Brasil

Como controlar a PF para que ela não atrapalhe o PT?


Novo ministro da Justiça diz que manterá a autonomia da Polícia Federal, mas não é isso que esperam dele no governo


  Por João Batista Natali 01 de Março de 2016 às 14:57

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Quem conseguiria controlar a Polícia Federal para que a Lava Jato deixasse de atrapalhar Lula e o PT? Em tese, o novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva.

No entanto, ele disse nesta terça-feira (01/03) que não faria isso. Afirmou também que não trocaria o diretor da PF, delegado Leandro Daiello Coimbra. Mas é o que ele disse, e não o que o Planalto, Lula e os petistas esperam dele.

A questão é complicada. O diretor-geral, chamado internamente de superintendente, é subordinado ao ministro. Mas o papel institucional do ministro é garantir independência às investigações dos policiais.

O roteiro mais provável é o de uma intervenção branca. A Polícia Federal pode ser pressionada por meio de corte de verbas – José Eduardo Cardozo tentou no ano passado, mas não conseguiu. Ou então pela remoção de delegados e investigadores empenhados na Lava Jato ou pela limitação de viagens e diárias para levar a cabo as investigações.

O fato é que, nos últimos 13 anos, dois modelos de funcionamento – com maior ou menor independência – existiram em governos petistas.

A autonomia prevaleceu no primeiro mandato de Lula (2003-2006), quando o ministro da Justiça era Márcio Thomaz Bastos, e o superintendente da PF, Paulo Lacerda.

A ênfase esteve na qualificação técnica para enfrentar o crime organizado. Foi o período em que os Estados Unidos municiavam países aliados a identificar movimentações suspeitas de dinheiro, por detrás das quais estivesse o terrorismo islâmico.

Mas a mesma máquina de investigação foi responsável por desarticular o mensalão e levou à prisão o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o presidente nacional do PT, José Genoíno.

Por outras vias, a PF mapeou ligações entre a corrupção em Ribeirão Preto (SP) e seu ex-prefeito Antônio Palocci, na época ministro da Fazenda de Lula. Ele também caiu, mas não chegou a ser preso.

Ninguém discutiria, então, a independência investigativa da Polícia Federal. Mesmo assim, permaneceu nebulosa e pouco documentada qualquer ligação do próprio Lula ao mensalão. Mas o Brasil crescia, o presidente já estava com imensa popularidade, e o ponto de interrogação foi engavetado.

No segundo mandato de Lula o gaúcho Tarso Genro assumiu o Ministério da Justiça. Nem os adversários do PT dentro da Polícia Federal afirmam que a corporação sofreu aparelhamento.

Mas o fato é que ela virou suas baterias para privilegiar os adversários do governo, como o governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, ou o senador Demóstenes Torres, comprovadamente ligado a Carlos Augusto de Almeida Ramos, também chamado de Carlinhos Cachoeira, um dos chefões do crime organizado em Goiás.

A tese de que a PF atuava com menor independência está no fato de ela não ter tomado a iniciativa de investigar a corrupção nas estatais que permitia corromper parte da base aliada do governo no Congresso.

Foi o que se evidenciou a partir de 2014, com a Lava Jato. A PF deixou de ter um papel central. Mas ela foi de extrema eficácia no tripé operacional em que atuou ao lado da Justiça Federal do Paraná e do Ministério Público.

Nesta terça-feira (01/03) especulava-se, sem nenhum fundamento concreto, que o novo ministro da Justiça esperaria mais algumas semanas para substituir o superintendente Leandro Daiello.

Bem mais sintomático será acompanhar a manutenção do ímpeto das investigações que envolvem Lula e seus familiares. Dos lados da Lava Jato ou dos lados da Operação Zelotes.

Ou mesmo da apuração sobre as finanças da campanha de reeleição da presidente da República em 2014, o que poderia levar a Justiça Eleitoral a interromper seu mandato.

FOTO: Cristina Índio do Brasil/Agência Brasil