Brasil

Com PT em queda livre, Lula perderia hoje até de Marina Silva


Datafolha também constata que corrupção, com 34%, é pela primeira vez a maior preocupação dos eleitores


  Por João Batista Natali 29 de Novembro de 2015 às 07:55

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Pesquisa Datafolha publicada neste domingo (29/11) traz um cenário sombrio para o Partido dos Trabalhadores. Caso a sucessão presidencial fosse disputada hoje, o ex-presidente Luís Ignácio Lula da Silva perderia feio num segundo turno do senador Aécio Neves (PSDB-MG), por 51% a 32%.

Perderia também do governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), por 45% a 34%, e ainda ficaria atrás de Marina Silva (Rede), por 52% a 31%.

A sensação de que Lula chegou ao fundo do poço vem também da rejeição eleitoral ao seu nome - 47% não votariam nele em 2018, caso o mandato de Dilma Rousseff chegue até lá.

O Datafolha também constata que pela primeira vez a corrupção (34%) encabeça a lista dos maiores problemas do país, seguida da saúde (16%), desemprego (10%) e, empatados com 8%, educação e segurança.

Para completar esse quadro, a presidente Dilma é avaliada como ruim ou péssima por 67% dos brasileiros - quatro pontos a menos que em agosto último -, mas seu índice de aprovaçãor - 8% para 10% - não oscila em proporção semelhante.

A ideia de que o Congresso deveria afastá-la é defendida por 65%, apenas um ponto a menos que em agosto. Mas 56% não acreditam que deputados e senadores irão fazê-lo.

Por fim, num primeiro turno para presidente da República, quem proporcionalmente mais se beneficia é Marina Silva, justamente por estar distante dos atuais embates políticos. Ela sobe de 18% a 22%, empatando com Lula numa votação encabeçada por Aécio (31%). E lideraria a votação (28%, ante 25% em agosto), quando em disputa com Lula (22%) e Alckmin (18%).

A pesquisa foi feita entre os dias 25 e 26 de novembro e ouviu 3.541 eleitores, com margem de erro de dois pontos.

Algumas observações são necessárias. A alta percepção da corrupção é obviamente derivada do noticário sobre os desdobramentos da Operação Lava Jato. Na véspera de o Datafolha sair em campo, era preso o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo íntimo do ex-presidente, e no dia seguinte era a vez do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado e homem de confiança da presidente Dilma.

Não há uma única boa notícia para o PT nos fatos ultimamente gerados pela Polícia Federal, Ministério Público e STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou a prisão, quarta-feira, de um senador no exercício do mandato.

Existe ainda a percepção de que essas instituições estão vagarosamente fechando o cerco a Lula. Os familiares dele entram no noticiário de maneira negativa.

A PF, que anunciou na sexta estar investigando Luis Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente, revelou que a "consultoria" pela qual ele recebeu R$ 2,5 milhões tinha como base documento que ele copiou da internet.

Ou seja, ele não recebeu aquela quantia excepcional como consultor, mas possivelmente por ter feito lobby para montadoras interessadas em ampliar o período em que se beneficiariam de isenções fiscais.

Esse conjunto de episódios invalida a versão do PT, segundo a qual o que estaria em curso seria uma operação de desmoralização do partido, comandada pela mídia e por setores conservadores da sociedade. 

É verdade que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, foi em 2015 um dos mais duros adversários do PT, e que, no Datafolha deste domingo, 81% dos entrevistados acreditam que ele deva ser cassado, em razão da origem nebulosa da fortuna que tem depositada na Suíça.

Mas Cunha sobreviveu, em parte, porque os petistas o apoiaram no Congresso, dentro de um jogo pelo qual ele garantiria a manutenção de seu mandato, em troca do não encaminhamento em plenário do pedido de impeachment da presidente.

O cruzamento dos números ruins para Lula e Dilma também invalidam a versão do ex-presidente e do Planalto, segundo a qual a Lava Jato estaria apenas apurando a corrupção localizada de alguns diretores da Petrobras, ou de que os empreiteiros envolvidos ou já presos  teriam sido vítimas de extorsão.

Com a corrupção encabeçando a lista dos temas mais preocupantes e o PT colocado no centro desse jogo, o que emerge é a narrativa patética de que o partido comandou um assalto à estatal para abastecer seus caixas de campanha ou enriquecer individualmente seus parlamentares. 

Por fim, esse clima abastece com contínuos ingredientes a paralisia do governo federal e o deixa sem a possibilidade de reagir à recessão econômica, que atinge a confiança dos empresários, o aumento do desemprego e a alimentação de um círculo vicioso que empurrará o cenário sombrio de 2015 para o ano que vem.





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