Brasil

Craqueiros mudam de lugar e aterrorizam comerciantes


São cerca de 500 – 700 à noite – e tomaram conta da Praça Princesa Isabel. Armados de pedras e paus, não deixam ninguém se aproximar. Os comerciantes da região são os que mais sofrem


  Por Wladimir Miranda 25 de Maio de 2017 às 18:43

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


A Praça Princesa Isabel é dos craqueiros – definição do dicionário informal para os que consomem e traficam o craque. Quem seguir além do Monumento a Duque de Caxias, estátua de bronze platinado (cavalo e cavaleiro), do artista Victor Brecheret, construído há 57 anos, corre sérios riscos de ser agredido.

Se a pessoa estiver com uma máquina fotográfica na mão, ou mesmo com um celular, a possibilidade de ser atacado é enorme.

Segundo os comerciantes da região, são cerca de 500 usuários de drogas que estão ali desde domingo à noite. Foi quando a prefeitura paulistana e a Polícia Militar colocaram em prática a ação para retirá-los da Cracolândia, uma região ampla, que incluía as Avenidas Rio Branco, Ipiranga, Duque de Caxias, as ruas Mauá, dos Gusmões, a Alameda Dino Bueno e a Estação da Luz.

Após intensos conflitos com a PM, os usuários foram tomando conta da Praça Princesa Isabel. À noite, dizem os comerciantes, passam de 700.

O repórter do Diário do Comércio foi alertado por assistentes sociais do Sistema Único de Saúde (SUS), que estão no local, para que não ficasse na praça.

“Não fique aqui. Guarde este celular. E nós não vamos falar com você. Saia daqui, pelo amor de Deus”, disse uma delas, Débora, cujo nome estava estampado em seu avental branco.

Os assistentes sociais estão ali para conversar com os craqueiros. Mas pelo que a reportagem observou, nem eles conseguem chegar perto. O território é dos usuários. Ninguém entra.

Na parte da manhã desta quinta-feira, 25/05,três equipes de reportagens de televisão tiveram de deixar a região ás pressas.

Foram recebidas com pedradas, pauladas, e ameaças de agressão física, caso insistissem em gravar imagens. Uma das equipes TV teve de se socorrer dos policiais de uma base que faz plantão na entrada da praça. Fez as imagens, mas teve se retirar imediatamente do local.

NECROTÉRIO

“Você já esteve num necrotério? Pois é, o cheiro de vela queimada que estamos sentindo aqui é o mesmo que sentimos quando vamos a um necrotério. Eles queimam craque o dia inteiro. A fumaça penetra no nariz, na boca, os nossos olhos ficam lacrimejantes. Isto virou um inferno”, relatou Vanilson Pereira de Carvalho, dono do Restaurante Sabor de Minas, na rua Guaianazes, numa das laterais da Praça Princesa Isabel.

Vanilson, sociólogo formado, disse que faltou planejamento na operação articulada pela prefeitura e colocada em prática pela Polícia Militar.

“Não é assim que se faz. A prefeitura tinha de ter feito um amplo estudo da situação. O caso era para ser estudado por psicólogos, sociólogos, por profissionais acostumados a trabalhar com quem é viciado em drogas”, falou Vanilson, que já contabiliza os prejuízos por estar tão perto do território dos craqueiros.

“O nosso restaurante era frequentado pelos funcionários da Porto Seguro e da Folha de S. Paulo. Agora poucos se arriscam a vir aqui. Nosso movimento despencou. Caiu mais de 50%. O medo impera”, diz ele.

VANILSON, DONO DE RESTAURANTE NA REGIÃO DA PRAÇA PRINCESA ISABEL, CONTA OS PREJUÍZOS DEPOIS DA INVASÃO DE USUÁRIOS DE CRAQUE

Antes da ação, os usuários ficavam isolados numa região pouco habitada e de poucos estabelecimentos comerciais. Agora, entrincheirados na praça, ficam próximos ao jornal Folha de S. Paulo, do escritório da Porto Seguro, várias lojas de carros usados, um terminal de ônibus e da estação do metrô Santa Cecília.

“Meus funcionários estão inseguros. Todos estão com medo, nervosos. A situação é caótica”, disse.

Não são apenas os assistentes sociais que não entram no espaço delimitado pelos craqueiros. Viaturas e cavalarianos da PM ficam dando voltas nas imediações da praça. Lá dentro, impera a revolta, a disposição de partir para a agressão contra quem ousar chegar perto, fotografar, ou fazer imagens para a televisão.

Na tentativa da reportagem chegar mais próximo dos usuários, um susto. Um deles percebeu que estava sendo fotografado de dentro do táxi e partir para o ataque armado com uma antena de televisão. O jeito era sair logo do território ocupado.

FOTOS: Wladimir Miranda