmou.

Levy e Nelson travaram nos bastidores uma guerra em que discordavam nos principais pontos da política econômica. Levy começou ganhando batalhas. Anunciou medidas duras de endurecimento nas regras para o seguro-desemprego e pensões e aumentou impostos sobre gasolina e bebidas. Cortou subsídios nos financiamentos dos bancos públicos. Acabou com a desoneração sobre a folha de pagamentos.

Workaholic, trabalhou arduamente para ver seu ajuste fiscal aprovado. Ficava até as 2h da manhã no ministério rotineiramente. Exigente com sua equipe, trocava de assessores com frequência. Fazia o corpo a corpo com deputados e senadores.

Mas, à medida em que a crise política se aprofundava, a arrecadação se retraia, a inflação se aproximava de dois dígitos e o desemprego começava a crescer, as vitórias de Levy foram minguando.

E ministro passou a ser alvo de críticas cada vez mais vorazes, principalmente do PT, capitaneadas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Levy insistia que o ajuste fiscal precisava ser aprovado para que a economia voltasse a crescer. E era atacado por só falar em ajuste fiscal. Com o rebaixamento seu destino estava selado. 

A ESCOLHA

A escolha do nome de Nelson Barbosa para o Ministério da Fazenda foi bem recebida tanto pelo PT quanto pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que enxergam no novo ministro a possibilidade de mudanças na política econômica do governo.

"Trata-se de um ministro experiente, com reconhecidas qualidades técnicas, habilidade política e sempre aberto ao diálogo. Minha expectativa é de que, sob a orientação da presidente Dilma, ele sinalize para a população e para o empresariado medidas para a retomada do crescimento econômico com inclusão social, geração de empregos e sustentabilidade, investimentos em infraestrutura e inflação sob controle", disse o presidente nacional do PT, Rui Falcão.

Já o presidente do diretório estadual do partido em São Paulo, Emidio de Souza, lembrou que embora Barbosa seja mais alinhado ao PT do que o antecessor, Joaquim Levy, vai enfrentar dificuldades pelo estado de deterioração da economia nacional. "Não tem milagre na crise econômica brasileira, mas ele encarna uma ideia de economia que representa melhor o que o PT pensa", avalia o dirigente.

LULA

No Instituto Lula, a escolha foi bem vista. Embora tenha avalizado o nome de Levy, Lula vinha pedindo mudanças no rumo da economia desde agosto, principalmente por motivos políticos. Lula avalia que a forma como o ajuste fiscal foi executado afastou Dilma da base que a elegeu em 2014.

Segundo interlocutores do ex-presidente, há anos Lula prepara o novo ministro para o cargo. Depois de deixar o governo, em 2010, Lula levou o economista para o Instituto Lula, estimulou Barbosa a se reaproximar da comunidade acadêmica e carregava o colaborador em encontros com grandes empresários e representantes do mercado financeiro. Tudo com o objetivo de tirar de Barbosa o "ranço sindical" - ele foi assessor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) - e torná-lo mais palatável ao andar de cima.

Ainda segundo interlocutores de Lula, foi o ex-presidente quem aconselhou Barbosa a manter a discrição e não entrar em disputas públicas.

A nomeação foi saudada ontem no Instituto Lula. "É uma ótima pessoa. Tem experiência em administração pública, sabe da responsabilidade de colocar o País em equilíbrio fiscal, mas tem sensibilidade para fazer a política de desenvolvimento e geração de empregos", disse Paulo Okamotto, presidente do instituto.

UNIDADE

No PT, a escolha de Barbosa provocou o raro fenômeno de agradar, praticamente, à totalidade das forças políticas do partido, incluindo as correntes de esquerda.

"Apoiamos integralmente a decisão da presidente Dilma de fazer a substituição do ministro Levy e a escolha de Barbosa. Espero que o eixo da economia agora seja a orientação do programa de governo eleito em 2014, ainda que se possa discutir quais os passos para chegar lá", disse Carlos Henrique Árabe, secretário de Formação do PT e da corrente Mensagem, a segunda maior do partido.

O deputado Renato Simões (PT-SP), da minoritária Militância Socialista, comemorou nas redes sociais. "Nelson Barbosa é expectativa de diálogo com movimentos sociais que cobram o programa econômico vitorioso nas urnas em outubro passado. Golaço da presidente Dilma para fechar uma semana vitoriosa."

O nome de Barbosa também agradou, com ressalvas, aos movimentos sociais que foram às ruas na quarta-feira para protestar contra o impeachment. "Preferia o Marcio Pochmann (Unicamp), mas o Nelson Barbosa tem todas as condições de tirar o Brasil dessa armadilha", disse Raimundo Bonfim, da Central de Movimentos Populares. 





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