Brasil

Brasileiro perdeu a bola de cristal e não vê os bons resultados de Temer


Segundo pesquisa do Datafolha, 50% acreditam que o desemprego está subindo, 60% que haverá mais inflação, e 42% que o poder aquisitivo deve cair


  Por João Batista Natali 05 de Dezembro de 2017 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Não tem jeito: Michel Temer não convence os brasileiros sobre seus mais nítidos e evidentes resultados nos campos econômico e social.

Três exemplos foram dados pela pesquisa do Datafolha, divulgada no último domingo (03/12). Dos 2.765 entrevistados, 50% afirmaram que o desemprego vai aumentar.

Acontece que o desemprego está caindo. Devagar, mas em queda.

É o que dizem o Ministério do Trabalho, por meio do Caged (76 mil empregos a mais, em outubro), e o IBGE (12,8% de desemprego, contra 13,6% no trimestre anterior), cujas estatísticas são aceitas até pelo mais empedernido economista da oposição.

Ainda assim, só 11% se curvam à evidência de que o desemprego deve diminuir, enquanto 24% respondem que ele permanecerá como está.

Outro indicador econômico é a inflação, que chegou a 11,4% no segundo mandato de Dilma e está hoje em 2,7%.

Apesar disso, 60% afirmam que a inflação deve subir, com 11% dizendo que ela entrará em queda, e 24% que ela permanecerá em seu atual patamar.

O terceiro e último indicador é o poder de compra. O maior número de respostas (42%) é de que ele deve diminuir, contra 34% que acreditam que ele continua em seu atual nível, e apenas 19% com a crença de que deve crescer.

Esse último tópico é exemplar. O poder de compra cresce com o aumento da renda combinada com a queda da inflação. A renda média está aumentando, e os produtos de consumo corrente –sobretudo nas prateleiras de alimentos –ficaram mais baratos.

Logo, o poder de compra está subindo, mas a percepção dos brasileiros é de que ocorre justamente o oposto.

RAZÕES PARA A NEGAÇÃO DA REALIDADE

É relativamente fácil a explicação para esse engano coletivo. Como Michel Temer é o presidente da República, a visão negativa não deriva dos resultados concretos da equipe econômica, mas da baixa popularidade do ocupante do Planalto.

E, mais uma vez, são os números do Datafolha que esclarecem o paradoxo.

Hoje, 71% dos brasileiros avaliam Temer como ruim ou péssimo, contra 23% que o consideram regular e apenas 5% dos que o enxergam como ótimo ou bom.

Há a respeito uma oscilação interessante. A popularidade de Temer deixou de cair e até esboça uma leve recuperação.

Os que o acreditam que ele é ruim ou péssimo somam hoje 2 pontos a menos que no final de setembro, data da última pesquisa.

Aqueles que acreditam que o presidente é regular são 3 pontos mais numerosos, enquanto os pessimistas crônicos estão estacionados no mesmo patamar de 5%.

O mesmo fenômeno ocorreu com sinais trocados no final de 2019. Naquela época, 83% dos brasileiros acreditavam que o então presidente Lula era ótimo ou regular.

Com tamanha maioria, os brasileiros estavam perfeitamente cegos às questões fiscais e acreditavam que a crise de 2008 não passava de “marolinha”, e não era o prenúncio do desastre que viria com Dilma Rousseff.

Há uma certa ingenuidade na canonização de Lula naquela época e no espinaframento sistemático de Temer hoje em dia.

Prevalece a crença de que o presidente da República atua na mais perfeita e incontestável solidão, mas em verdade suas políticas dependem de acordos com o Congresso e com a cumplicidade da sociedade.

Lula foi bom para os negócios. Mas isso dependia em grande parte da política responsável de seu então ministro da Fazenda, Antonio Palocci.

Temer também o é, mas sua mão direita menos reconhecida se chama agora Henrique Meirelles, o ministro da Fazenda, e uma equipe responsável no Banco Central, BNDES e Petrobras.

A SUCESSÃO EM SÃO PAULO

Nesta segunda-feira (04/12), o instituto tenta fazer uma primeira previsão sobre a preferência dos eleitores para a sucessão do governador Geraldo Alckmin, que pela Constituição não pode disputar um terceiro mandato consecutivo.

Trata-se, no entanto, de um tema que ainda não está nas ruas, e que vem sendo sistematicamente eclipsado pelo debate sobre a sucessão presidencial.

O resultado, então, é um incrível exercício de ficção.

O deputado federal Celso Russomanno (PRB) encabeça as intenções de voto em todos os sete cenários.

Russomanno não tem visibilidade por sua atividade parlamentar.

O que conta, no caso, é o recall de suas antigas participações eleitorais e suas aparições na TV. Na mais recente, para a Prefeitura de São Paulo, ele encabeçou as intenções de voto em grande parte da campanha de 2016.

Mas acabou num patético terceiro lugar, atrás do eleito João Doria (PSDB) e de Fernando Haddad (PT), candidato à reeleição. A frente, entre os principais candidatos, apenas de Marta Suplicy (PMDB).

Russomanno é abertamente um conservador, partidário da lei e da ordem, e dono de uma linguagem truculenta que expressa com desenvoltura em programas de televisão com pautas policiais, nas quais defende interesses de consumidores.

Ele seria uma versão civil do também deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), hoje em segundo lugar nas intenções de voto para presidente.

A analogia não é gratuita. Bolsonaro poderá seguir o rumo traçado por Russomanno e, com a proximidade da votação, também se tornar uma coqueluche de curta duração.

 

ILUSTRAÇÃO: Site Greekguide