Brasil

Congresso “amador” é um risco para o momento político


Essa é a opinião do cientista política Paulo Delgado (foto), em palestra na ACSP. Para ele, os políticos de primeira viagem que passarão a compor o Congresso devem fortalecer a polarização que domina a política nacional


  Por Renato Carbonari Ibelli 22 de Outubro de 2018 às 17:38

  | Editor rcarbonari@dcomercio.com.br


O grande número de candidatos de primeiro mandato eleitos para o Congresso Nacional, em um momento de turbulência política, é visto com preocupação por Paulo Delgado, mestre em ciências políticas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Teremos 30 partidos na Câmara, em uma espécie de presidencialismo multipartidário. O pior é que são legendas dominadas por uma maioria de aprendizes, em um momento em que precisamos de raposas”, disse Delgado nesta segunda-feira, 22/10, durante reunião do Conselho Político e Social (Cops), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Para ele, a polarização que domina o cenário político atual será intensificada nesse contexto. “É um risco. Teremos muitas cabeças pequenas fazendo grande barulho, achando que poderão resolver os problemas do pais”, disse Delgado.

Dos 513 deputados federais eleitos, 267 estarão na Câmara pela primeira vez. O PT manteve a maior bancada (56), mas seguido de perto pelo PSL (52), partido de Jair Bolsonaro, que até então era considerada uma legenda nanica. Legendas alinhadas com o ex-capitão do exército, como PP e PR, que fazem dura oposição ao PT, também se mantiveram fortes.

O especialista em ciências políticas aposta em vitória folgada de Bolsonaro, com base no que mostram as pesquisas de intenção de voto divulgadas até o momento. Para ele, o candidato do PSL soube captar o sentimento popular. “Bolsonaro dialogou com a subjetividade do eleitor, usando bem as redes sociais, que hoje em dia são uma espécie de divã para o povo”, disse Delgado.

Ainda segundo ele, as redes sociais foram fator fundamental para definir o resultado dessa eleição até o momento. “A juventude que se associou a Bolsonaro é mais ágil, tem uma eficiência maior nesse mundo digital”, disse.

WHATSAPP

Delgado minimizou a denúncia publicada pela Folha de S.Paulo - que está sendo investigada pela Justiça eleitoral e pela Polícia Federal - sobre pacotes de dados do whatsapp pagos por empresas para distribuir fake news sobre o PT, o que incorreria em crime eleitoral.

“A técnica de processar quando se está perdendo é comum. Querem iniciar um processo para deslegitimar todo o processo eleitoral”, disse o mestre em ciências políticas.

PARA O EX-SENADOR JOSÉ JORGE, AS DENÚNCIAS SOBRE USO
ELEITORAL IRREGULAR DO WHATSAPP NÃO INFLUENCIARÃO O
RESULTADO FINAL DA ELEIÇÃO

Opinião semelhante tem o ex-senador José Jorge, também palestrante na reunião na ACSP. Para ele, a eleição já está decidida a favor de Bolsonaro. “Os escândalos, ou pseudo-escândalos que estão lançando envolvendo o whatsapp, não devem interferir muito no resultado final da eleição. As pesquisas feitas até agora mostram resultados parecidos, com Bolsonaro consolidado à frente”, disse o ex-senador.

Nem o candidato do PSL, nem o petista Fernando Haddad, são considerados candidatos ideais ao posto que pretendem, na opinião de Delgado. “Se é para resolver o problema do país, Haddad precisa perder. Se é para o país ter crescimento sustentável de longo prazo, esse não é o momento para Bolsonaro ganhar”, disse.

Ele comparou ambos candidatos a náufragos rumo a uma tempestade. “O PT aparece com seu modelo econômico superado e Bolsonaro com um plano misterioso, que atrai mais gente por ser uma obra nova, embora ainda em construção”, afirmou Delgado.

POLARIZAÇÃO

O mestre em ciência política pela UFMG atribuiu a polarização que marca essa eleição à figura do ex-presidente Lula e ao que descreveu com conivência do Supremo Tribunal Federal (STF) aos excessos do ex-presidente.

“O espectro de Lula passou por toda eleição. Abusou quando estava forte, apanhou muito agora que está fraco. Lula é a voz mais ouvida no Brasil nos últimos 30 anos, e ele usou essa força para intimidar os ministros do STF, violando o princípio da separação dos poderes”, disse Delgado.

Para ele, o PT retirou a autonomia da sociedade e impôs a ideia de que o curso natural das coisas passaria pelo Estado. Essa ideia teria perdido força e encontrado a antítese em Bolsonaro. “A eleição se deslocou para fora do alcance da política, em uma atmosfera de rejeição mais do que de escolha pelo melhor. O PT não se tornou incapaz, mas sim inconveniente”, afirmou.

Sobre como será o governo do próximo presidente, os palestrantes preferiram não especular. “Vamos ter que nos segurar na cadeira e assistir o que vai acontecer”, disse o ex-senador José Jorge.

A sessão do Conselho Político e Social da ACSP foi presidida pelo vice-presidente Alfredo Cotait Neto e coordenado pelo ex-senador Jorge Bornhausen.

 

IMAGEM: ACSP