Brasil

Candidatura de Maia é movimento errático de um centro desunido


Presidente da Câmara foi lançado, nesta quinta (08/03), candidato presidencial pelo DEM, e concorre no mesmo espaço político com Meirelles e Alckmin, que não conseguem decolar


  Por João Batista Natali 08 de Março de 2018 às 14:05

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Como havia prometido, Rodrigo Felinto Ibarra Epitácio Maia, ou simplesmente Rodrigo Maia, lançou-se nesta quinta-feira (08/03) candidato presidencial durante a convenção dos Democratas.

Presidente da Câmara, deputado federal pelo Rio de Janeiro desde 1999, o político liberal de 47 anos sobe agora aos céus de Brasília como um imenso balão de ensaio.

Ele tem no máximo 1% das intenções de voto, e reflete, a seu modo, a disputa pelo centro do tablado político, em que nenhum nome se sobressai para o primeiro turno presidencial de 7 de outubro.

Esse vazio de lideranças empolgantes é um dos paradoxos da política brasileira. Pesquisa do Datafolha feita há cinco meses revelou que a maioria relativa, de 29%, se considerava de centro, e que 10% se viam como de centro-direita.

É justamente o espaço eleitoral agora disputado pelo governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSD, talvez proximamente MDB) e, numa hipótese mais remota, até pelo presidente Michel Temer (MDB).

Esse cenário centrista, majoritário e fragmentado, tem sua expressividade desafiada por tendências ideológicas localizadas nos dois extremos.

Em termos históricos, o centro defende a economia de mercado e a democracia representativa, com a garantia das liberdades civis.

De acordo com Datafolha, a esquerda tem 13% dos eleitores, e a direita, 26%.

O PARADOXO DA ESQUERDA

Há nessa divisão um outro paradoxo. Se de um lado o candidato identificado com a direita, deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), aproxima-se desses 26% em intenções de voto, na esquerda a questão é mais complicada.

Caso pudesse se candidatar, o ex-presidente Lula estaria acima das 33% de intenções. Mas a esquerda que ele diz representar é bem menor que isso. Chegaria a 22% se somada aos eleitores que se dizem de centro esquerda.

É uma conta que não fecha, por uma razão muito simples. Lula se identifica com a esquerda, mas também com eleitores que o associam a mais empregos e maior poder aquisitivo.

São ingredientes que, nos 13 anos de petismo no palácio do Planalto, não dependiam apenas de políticas públicas específicas, mas de um cenário internacional no qual pesavam as exportações para a China, que enriqueceram bastante o Brasil.

TEMER VIROU UM INCÔMODO

Mas voltemos ao centro. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Rodrigo Maia fez de tudo para se mostrar como um candidato disposto a ir até o fim.

Negou que estivesse apenas esquentando a cadeira para uma aliança próxima com o PSDB. Ou que desistiria caso o bloco governista, do qual ele faz parte, partisse para uma outra opção.

Outro dirigente de peso do DEM, o prefeito de Salvador ACM Neto – provável candidato a governador da Bahia – procurou até, em entrevista ao O Estado de S. Paulo, dissociar-se ao máximo de Temer, que se tornou um peso para seu companheiro de partido.

O problema do DEM é que seu terreno eleitoral é pequeno. Quando ainda se chamava PFL, o partido – por meio de seu antigo cacique Antônio Carlos Magalhães –cresceu primeiro à sombra de Fernando Collor e, a seguir, de FHC.

Sem luz própria, o DEM circula agora na política com uma mistura dos mandatos que exerce – 267 prefeitos, três senadores, 28 deputados federais – e mais ministérios e secretarias estaduais.

Quando se pensa em ideologia, no entanto, a identidade dos Democratas se confunde com o MDB de Temer, com o PSD de Gilberto Kassab e, sobretudo, com o PSDB de Alckmin.

A atual confusão vem do fato de estarem em jogo, nesse conjunto, diferentes candidaturas presidenciais. Todas elas disputando o mesmo espaço centrista, com ligeira vantagem para Alckmin, que oscila entre 6% a 8% das intenções de voto.

A maior desvantagem do pelotão centrista está no fato de nenhum de seus integrantes ser proprietário de uma imagem cativante, capaz de mobilizar sentimentalmente os eleitores.

E a segunda maior desvantagem está no fato de esses candidatos serem confundidos com o governo Temer.

Não o presidente da República que se envolveu com a JBS, mas aquele que se lançou uma pauta de reformas que, apesar de justas e justificadas, já nasceram impopulares.

É sintomático, a propósito, o fato de o manifesto do DEM, lançado durante a convenção, em Brasília, não mencionar, sequer, a Reforma da Previdência, pela qual Rodrigo Maia se empenhou de maneira notável e que só não foi votada pela Câmara porque os deputados, candidatos à reeleição, seriam cobrados por seus eleitores.

AS PITANGAS DA OPOSIÇÃO

A essa altura da disputa presidencial, a indefinição do centro não é compensada pela profunda divisão das esquerdas, onde Psol, PC do B, PDT e PSB não são mais simples figurantes para apoiarem no segundo turno o PT.

Todos sabem hoje, na esquerda, que Lula, como ficha suja, não disputará o Planalto e talvez esteja preso durante a campanha eleitoral.

O chamado plano B do petismo, o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, aparece com apenas 2,5% das intenções de voto na pesquisa divulgada esta semana pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Não existem mais, minimamente, as condições favoráveis de 2010, quando um Lula no pico de sua popularidade conseguiu eleger como sucessora a desconhecida burocrata Dilma Rousseff.

O resumo desse quadro é simples. A direita tem Bolsonaro, que tende a refluir com a falta de um “sparing partner” da esquerda. Enquanto isso, a esquerda e o centro se mexem em seus campos, mas perfeitamente desunidos.

 

FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil