Brasil

Clima tenso no centro da capital: moradores de rua x comerciantes


A rua Anchieta virou dormitório para dezenas de moradores em situação de rua. Os conflitos entre eles são frequentes. O cenário desolador e perigoso faz o movimento cair e muitos estabelecimentos fecharem as portas


  Por Wladimir Miranda 09 de Janeiro de 2018 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Eles começam a chegar à tarde. São dezenas. Grupos de homens e mulheres, a maioria jovens, tomam a esquina das ruas 15 de novembro e Anchieta, na região central da cidade.

Grande parte deles escolheu a frente do prédio onde funciona a Ordem dos Advogados do Brasil - OAB -, na Anchieta, para ficar, beber, consumir drogas, escutar músicas, funk, de preferência, comer, dormir.

O som, claro, sempre é ouvido no volume mais alto. São constantes as brigas entre eles. De repente, a confusão: Um homem, de trinta anos, no máximo, de chinelo de dedos e sem camisa, ameaça bater em uma morena magra, cabelos desalinhados, roupas rasgadas.

O bate-boca chama a atenção de quem passa por ali. São quase quatro horas da tarde. Muitos que trabalham no centro passam por aquela esquina, na direção do Parque D. Pedro II em busca de transporte para voltar para casa.

Com eles, convivem alguns cães. Os animais começam a latir. As crianças choram. Em meio ao tumulto, os cachorros correm para dentro do prédio que fica bem na esquina. Trata-se de um imóvel antigo, mas bem cuidado.

O local já foi muito procurado por quem queria montar um estabelecimento comercial no centro da cidade.

O que mais se vê hoje no imóvel são placas de aluga-se. A Farah Papelaria e Informática Embalagens para presentes estava no prédio há 40 anos. Não está mais.

Hoje, a papelaria atende seus clientes na Rua Roberto Simonsen, 66, a 200 metros dali. Márcio Silva, o gerente disse que o dono teve de mudar do local, onde estava estabelecido há 46 anos, devido aos moradores em situação de rua.

“A deterioração começou há cinco anos. Os moradores de rua começaram a chegar e o nosso sossego acabou. Perdemos 30% da nossa clientela”, conta ele.

A cena é desoladora: entre os homens e as mulheres, crianças, meninas, adolescentes grávidas.

Para evitar que eles invadissem o prédio onde funciona a entidade, a OAB mandou colocar grades na entrada. A reportagem do Diário do Comércio procurou a direção da OAB para falar sobre o assunto, mas não obteve resposta. Os funcionários da entidade estão em férias coletivas.

“Fizemos várias reuniões com a Prefeitura da Sé, mas nada foi feito. Então, o melhor foi mudar para cá. Além disso, lá o nosso espaço era alugado. Aqui, o salão é nosso”, afirma Márcio.

Arnaldo Amato Filho [na foto que abre esta reportagem] é dono do Escritório de Prestação de Serviços Serdesp. Faz serviços de despachante e está na loja 5 do mesmo prédio, que antes era ocupado também pela Farah, há 30 anos.

Arnaldo participou de reuniões na Prefeitura da Sé, na tentativa de mudar o cenário na esquina da 15 de novembro com a Anchieta.

“Muitos moradores em situação de rua que estavam na região do bairro da Luz, conhecida como Cracolândia, vieram para cá. Eles se drogam o tempo todo. Brigam, amedrontam os clientes que entram aqui. Estamos perdendo clientes. Não sei mais o que posso fazer”, afirma ele.

BAIXARAM AS PORTAS: LOJISTAS NÃO RESISTIRAM À DEGRADAÇÃO DO CENTRO ANTIGO

Os espaços vazios no prédio são muitos por causa da debandada de quem tinha um estabelecimento comercial ali.

E o problema adicional é que a administradora do prédio não consegue alugar os espaços que são abandonados por quem não aguentava mais a situação e resolveu ir embora.

A reportagem do Diário do Comércio procurou a administração do prédio, mas os administradores não quiseram falar.

A ampla sala que antes era ocupada pela Tesouro Laser está vazia há mais de seis meses. Outras placas de aluga-se são vistas logo na entrada.

Eliana, que não quis dizer o nome completo e pediu para não ser fotografada, recebeu a reportagem do portal do Diário do Comércio no exato momento em que se preparava para deixar o estabelecimento comercial.

A Cafeteria Anchieta, que ficava no número 22 da rua, não existe mais.

“Não servimos mais café. Aliás, não servimos mais nada. Estou indo embora. Não dá mais para ficar aqui”, desabafou ela. A Cafeteria Anchieta sucedeu uma franquia da rede Pão e Queijo que existia no local.

O pior para Eliane é que ela não vai conseguir nem vender o ponto comercial.

“Bem que eu tentei vender o ponto, mas não consegui. Vários interessados me procuraram para comprar, mas se assustaram ao presenciarem este cenário. O jeito é ir embora”, afirmou.

A Rua Anchieta liga a 15 de novembro com o Pátio do Colégio, onde todas as noites são servidos pratos de sopas para os moradores em situação de rua.

O sopão é distribuído por igrejas evangélicas, na maioria das vezes.

A reportagem do Diário do Comércio procurou a Associação Viva o Centro.

O presidente da associação, Milton Luiz de Melo Santos, está de férias, mas a sua assessoria enviou a seguinte resposta:

“A rua Anchieta é tida como uma rua dormitório. Moradores em situação de rua na área não é incomum no dia a dia, em frente ao Pátio do Colégio. Toda noite há entrega de alimentos por instituições. A Anchieta é uma rua estreita, com apenas dez números, sendo que a OAB e o Tribunal de Justiça ocupam metade da área.

O que se observa lá hoje é a mudança de apenas um estabelecimento, onde a entrada é pela rua 15 de novembro. A loja em questão mudou para a Rua roberto Simonsen. Entre 2014 e 2016 vários estabelecimentos fecharam, mas hoje a situação está mudando, com a inauguração de pelo menos 15 estabelecimentos na região central. A lavagem da rua ocorre todas as manhãs pela Prefeitura Regional da Sé”.

A reportagem constatou, como foi relatado, que a situação não é tranquila, como quis fazer crer a Associação Viva o Centro.

O número de moradores em situação de rua na Rua Anchieta e região é grande. Os conflitos são frequentes. Quem passa pela região sente na pele o clima de tensão.

A Farah Papelaria e Informática não foi o único estabelecimento a trocar de endereço por conta dos problemas ocasionados pelos moradores em situação de rua.

A Assessoria de Imprensa da Prefeitura da Sé disse que a prioridade é cuidar da zeladoria.

O QUE DIZ A SMADS

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), informa que realiza diariamente abordagem e acolhimento na região central de São Paulo e que, no período entre 21 de maio de 2017 e 03 de janeiro de 2018, foram realizadas 155.897 abordagens da assistência social para a população em situação de rua da região central.

Deste total, 131.010 abordagens geraram algum tipo de encaminhamento para acolhimento, emissão de documentos, refeições, banhos e cortes de cabelo, além da oferta de capacitação para o Programa Trabalho Novo.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública - SSP-, a região do Pátio do Colégio pertence ao Primeiro Distrito Policial, da Sé, e que de janeiro a novembro do ano passado, 258 pessoas foram presas, onze menores apreendidos e mais de uma tonelada e meia de entorpecentes foi apreendida.

Ainda de acordo com a SSP, a Polícia Militar realiza patrulhamento preventivo e ostensivo na região, por meio do 45º Batalhão de Polícia Militar. A respeito dos moradores em situação de rua, as polícias militar e civil lembram que o problema deve ser tratado como uma questão de saúde pública e social.

Fotos: Wladimir Miranda/Diário do Comércio