Brasil

CUT faz de conta que 1o. de Maio poderá barrar impeachment


Central petista fará ato e show no Anhangabaú. Força Sindical, favorável ao afastamento de Dilma, se reúne no Campo de Bagatelle. Data surgiu entre sindicatos no século 19


  Por João Batista Natali 30 de Abril de 2016 às 09:38

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O Primeiro de Maio se transformou desta vez em dia de ficção política. A CUT, confederação ligada ao Partido dos Trabalhadores, promove comício e show no Vale do Anhangabau, em São Paulo, tendo como palavra de ordem a tentativa de barrar o impeachment.

O afastamento de Dilma Rousseff está previsto no plenário do Senado a partir de 11 de maio, e não há possibilidade de reversão da tendência pela qual ela receberá apenas 21 votos, contra 50 a favor da abertura do processo.

Mesmo assim, o ato da CUT, a partir das 10h deste domingo, que poderá contar com a presença de Lula e da própria Dilma, foi montado como se pudesse reverter aquilo que os petistas qualificam de "golpe".

A central contratou para o show artistas como Chico César, Martinho da Vila e Beth Carvalho.

A alguns quilômetros mais ao norte, no Campo de Bagatelle, a Força Sindical – que é favorável ao impeachment – também fará show com artistas. Paula Fernandes e Michel Teló estarão no palco.   

Para atrair público, a central sorteará 19 automóveis e propõe "um dia de reflexão e de intensificação de nossa luta por um Brasil mais justo e igualitário".   

Essa intenção recobre a oposição à reforma da Previdência, uma das bandeiras do deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que nos últimos anos insistiu na supressão do fator previdenciário, mecanismo que desencoraja as aposentadorias precoces.        

Em resumo, com o afastamento de Dilma por seis meses – e de modo definitivo, segundo outras previsões generalizadas – a CUT e a Força Sindical têm claramente no horizonte o governo de Michel Temer.    

Seja para contestar a legitimidade dele, no caso da central petista, seja para pressioná-lo para que o equilíbrio fiscal não seja alcançado por meio da diminuição de direitos trabalhistas, no caso da Força Sindical.        

Estamos, assim, diante de um Primeiro de Maio em que a recessão e os 11 milhões de desempregados bloqueiam o apelo histórico a aumentos salariais e redução do tempo de trabalho.        

Tem sido este, aliás, dos dois motes mais frequentes nas comemorações do Primeiro de Maio no plano internacional.      

Foi no final do século 19 que o Primeiro de Maio se tornou o Dia do Trabalho – a data se desloca para setembro em países como os Estados Unidos, Canadá, parte da Austrália e Nova Zelândia.      

Naquela época, os conflitos atingiam um estágio particularmente agudo entre as empresas e os assalariados.        

Os sindicatos reivindicavam um regime hoje consensualmente alcançado por qualquer legislação trabalhista, como a adoção de uma jornada de trabalho mais humana. O plano era então de 48 horas semanais, e isso com oito horas de expediente aos sábados.      

O fato é que uma reivindicação hoje tão básica gerou episódios de grande impacto e violência, como o da praça Haymarket, em Chicago, em 1886, que terminou com sete policiais e quatro civis mortos.        

 Foi também em Chicago que eclodiu, em 1894, a chamada greve Pullman, que paralisou boa parte das estradas-de-ferro americanas e levou o presidente Grover Cleveland a reprimi-la com tropas federais.       

 Em 1889, em Paris, durante as comemorações do centenário da Revolução Francesa, os dirigentes da 2ª Internacional, que foi um movimento bem mais político que sindical, propuseram o Primeiro de Maio como a data anual de greves e manifestações.        

 Numa espécie de prelúdio da Guerra Fria, o que entrou na pauta sindical, em torno da passagem para o século 20, foi a própria a economia de mercado, atacada por uma miríade de partidos e tendências hoje praticamente extinta ou inoperante.        

Mas, nas décadas seguintes, as sucessivas pautas de reivindicações foram objetos de acordos, que geraram salários cada vez maiores. Com isso, o mercado se ampliou superlativamente, para o benefício também das empresas.

O fato, no entanto, é que o Primeiiro de Maio já estava anteriormente revestido de outras significações. No Hemisfério Norte, a data define o meio da primavera, e o dia 1º marca em alguns países o final das férias escolares da estação.      

É ainda uma data particularmente associada a flores específicas na França, hoje com o pequeno e frágil lírio-do-vale (muguet), de cor branca, antes que caisse em desuso simbolico a pequena eglantine, uma rosa silvestre vermelha. Na Alemanha, a flor era o cravo.     

 Nos Estados Unidos, o Primeiro de Maio definia o início do ano fiscal e contábil das empresas. A questão se associava diretamente aos assalariados porque expiravam os contratos anuais de trabalho, levando multidões a procurarem e a trocarem de empregos. Era o chamado moving day.       

A data deixou aos poucos de ser propriedade dos sindicatos para entrar no calendário das festividades oficiais. Em 1919, por exemplo, o Senado francês presenteou os trabalhadores com um feriado de Primeiro de Maio. No ano seguinte – o que foi bem mais previsível – o mesmo aconteceu na Rússia soviética.   

A igreja católica, sem muito sucesso, embarcou só bem mais tarde nas comemorações. Mais precisamente em 1955, quando o papa Pio 12 instituiu no Primeiro de Maio a festa de São José, que também foi artesão e marceneiro.

Entre as ditaduras de direita as reações não foram nem sempre as mesmas. A Itália fascista deslocou o Primeiro de Maio para o 21 de abril. Mussolini evitava evocar a data propagada pelos socialistas.      

Mas o Dia do Trabalho foi mantido na França, durante a ocupação nazista, e, sobretudo, cultivado pelo Estado Novo, no Brasil (1937-1945).

Para nós, brasileiros, esse é um capítulo à parte. Os anarquistas, formados sobretudo por operários imigrantes, foram os responsáveis pela grande greve de 1917 e comemoravam o Primeiro de Maio como uma data que estimulava seu projeto revolucionário. A Velha República recuperou rapidamente o simbolismo crescente.

Em 1925, o presidente  Artur Bernardes declarou o feriado anual e o Dia do Trabalho.

Getúlio Vargas se apropriou da data por etapas. No primeiro período da chamada Era Vargas (1930-1937), o governo adotou uma postura de defesa. Estava sob o ataque de uma esquerda bem minoritária, tanto quanto os operários de um país ainda pouco industrializado.      

Mas no segundo período (1937-1945), com o Estado Novo, Getúlio se tornou uma espécie de mestre-de-cerimônias da classe trabalhadora. Ele a organizou para, por meio do trabalhismo, torná-la uma aliada.

Com essa oficialização, operada com o auxílio de um enorme aparato propagandistico, o Estado Novo transferiu para o campo oficial, por meio de festas que o governo patrocinava, uma comemoração que os antigos partidos e sindicatos pretendiam manter como um jogo de greves e piquetes.

A partir dos anos 1990 o Brasil transformou o Dia do Trabalho numa espécie de grande quermesse, com shows de cantores conhecidos e sorteios de casas ou automóveis para atrair a multidão.

Por fim, e voltando ao plano mundial, o Dia do Trabalho não é feriado e é oficialmente ignorado em pouquíssimos países do mundo, como a Arábia Saudita, a Mongolia ou a Dinamarca, que arrasta para essa particularidade sua possessão americana, a Groenlândia.      

FOTO: Estadão Conteúdo