Brasil

Cinco gargalos inviabilizam o sistema de saúde no Brasil


Em palestra na ACSP, o secretário David Uip apresentou um raio-x da estrutura de saúde no Estado de São Paulo. A judicialização se tornou um dos pontos mais graves, consumindo R$ 1,2 bilhão do orçamento da área


  Por Inês Godinho 01 de Setembro de 2016 às 13:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


São Paulo não tem uma secretaria estadual de saúde estadual, “mas do Brasil”, na visão do médico infectologista David Uip, titular da pasta desde 2013.

Responsável pela gestão de uma estrutura e um orçamento que poucos países têm, ele explicou a contradição vivida pelo setor no estado, com grande impacto sobre as contas da área. 

“Enquanto São Paulo centraliza a preferência de pacientes de todo o país e até do exterior por ter os melhores e maiores centros de saúde pública, ninguém nos ajuda a pagar a conta. Não há ressarcimento por parte dos estados nem das empresas de medicina suplementar que nos mandam seus doentes.”

A convite do Conselho de Empresas do Setor de Saúde (CESS), órgão da ACSP, o secretário apresentou um levantamento sobre os recursos e o funcionamento do sistema estadual de saúde, completado com uma análise sobre os pontos críticos que inviabilizam essa estrutura de imensa complexidade.

DA ESQUERDA PARA A DIREITA:GHEORGIU, UIP, O VEREADOR NATALINI E O CONSELHEIRO CHAPINA

O evento faz parte das atividades do novo conselho, coordenado pelo médico e conselheiro da ACSP Dimitrie Josif Gheorghiu. “Pretendemos apoiar o setor em suas demandas e necessidades, que são gigantescas”, disse o médico.

Gheorghiu lembrou que a Saúde movimenta R$ 450 bilhões por ano e vem sendo um um dos mercados mais impactados pela inovação tecnológica e transformações demográficos em todo o mundo. “Temos necessidades do século 21 e um modelo social do século 20.”

NA CASA DOS BILHÕES

Os números da saúde paulista impressionam sob qualquer ponto de vista. Com um orçamento de R$ 21,3 bilhões para 2016 e uma equipe de 22 mil médicos contratados, a secretaria cobre um leque extenso de atividades, da prevenção e atendimento à saúde até a produção de pesquisas médicas.
 
Em 2015, houve mais de um bilhão de atendimentos ambulatoriais e 76 milhões de consultas médicas. 

O alcance dessa estrutura poderia ser suficiente para atender com qualidade a população dependente do serviço público de saúde. No entanto, os gargalos crônicos que apresenta tornam o trabalho sempre longe do satisfatório.
 
Para começar, lembra Uip, a maior parte do orçamento da secretaria está engessada por verbas vinculadas. São cinco pontos críticos, de acordo com o secretário.

1 Subfinanciamento federal – Distribuidor da maior fonte de verbas do sistema, o SUS remunera apenas 60% dos procedimentos. O déficit fica na conta dos estados e municípios. “Quem mais arrecada, é quem mais cai fora”, definiu o secretário.

2 Baixa qualidade da gestão – A constituição atribui ao município o atendimento dos procedimentos de baixa complexidade. Eles representam 90% da demanda em saúde. A incapacidade das prefeituras de cumprir a incumbência sobrecarrega a estrutura estadual, que deveria cuidar dos casos de média e alta complexidade.
 
3 Desperdício de recursos – Problema diretamente ligado à má gestão, pode ser identificado em situações como a ocupação de apenas 18% dos leitos das Santas Casas e ao uso indiscriminado de exames. Por exemplo: 80% dos exames de ressonância pedidos no estado apresentam resultado normal.

4 Corrupção – Sintoma crônico do sistema de saúde, causado pelo excesso de complexidade e condições insatisfatórias de funcionamento, o roubo apresenta cada vez mais dificuldade de combate. De acordo com Uip, o governo precisa debelar organizações muito bem implantadas na estrutura do estado, com mecanismos sofisticados de atuação.

5 Judicialização – O problema mais recente dessa lista representa um alto risco por sua imprevisibilidade e pela espiral de crescimento. Em 2003, houve 100 mil casos atendidos de fornecimento de medicamentos de alta complexidade, obtidos por meio judicial; em 2015, chegaram a 700 mil. No último ano, a secretaria estadual gastou R$ 1,2 bilhão de seu orçamento na solução de demandas individuais, com prejuízo para o interesse coletivo. 

INCERTEZAS AGRAVAM CENÁRIO

Para piorar, o médico lembrou a rotatividade de ministros de Saúde nos últimos tempos. “Nos três anos em que estou no cargo, tratei com seis ministros diferentes, um a cada seis meses. Ninguém se apropria de dados dessa magnitude em um semestre.” 
 
Em um quadro como esse, a rivalidade histórica entre o setor público e o privado não tem mais sentido.

Como afirma Gheorghiu, coordenador do conselho, “a visita do secretário representa mais um elo para fortalecer a iniciativa da ACSP de promover o diálogo com todos os protagonistas do setor. Só assim, conseguiremos chegar a um novo modelo”.

Diante de uma plateia formada por representantes de diversas áreas da saúde, Uip classificou como uma grande burrice a divisão entre o público e o privado.

“A iniciativa privada tem muito mais agilidade que a pública”, apontou. “Ainda não descobrimos como fazer o ressarcimento e outros pontos. Vocês podem nos ajudar a encontrar soluções.”

FOTOS: Thaís Ferreira