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Com o Capitão morre mais um pouco do saudoso futebol arte


Carlos Alberto Torres tinha tudo que se exigia de um jogador de futebol. Já era ofensivo numa época em que, dos laterais, esperava-se apenas que soubessem defender


  Por Wladimir Miranda 25 de Outubro de 2016 às 15:07

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Elegante com a bola nos pés, alto (1m82) para os padrões das décadas de 1960 e 1970, quando brilhou, Carlos Alberto Torres tinha um estilo inconfundível. Foi um autêntico líder de um futebol que não se vê mais.

Dono de personalidade marcante, tanto que sempre foi o capitão nos times onde marcou época, no Fluminense, onde iniciou a carreira, no grande Santos de Pelé, e na inesquecível Seleção Brasileira tricampeã mundial no México, em 1970, era um lateral -mas, se jogasse hoje, certamente teria lugar em qualquer meio-de-campo de respeito.

O "Capita", como passou a ser conhecido após levantar a Copa Jules Rimet em 1970, morreu nesta terça-feira, aos 72 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro, de infarto fulminante.

Uma das lendas do futebol brasileiro, atualmente era comentarista do Sportv. Carioca de nascimento, fez história como um dos maiores laterais direitos do futebol brasileiro e mundial. Era muito amigo de Pelé. O Rei o levou para atuar pelo clube norte-americano do Cosmos, em 1977.

Carlos Alberto em 1983, técnico do Flamengo: campeão brasileiro/Hélvio Romero/Estadão Conteúdo

A amizade entre os dois começou em 1964, quando Carlos Alberto Torres foi comprado pelo Santos ao Fluminense por US 200 mil, uma das maiores negociações da época.

O lateral chegava a um time vitorioso, já bicampeão mundial de clubes, mas com um elenco envelhecido. Menino ainda, aos 20 anos de idade, Carlos Alberto não demorou muito para impor seu estilo, dentro e fora de campo.

Mesmo em um time com jogadores consagrados, como Zito, na época o capitão da equipe, Dorval, Coutinho, Mauro Ramos de Oliveira, Mengálvio, Pepe e Pelé, entre outros considerados então autênticos “monstros sagrados” do futebol brasileiro, Carlos Alberto não demorou muito para ser respeitado pelos demais.

Assim que Zito parou de jogar, aquele menino carioca, que esbanjava elegância e categoria nos gramados, assumiu o posto de Capitão de um dos times mais famosos do mundo na época. A vocação para líder acompanhou o "Capita" durante toda a sua vida.

Numa equipe repleta de estrelas como a Seleção Brasileira que encantou o planeta bola em 1970, que tinha Brito, Wilson Piazza, Clodoaldo, Gérson, Tostão, Rivellino e Pelé, que já era o Rei do Futebol, foi para Carlos Alberto Torres que o técnico Zagallo deu a faixa de Capitão. E ele fez por merecer a honraria.

No jogo contra a Inglaterra, o mais difícil da Copa do México, Carlos Alberto provou mais uma vez porque recebeu a braçadeira de Capitão. No início do segundo tempo, o jogador inglês Francis Lee fez uma falta dura no goleiro Felix. Pelé, o astro da seleção, queria ir à forra. Carlos Alberto Torres pediu calma ao Rei. Na primeira chance que teve, deu o troco em Lee, que praticamente desapareceu em campo.

Carlos Alberto Torres sempre falou com muito carinho de Pelé. Em recente entrevista a uma emissora de televisão mexicana, ele fez revelações sobre o comportamento do Rei durante a competição.

“Eu lembro que o Pelé falava para todos nós. Olha pessoal, estão falando que eu estou decadente, que eu não jogo outra copa. Então, me ajudem que eu quero ganhar essa copa. Foi como se ele fizesse um apelo para nós. Nos unimos em torno daquele apelo do Pelé e, graças a Deus, deu tudo certo. Palavra de rei é palavra de rei”, contou Carlos Alberto.

Além de Santos e Fluminense, Torres também atuou por Flamengo e Botafogo. No futebol estrangeiro, passou pelo New York Cosmos, onde foi companheiro de Pelé, e pelo Califórnia Surf.

Idolatrado pelos craques, como Junior/Foto:Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo

Carlos Alberto encerrou a carreira de jogador em 1982. Também foi técnico de futebol, no Corinthians, Flamengo, Botafogo, Fluminense e Atlético –MG, entre outros. Seu último trabalho como técnico foi na seleção do Azerbaijão.

Com ele morre mais um pouco do saudoso futebol brasileiro, que se notabilizava pela técnica e talento reconhecidos no mundo todo. Carlos Alberto Torres tinha tudo que se exigia de um jogador de futebol. Já era ofensivo numa época em que dos laterais esperava-se apenas que soubessem defender.

Em nossa memória ficará para sempre o gol que marcou contra a Itália, na final da Copa de 70. Depois de receber passe de Pelé, com estilo, chutou de pé direito, para vencer o goleiro Albertosi, no quarto gol brasileiro na goleada sobre os italianos por 4 a 1. O gol, que surgiu após uma sequência de dribles antológicos de Clodoaldo, e passes inesquecíveis, virou uma marca daquela seleção incomparável.

FOTO: Estadão Conteúdo