Brasil

Ciro Gomes tenta seduzir os liberais de Rodrigo Maia


Candidato do PDT é rejeitado pelos petistas, imobilizados pela fantasia da viabilidade judicial de Lula; DEM e o centrão procuram, então, ocupar esse espaço


  Por João Batista Natali 21 de Junho de 2018 às 13:32

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


É um imenso paradoxo, mas de explicação relativamente simples. Ciro Gomes e seu partido, o PDT, são contra as reformas e atacam o mercado financeiro. Mas estão devagarinho atraindo o DEM e mais outros partidos liberais ou conservadores do chamado centrão.

A ideia por detrás dessa aproximação política está na necessidade de, desde já, isolar o PT, que seria o parceiro natural do candidato pedetista.

O cenário esboçado pelo PDT e pelo centrão prevê uma disputa, no segundo turno de outubro, entre Ciro Gomes e Jair Bolsonaro (PSL). A burocracia e o eleitorado petistas cairiam por força da gravidade na direção do voto útil para derrotar o militar da extrema-direita.

Nesse movimento, no entanto, o PT não se credenciaria como aliado do finalista do PDT em termos de programa de governo, pois esse espaço – e a divisão dos ministérios importantes – já estaria nas mãos do centrão.

Pode parecer à primeira vista complicado, mas é esse o roteiro traçado implicitamente na última terça-feira, 19/06, em jantar que reuniu Ciro e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e mais dirigentes do PP, PR e PRB.

Desde então, em que pese o clima pouco propício a controvérsias por causa da Copa do Mundo, Ciro não ataca os democratas e seus aliados. Tudo poderá terminar em casamento, no qual a noiva conservadora entraria, como dote, com seus preciosos minutos de propaganda eleitoral gratuita.

AMBIGUIDADES DE LULA

A aproximação de um PDT de centro-esquerda com os partidos de centro-direita é facilitada pela teimosia petista, ao insistir que Lula é candidato, apesar de inelegível (ficha suja, pois condenado em segunda instância) e preso em Curitiba desde 7 de abril.

Lula e sua porta-voz, a presidente do PT e senadora Gleisi Hoffmann (PR), sabem perfeitamente que a candidatura do ex-presidente é uma hipótese mais que remota.

Mas ao reiterar sua condição de concorrente ao Planalto, Lula usa a suposta candidatura como aríete para fustigar o Judiciário.

Como as pesquisas ainda dão a ele a liderança das intenções de voto, a candidatura presidencial se tornou instrumento de pressão sobre todos os juízes que possam eventualmente libertá-lo da prisão e lhe dar uma legibilidade claramente proibida pela legislação.

E não é apenas uma alternativa desenhada pela decisão da Segunda Turma do STF de voltar a analisar o caso de Lula na próxima terça, 26/06.

O establishment petista está otimista porque os mesmos ministros do STF inocentaram Gleisi Hoffmann e o marido dela, Paulo Bernardo, em julgamento (19/6) por corrupção na Petrobras.

Por unanimidade, os ministros deliberaram que não havia provas contra a senadora, mas apenas afirmações coletadas em delações premiadas.

Mas o caso de Lula é bem mais complicado. A decisão do juiz Sérgio Moro sobre o apartamento do Guarujá foi confirmada pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, depois que o habeas corpus preventivo em nome de Lula foi negado pelo TSJ e pelo próprio STF.

Para soltar Lula, os ministros precisariam entrar no mérito da sentença de Curitiba e invalidar sua confirmação do TRF-4.

Fazem parte da segunda turma do STF os ministros Gilmar Mendes, doutrinariamente favorável à soltura dos réus da Lava Lato, e Ricardo Lewandovski, com claras simpatias pelo PT. São dois imensos pontos de interrogação.

Mas o DEM parte do princípio de que Lula não será libertado, e por isso costura com Ciro Gomes uma aliança em que o PT entraria no segundo turno, mas apenas a reboque.

ALCKMIN, UM PARCEIRO DISTANTE

Tão logo o DEM assuma que a candidatura presidencial de Rodrigo Maia foi um simples fogo de palha para ocupar espaço na mídia, os dirigentes do PSDB acreditavam que refariam com aquele partido a mesma aliança selada em 1994 entre FHC e o finado Antônio Carlos Magalhães.

Mas o virtual beneficiário da aliança, Geraldo Alckmin, não é mais uma boa opção na cabeça dos democratas. Seu desempenho apenas sofrível nas pesquisas leva – por enquanto – à previsão de que ele não será um dos finalistas da disputa presidencial.

Não há nisso muita coerência ideológica.

O fato é que Alckmin se movimenta para bloquear o acordo de seus ex-aliados com o PDT.

É até provável que a máquina tucana passe a trabalhar pela amplificação dos efeitos das gafes verbais de Ciro.

Na principal delas, ele afirmou que fecharia em primeiro lugar alianças com o PSB e com o PC do B, garantindo a “hegemonia moral e intelectual” de sua coligação.

Foi uma maneira de dizer que, com o DEM e o centrão, a coligação teria uma hegemonia imoral e burra.

O fato é que, por enquanto, Alckmin viaja, conversa, movimenta-se pelo Brasil, mas suas intenções de voto não saem do lugar. E com isso ele involuntariamente afasta os aliados do campo liberal.

 

FOTOS: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Jaélcio Santana/Fotospúblicas