Brasil

Como o brasileiro enfrenta hoje a alta do custo de vida


Quatro de cada cinco consumidores pedem desconto na hora de pagar. Somos os "reis da pechincha" em comparação com outros quatro países da América Latina


  Por Estadão Conteúdo 19 de Julho de 2015 às 09:52

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Os consumidores estão fazendo de tudo na tentativa de esticar o salário até o fim do mês. Para enfrentar a queda na renda e a maior inflação em 12 anos, as famílias adotam estratégias como limar produtos da lista de compras, aproveitar promoções para estocar comida em casa e ir com menos frequência ao supermercado.

 "Dentro de cada família brasileira há um Joaquim Levy de saias, que são as donas de casa", afirma Renato Meirelles, sócio-diretor do Data Popular, consultoria especializada em analisar o comportamento das classes C, D e E.

Enquanto o titular do Ministério da Fazenda tenta implementar o ajuste nas contas públicas, as donas de casa trabalham duro para fazer render o salário e evitar dar um passo atrás na escada de consumo, escalada por milhões na última década.

Ao todo, 78% dos brasileiros declaram pechinchar mais atualmente  um avanço significativo em relação a anos anteriores e um resultado entre 19 e 35 pontos superior ao de outros países investigados (México, Chile, Argentina e Uruguai).

Ainda assim, perdas são inevitáveis. A classe C, maior beneficiada do recente ciclo de crescimento e que hoje representa quase metade da população, é a que mais tem se obrigado a abdicar de produtos.

Um levantamento da consultoria Nielsen mostra que a desaceleração é tão intensa que o gasto dessas famílias perdeu peso no consumo nacional, de 48% em 2014 para 46% em 2015.

"Os consumidores da classe C são os mais endividados. Então, quando se trata de apertar o bolso, eles fazem isso com mais força. Eles acabam limitando o número de idas ao ponto de venda e param de gastar mais", explica Paula Valadão, executiva-sênior da Nielsen.

O corte de categorias consideradas supérfluas é a principal medida tomada pelas famílias. Cremes para pele, iogurtes, sucos, energéticos e alguns produtos de limpeza como amaciante começam a ser deixados de lado no supermercado, de acordo com a consultoria. Na classe C, quase dois terços das categorias de produtos considerados não essenciais estão menos presentes nos lares.

Autodeclarado um "otimista na capacidade do brasileiro de se virar", Meirelles acredita que o esforço é positivo e que a mudança veio para ficar. "A classe C está sofrendo há algum tempo, mas para sofrer menos está aprendendo a se virar.

O brasileiro está saindo da fase de ficar chorando e reclamando e está correndo atrás do prejuízo, de um lado economizando e de outro tentando arranjar uma renda extra", diz.

Em um ano até maio, 934 mil pessoas em todo o País aderiram ao emprego por conta própria, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A categoria engloba desde profissionais autônomos até vendedores ambulantes, o que pressupõe um elevado grau de informalidade. Graças ao conta própria, a taxa de desemprego, já elevada em termos históricos, não atingiu números ainda maiores.

EMPRESAS

Mas a aflição também é das empresas. Em abril, o saldo de vendas em 12 meses do setor de hipermercados e supermercados mergulhou no negativo pela primeira vez em 11 anos, tendência que permaneceu no mês de maio, apontou o IBGE. Uma retração nas vendas em 2015 é dada como certa por analistas.

"O consumo ainda segurava um pouco a economia, mas agora a queda veio de forma muito rápida", avalia o economista Marcel Caparoz, da RC Consultores, que prevê recuo de pelo menos 2,5% nas vendas do segmento neste ano. Se confirmado, será o pior desempenho desde 2003.

As marcas também tentam amenizar as perdas criando embalagens especiais, com quantidade maior ou menor, dependendo do produto. Bebidas e azeites têm sido cada vez mais comercializadas por meio do popular "leve 3 pague 2", conta o executivo da GfK. Já os produtos alimentícios e os chocolates são encontrados em pacotes menores.

A situação só não é pior porque muitos consumidores adotam ainda caminhos alternativos antes de partir para o corte da lista de compras. "Muitos declaram que vão diminuir o consumo fora do lar (serviços), o que acaba amenizando um pouco", afirma Sabrina Balhes, executiva de atendimento da Nielsen. No caso das cervejas, a redução de idas ao bar inclusive impulsionou as vendas nos supermercados.

"Então, uma queda no volume será a última coisa", acrescenta Sabrina. A Nielsen espera um avanço entre 1% e 3% no volume de vendas considerando a cesta pesquisada pela consultoria.

FOTO: Felipe Rau/EC






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