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Brasil voltou a ter uma diplomacia independente


Discurso de Michel Temer nas Nações Unidas abandona a "diplomacia companheira" praticada por Lula e Dilma e que privilegiava os vizinhos bolivarianos


  Por João Batista Natali 21 de Setembro de 2016 às 17:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O discurso que o presidente Michel Temer fez na terça-feira (20/09), ao abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas, mereceu na mídia nacional um enfoque equivocado.

Em lugar de interpretá-lo como a síntese da nova política externa brasileira – que deu radical guinada em relação aos 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores –, o noticiário fez de conta que a ênfase foi justificar o impeachment de Dilma Rousseff.

É verdade que Temer disse que o processo respeitou a Constituição e que não ocorreu ruptura democrática. Mas não foi esse o ponto essencial. Não se faz diplomacia em posição defensiva.

Uma boa análise do discurso está na edição desta quarta do jornal New York Times, para o qual o presidente demonstrou uma visão bem mais ampla das questões internacionais, defendendo a solução de dois Estados para o conflito entre Israel e Palestinos ou ao condenar a xenofobia que prevalece na resistência ao acolhimento de refugiados.

O jornal cita o analista político da Globonews, Guga Chacra, que escreveu o seguinte: “alguns da esquerda brasileira, que por forças das circunstâncias consideram Temer um direitista extremado, podem ficar chocados ao constatar que o discurso foi multicultural, em termos semelhantes ao pronunciado por Barack Obama”.

Há no texto bons momentos, como a existência de uma “globalização assimétrica”, expressão cunhada pelo Itamaraty nos tempos de Fernando Henrique Cardoso, e a afirmação de que as Nações Unidas “não podem resumir-se a um posto de observação e condenação dos flagelos mundiais”, afirmando-se, ao contrário, como “fonte de soluções efetivas”.

“Os semeadores de conflitos reinventaram-se. As instituições multilaterais, não.”

Ele fez referência aos esforços diplomáticos que tiraram as ambições nucleares do Irã e também elogiou o acordo de paz entre o governo colombiano e os narcoguerrilheiros das Farc.

FIM DA "DIPLOMACIA COMPANHEIRA"

Qualificou ainda de “salutar” a diversidade ideológica na América Latina, o que marca um tom conciliatório que os países hoje enfezados com a queda de Dilma não souberam compartilhar.

A prova foi a indelicadeza dos chefes de seis delegações, que se retiraram do plenário pouco antes de Temer tomar a palavra.

Foram Equador, Costa Rica, Venezuela, Cuba e Bolívia. São regimes que se dizem de esquerda e que têm, como segunda característica comum, o fato de possuírem fortes dívidas com o Brasil, em razão de obras públicas financiadas pelo BNDES.

Ou seja, são vulneráveis a retaliações, situação agravada no caso da Bolívia, que está renegociando com o Brasil os termos de um acordo para a exportação de gás.

O Uruguai, que também lamentara o impeachment da ex-presidente, não participou da presepada, que o ministro José Serra, das Relações Exteriores, recolocou no devido lugar ao dizer que o episódio tinha importância diplomática igual a zero.

Mas esse bloco de vizinhos traz para a história recente da diplomacia brasileira um peso exemplar. Excetuada Cuba, que é desde 1959 uma ditadura, são países com um forte déficit democrático.

A Nicarágua, por exemplo, cassou recentemente todos os deputados da oposição. E a Venezuela, com lideranças da oposição na cadeia, não convoca o referendo revogatório que interromperia o mandato presidencial de Nicolas Maduro, o infame sucessor do bolivariano Hugo Chávez.

Pois são esses justamente os vizinhos que Lula e Dilma privilegiavam. Eram os protagonistas da chamada “diplomacia companheira” (o termo era usado pela oposição), na qual o Brasil atuava em consonância com a Argentina kirchnerista, com um perfil político que também mudou, com a eleição, em fins do ano passado, do presidente Maurício Macri.

O caso da Venezuela é o mais sintomático. Não apenas pelo apoio ao ingresso o país ao Mercosul – bloco dentro do qual Nicolas Maduro está hoje isolado, por manobra bem-sucedida de Temer e José Serra, – mas por parcerias econômicas suspeitas.

Dois exemplos. A Venezuela deveria ter participado da construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, para refinar o petróleo que extrai no Caribe.

Mas ninguém no Brasil cobrou de Chávez a assinatura de um protocolo de comprometimento. E há o caso escabroso pelo qual o fundo de pensão Postalis (funcionários dos Correios) vendeu títulos da dívida brasileira para comprar papeis da dívida venezuelana, que hoje não nada valem no mercado de títulos podres.

O artífice da diplomacia pró-bolivariana foi obviamente o ex-presidente Lula, cujo perfil internacional era desde os anos 80 valorizado por uma biografia (“o líder operário em ascensão na arena política”) que na época se assemelhava ao do polonês Lech Walesa, que chegou à Presidência a partir da militância como líder operário dos estaleiros de Gdansk.

Um perfil hoje muitíssimo maculado pela operação Lava Jato. Basta lembrar que, em suas edições desta quarta-feira (21/09), os dois jornais europeus que mais se esforçaram para qualificar o impeachment de Dilma como um “golpe” registraram, com palavras muito duras, o fato de Lula ter-se tornado réu em Curitiba.

“O ex-presidente brasileiro Lula é indiciado por corrupção no caso da Petrobras”, diz o jornal francês Le Monde. “Ex-presidente Lula, do Brasil, será julgado por corrupção em escândalo de recebimento de propina”, diz o diário inglês Guardian.