Brasil

Comerciantes do Largo do Paissandu sofrem com a tragédia


Com a interdição da área do entorno do prédio que desabou no centro de São Paulo, vários estabelecimentos comerciais não puderam abrir as portas. Quem abriu, sofre com as restrições impostas pelas autoridades que fazem o trabalho de rescaldo


  Por Redação DC 03 de Maio de 2018 às 08:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


Inaugurado há 96 anos, em 1922, na Semana de Arte Moderna, o Ponto Chic foi logo adotado por intelectuais, artistas, modernistas. Um de seus notórios frequentadores era Casimiro Pinto Neto, que ganhou o apelido de Bauru, por ter nascido na cidade do mesmo nome do interior de São Paulo. Foi ele, Casimiro, o inventor do lanche, mantido até hoje com sua receita original.

O Ponto Chic é vizinho do Edifício Wilton Paes de Almeida, que desmoronou depois que um incêndio destruiu suas já deterioradas estruturas na madrugada de terça-feira, 01/05. Nesta quarta-feira (02/05), o restaurante, localizado desde sua fundação no Largo do Paissandu, funcionou precariamente.

Como fica há cerca de 50 metros do prédio que desabou, o restaurante foi um dos inúmeros estabelecimentos comerciais da região indiretamente afetados pela tragédia.

Em volta dele e das outras lojas, bares e restaurantes da região, a Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar organizaram cordões de isolamento.

COM O LARGO DO PAISSANDU INTERDITADO, OS CLIENTES DO
PONTO CHIC SUMIRAM, DIZ O GERENTE GILIARD

Na terça-feira, dia do incêndio e desabamento do prédio ocupado, o Ponto Chic e o Bar e Restaurante Estrela do Paissandu não puderam abrir suas portas. Ordem da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Nesta quarta-feira, o funcionamento foi precário.

“O responsável pelo policiamento deixou que nós abríssemos a porta, desde que um funcionário do restaurante ficasse perto do cordão de isolamento para só deixar entrar quem fosse realmente cliente do Ponto Chic”, disse o gerente Giliard Pereira de Souza.

O resultado da restrição era visível. No início da tarde, quando normalmente a casa ainda está cheia, o cenário era desolador.

O Ponto Chic não serve apenas o famoso Bauru. Lá, tem almoços com pratos variados, como massas e peixes. É frequentado por funcionários do comércio e de bancos do entorno.

Com o Largo do Paissandu interditado, quem procurou o Ponto Chic para a refeição foi o pessoal que está trabalhando no rescaldo, como policiais, bombeiros e jornalistas dos inúmeros veículos de comunicação que fazem a cobertura da tragédia.

O prejuízo é imenso. “A casa é frequentada normalmente por 150 pessoas na hora do almoço. Além disso, o movimento também costuma ser grande à tarde, para o lanche, e à noite. Dá para perceber que o movimento caiu pela metade”, afirmou Giliard.

O problema é que ninguém sabe dizer quanto tempo vai demorar para o trabalho de rescaldo terminar.

“Perguntei para as autoridades e ninguém soube dizer quando o trabalho vai acabar. Uns disseram que pode demorar três dias, outros, cinco dias, e um Major da PM afirmou que pode durar dez dias”, lamentou Giliard.

Outros comerciantes do Largo do Paissandu nem se atreveram a abrir seus estabelecimentos comerciais. Do mesmo lado do Ponto Chic, são várias as portas que permaneciam fechadas.

Josias Delfino Queiróz é o proprietário do Bar e Restaurante Estrela do Paissandu. Ele contabiliza queda de mais de 60% de faturamento com as interdições da área.

“Costumo faturar diariamente R$ 5 mil. Na terça-feira eu não pude abrir. Hoje (quarta-feira), o movimento caiu bastante. A  clientela passou a ser formada por policiais, bombeiros e jornalistas, pois os clientes que costumam vir, não estão conseguindo entrar. Eu quero saber de quem eu vou cobrar”, disse ele, indignado.

O Bar e Restaurante Estrela do Paissandu abre às seis horas da manhã e só baixa as portas às 22 horas. “Do jeito que está aqui, vou fechar bem mais cedo nesta quarta”, disse Josias.

CURIOSOS

Alguns comerciantes das redondezas, por outro lado, viram seu movimento aumentar no feriado de primeiro de maio e nesta quarta-feira. A lanchonete localizada no número 608 da Avenida São João, bem na esquina do Largo do Paissandu, estava lotada. O gerente Altair tinha de dar conta de uma longa fila na boca do caixa.

Apressado, não teve nem tempo para dar muita atenção à reportagem. “Não posso reclamar. O movimento aumentou de ontem para hoje”, disse ele.

BOMBEIROS ISOLARAM O ENTORNO DO DESABAMENTO

São centenas de curiosos que se aglomeram em toda a extensão do Largo do Paissandu. Com seus celulares, fazem fotos, observam o trabalho dos repórteres das emissoras de televisão que fazem plantão nas imediações.

Em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, local para onde estão sendo levadas as doações – roupas, alimentos, produtos para higiene pessoal - para as famílias desabrigadas, é grande a aglomeração. É este exército de curiosos que está enchendo o caixa de alguns comerciantes que não sofreram as consequências das interdições.

QUATRO PESSOAS NOS ESCOMBROS

O Corpo de Bombeiros atualizou para quatro o número de desaparecidos sob os escombros do edifício que desmoronou no Largo Paissandu. Além do morador chamado Ricardo, que estava para ser resgatado –já com a corda de segurança – quando o prédio veio abaixo, foram incluídas nas buscas uma mulher, chamada Selma, e os dois filhos gêmeos.

O marido dela procurou a equipe de assistência social depois de tentar encontrar a esposa por telefone e também em abrigos municipais. Mais 45 pessoas que constam no cadastro da prefeitura como moradores do prédio também não foram localizadas, mas não há informação de que estivessem no edifício.

EQUIPES DE RESGATE TRABALHAM COM A POSSIBILIDADE DE QUE
QUATRO PESSOAS ESTEJAM SOB OS ESCOMBROS

“Eles (a mulher e os gêmeos), moravam no oitavo andar do prédio. Foram feitos contatos, buscas em albergues, mas não foram localizadas, então nós assimilaremos essas vítimas como desaparecidas desta ocorrência”, explicou o capitão Marcos Palumbo, porta-voz do Corpo de Bombeiros.

“Os números mudam constantemente porque as pessoas vão procurar a assistência social por qual for o motivo, e eles dão o nome, mas não há comprovação de que moravam no local”, apontou o capitão.

Palumbo destacou que as ações no local não serão alteradas, pois, como já havia busca por uma vítima, o procedimento é o mesmo.

“Os escombros só serão removidos de forma seletiva, com muita técnica, para que a gente não faça nenhum movimento inadequado e piore o cenário”, apontou.

 

 

 

*Com Agência Brasil

IMAGENS: Willian Chausse e Wladimir Miranda/Diário do Comércio