Brasil

Caldeirão de Huck volta a esquentar


Empresário e apresentador de TV, embora não se apresente ainda como candidato, tornou-se um nome viável com a inelegibilidade de Lula e com 8% das intenções de voto na pesquisa Datafolha


  Por João Batista Natali 02 de Fevereiro de 2018 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O empresário e apresentador de TV Luciano Huck, de 46 anos, voltou a ser uma alternativa para a campanha  presidencial.

Ele havia anunciado em novembro do ano passado que não se candidataria mais à sucessão de Michel Temer. Mas poderá rever essa desistência em razão da confluência de dois fatores, para ele bem positivos.

De um lado, o ex-presidente Lula se tornou inelegível (24/01), ao ser condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro.

Huck - e é a impressão de seus amigos, que poderá ser confirmada brevemente com pesquisa qualitativa já encomendada - teria maior penetração potencial em segmentos que até agora apoiavam Lula. Ou seja, poderá crescer nessa faixa do eleitorado.

O segundo fator está na pesquisa do Datafolha, publicada na quarta-feira (31/01). Mesmo não sendo candidato, ele obteve 8% das intenções de voto, num cenário em que Lula não mais aparecia entre as opções. Empatava com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

O fato é que o mercado reagiu com certa euforia à força de Huck demonstrada pela pesquisa. O "fator Huck" influiu quarta-feira na alta do índice Bovespa.

Entre as muitas conclusões permitidas pela numeralha do Datafolha, transparecia a persistência da orfandade de uma candidatura de centro, comprometida com uma pauta mais ampla de reformas e com uma visão liberal da economia.

Em oposição a Huck, por exemplo, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, arrastavam-se em torno do 1% das intenções. A proximidade de ambos com Temer impedia uma decolagem. 

Alckmin, por sua vez, continuava com um dígito das preferências, distanciando-se do necessário para que possa ser visto como um dos finalistas do segundo turno do final de outubro. 

UM JOGO DE EXCLUSÃO

Diante desse quadro, Huck voltou a entrar em evidência por um jogo de exclusão. Já que nenhum outro candidato liberal demonstrava viabilidade, ele ao menos dava uma prova positiva de vitalidade eleitoral, com números ainda pequenos, mas que poderiam rapidamente subir, caso se lance oficialmente e entre na campanha.

É curiosa a imagem de Huck nas classes C e D de menor escolaridade. Seu programa na TV Globo, O Caldeirão do Huck, mistura valores como o individualismo e um assistencialismo que não depende do Estado. Razão pela qual ele é visto como alguém "que pode fazer alguma coisa pelos mais pobres".

Visão muito parecida com aquela que essas mesmas faixas da população atribuem a Lula - e não ao Partido dos Trabalhadores, que opera em segmentos mais ideologizados e marcados pela militância.

Num de suas últimas caravanas eleitorais, Lula acusou o golpe dessa concorrência que começava comer a quirera de seu quintal. Acusou Luciano Huck de ser "o candidato da TV Globo", que por sua vez estaria interessada em, a partir de agora, "governar diretamente o país", sem os supostos intermediários do PSDB.

Essa colocação é caricatural e indevida. No ano passado, quando seu nome ainda circulava como virtual candidato, a direção da Globo se dispôs a convocar o apresentador e afastá-lo com certa teatralidade, para que sua eventual candidatura não se confundisse com o nome da emissora.

Fazia sentido. A equação "se Huck ganha, a Globo está no poder" tem uma versão oposta e igualmente perigosa e simples: "se Huck perde, a Globo vai para a oposição", o que é empresariamente muito ruim para qualquer grupo com um bom peso na economia.

De qualquer modo, a acusação de que Huck é o candidato da Globo tende a se espalhar, sobretudo por obra e graça do PT, que em 2014 não teve escrúpulos, durante a campanha presidencial e sob ideias do marqueteiro João Santana, de destruir Marina Silva, acusando-a de ser "a candidata dos banqueiros", estes mesmos que "tiram a comida do prato dos pobres", segundo sórdido filmete que as emissoras de TV veicularam como propaganda de Dilma Rousseff.

UMA EQUIPE DE PRONTIDÃO

Luciano Huck deu muito indiretamente a entender que poderia reconsiderar sua desistência a partir da longa aparição que fez, em janeiro, num dos programas Domingão do Faustão.

Quando o programa foi ao ar ele estava com a família na França, onde ainda se encontra. Mas quem veio enquanto isso ao Brasil foi o publicitário francês Guillaume Liegey, que trabalhou na campanha que elegeu Emmanuel Macron como presidente da França, em maio do ano passado.

Liegey participou da elaboração de ideias que deram muitíssimo certo, como misturar uma atuação pesada nas redes sociais com a atuação de grupos de cidadãos, capazes de fazer o porta-a-porta em pequenas cidades para convencer os eleitores das qualidades de seu candidato.

Foi assim que nasceu e cresceu o movimento La République en Marche (a República em Movimento), que não apenas elegeu o presidente da França como também, dois meses depois, conquistou a maioria na Câmara dos Deputados.

A analogia com Huck está no tipo de organização do grupo Agora!, também alheio ao establishment partidário e interessado em promover no Brasil uma profunda inovação.

Huck precisaria, logicamente, de um partido político que registrasse sua candidatura. E para tanto está próximo do PPS, hoje de centro-esquerda e que fez oposição a Dilma Rousseff e ao PT, retirando-se do governo Temer quando dos primeiros escândalos, no ano passado.

O PPS pretende mudar de sigla e de nome, segundo seu presidente, Roberto Freire. Seria uma nova guinada para incorporar o coletivo Agora! e se afastar de sua antiga origem, quando, com a redemocratização de 1985, saiu da clandestinidade com sua histórica identidade de Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Huck não tem o que se preocupar. O antigo PCB é hoje favorável à livre iniciativa e ao pluralismo político. Sente grande afinidade pelo economista Armínio Fraga, que já foi tucano e um dos quadros das administrações de FHC. Armínio é um dos conselheiros mais próximos de Luciano Huck.

FOTO: Jales Valquer/Foto Arena/Estadão Conteúdo