Brasil

Campo liberal continua estagnado, indica Datafolha


Pesquisa aponta que Geraldo Alckmin (PSDB) tem ainda os mesmos 7%. Pelo instituto, hoje o segundo turno seria entre Bolsonaro e Marina, e não entre Bolsonaro e Ciro Gomes


  Por João Batista Natali 10 de Junho de 2018 às 10:50

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Os candidatos presidenciais favoráveis às reformas e ao equilíbrio fiscal continuam a correr o risco de serem eliminados no primeiro turno de 7 de outubro. O principal deles, Geraldo Alckmin (PSDB), continua estagnado, com 7% das intenções de voto. Jair Bolsonaro (PSL) lidera, com 19%.

É o que demonstra a pesquisa do Datafolha publicada neste domingo (10/6). Foram entrevistados 2.824 eleitores em 174 municípios, entre quarta e quinta-feira da semana anterior.

Foi o primeiro levantamento desde que o país se chacoalhou com a paralisação dos caminhoneiros. A margem de erro é de dois pontos.

A rigor, é imperfeita a comparação com a última pesquisa do mesmo instituto, publicada em abril, já que a previsão eleitoral foi modificada com a retirada da candidatura de Joaquim Barbosa (PSB).

Mesmo assim, permanece nítida a tendência dos eleitores de não privilegiar uma visão liberal da economia e da sociedade. Além de Alckmin, essa visão é compartilhada por Álvaro Dias (Podemos), que empacou nos 4% de intenções, e Rodrigo Maia (DEM), que oscila entre 1% e 2%.

Dentro dessa mesma corrente, Henrique Meirelles (MDB), Guilherme Afif Domingos (PSD), João Almoêdo (Novo) e Flávio Rocha (PRB) aparecem com intenções que variam de 0% a 1%.

PELOTÃO CONTRA O MERCADO

O Datafolha insiste em submeter aos entrevistados uma opção em que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) aparece como candidato.

Ele está preso pela Lava Jato em Curitiba desde 7 de abril e, por ter sido condenado em segunda instância, é considerado ficha suja pela legislação eleitoral (não pode concorrer).

Mesmo assim, e que seja por pura curiosidade, Lula lideraria as intenções, com 30%. Não é, porém, uma porcentagem que reflita o eleitorado petista.

Quando ele não está entre as opções submetidas ao entrevistado, os dois nomes possíveis do PT, Fernando Haddad e Jaques Wagner, recebem pífio 1% de intenção.

É altamente provável que um desses dois nomes receba nas urnas uma votação bem maior. Eles não se destacam no eleitorado petista porque Lula, na cela que ocupa na Polícia Federal de Curitiba, considera que sua candidatura é um instrumento de pressão sobre o Judiciário, que o condenou em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro.

Outra lição interessante do Datafolha deste domingo diz respeito a Marina Silva (Rede), que aparece na segunda colocação, com 15% - e, portanto, mais credenciada por enquanto a disputar com Bolsonaro o segundo turno.

A ex-senadora petista tende a minguar com a propaganda eleitoral no rádio e na televisão, em razão de menos de um minuto que seu partido terá.

Marina é um poço de ambiguidades políticas. Ela é hoje inimiga do PT -recomendou o voto no tucano Aécio Neves, no turno final de 2014.

Mas tudo indica que é um problema bem mais pessoal, diante da operação hedionda e bem-sucedida, há quatro anos, na qual os marqueteiros da petista Dilma Rousseff destruíram sua imagem.

Ciro Gomes (PDT) aparece em terceiro lugar, com 10%. Com Lula concorrendo, ele cairia para 6% das intenções.

E aqui vai um dado esquisito. Nas duas outras pesquisas publicadas na semana anterior ao Datafolha, feitas pelo Poder360 e pela XP, Ciro aparecia na segunda posição. O que apontava para um segundo turno entre ele e Bolsonaro.

O Datafolha, que tem uma credibilidade maior no ramo, indica, no entanto, a partir das intenções do primeiro turno, que o segundo turno seria entre Bolsonaro e Marina.  

Os dois candidatos da extrema-esquerda reúnem intenções de voto em quantidade apenas simbólica. Manuela D´Ávila (PC do B) tem entre 1% e 2%, enquanto Guilherme Boulos (Psol) reúne apenas 1%. 

O caso de Boulos é curioso. Ele é, dentro da esquerda, o concorrente de maior visibilidade, em razão das intervenções barulhentas e desastradas do grupo que dirige, o MTST.

Mas não chega a reunir adesões que cheguem além daquelas que pertencem historicamente ao pequeno partido ao qual se filiou.

SEGUNDO TURNO RUIM PARA BOLSONARO

O Datafolha fez um exercício um tanto teórico (incluiu Lula) nas hipóteses de um segundo turno. O ex-presidente seria imbatível, derrotando Alckmin (49% a 22%), Marina (46% a 31%) e Bolsonaro (49% a 32%).

Não é uma alternativa que tenha os pés no chão, já que -mais uma vez -Lula não será candidato.

Mas a novidade da pesquisa é outra. Bolsonaro, apontado por duas outras pesquisas (Poder360 e XP) como um vencedor virtual do segundo turno, seria, pelo Datafolha, redondamente derrotado.

Os melhores resultados dele seriam uma vitória sobre o petista Haddad (36% a 27%) e um empate com Geraldo Alckmin (33%). Nos demais cenários, ele levaria a pior. Perderia de Marina (42% a 32%) e de Ciro (36% a 34%), embora, nesse caso, haja estaticamente empate técnico.

Esse conjunto de detalhes quebra um pouco a certeza ou o conformismo com a possibilidade de Jair Bolsonaro se tornar presidente da Repúbica.

Ele tem pela frente um caminho difícil. E o Datafolha talvez indique que ele não está no caminho certo ao evitar a participação em sabatinas de jornais ou em debates em que suas ideias pouco elaboradas possam ser confrontadas com as de jornalistas ou adversários.

 FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil