Brasil

Brasil empata. Sem erros do árbitro


Jogadores e o técnico Tite reclamaram bastante do árbitro, que não teria marcado uma falta sobre o zagueiro Miranda, no gol sofrido pelo Brasil. Mas não houve falta. Com novo penteado, Neymar abusou das provocações


  Por Wladimir Miranda 18 de Junho de 2018 às 15:43

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


O toque de mão do zagueiro suíço Zuber nas costas de Miranda foi insuficiente para deslocar o jogador brasileiro, que estava mal colocado. Manda a cartilha de um bom zagueiro, que ele nunca deve ficar na frente do atacante. Sempre ao lado, ou atrás.

Choques entre jogadores dentro da área em cobranças de escanteios são corriqueiros, normais. Se fossem marcados, teríamos dez pênaltis por jogo. Talvez aqui no futebol brasileiro a falta fosse marcada. Lá fora, na Europa ou até mesmo em outros países do nosso continente, o jogo segue. Gooool legal, como diria Mário Vianna, célebre árbitro/comentarista brasileiro de décadas passadas.

Não foi pênalti em Gabriel Jesus. O ex-jogador do Palmeiras, atual destaque do Manchester City, atirou-se de forma acrobática dentro da área. Os árbitros, principal e de vídeo, interpretaram o salto de Gabriel Jesus como encenação. Correto. Gabriel Jesus não foi punido com o cartão amarelo. Deveria ter sido.

Ressalvas feitas em relação aos dois lances tidos como faltosos pelos jogadores e integrantes da comissão técnica – Tite ficou indignado com o toque nas costas de Miranda, mas não reclamou do suposto pênalti em Gabriel Jesus -, vamos ao jogo.

A Seleção Brasileira começou bem. Superou a tentativa inicial de marcação no campo adversário da Suíça e criou boas oportunidades para sair na frente do placar. Atacava em velocidade pelos lados, com boa movimentação de Willian, Phillippe Coutinho e Neymar. Neste período, Paulinho perdeu uma grande oportunidade, ao chutar para fora, na frente do goleiro, que já estava batido.

O gol brasileiro veio numa jogada característica de Coutinho, em lance criado na esquerda, com Marcelo e Neymar. O atacante do Barcelona saiu da marcação e, de pé direito, acertou o ângulo do goleiro suíço. Golaço.

Após o gol, aos 19 minutos, o Brasil desacelerou. Passou a tocar a bola lateralmente. E Neymar voltou a exibir o comportamento que faz dele um dos jogadores mais odiados por adversários do mundo todo. Para provocar os suíços, o astro do Paris Saint Germain começou a driblar para trás. Caía em campo a qualquer toque do adversário. Irritante.

E então começou a sofrer faltas. Foram dez no total. O jogo ficou truncado, não fluía. A Seleção Brasileira, ganhando o jogo e com o adversário à sua mercê, parou de produzir.

Times dirigidos por Tite não são envolventes, não jogam de forma ofensiva. Veneram o placar favorável de 1 a 0. Como costuma dizer em seus longos discursos, Tite opta por equipes equilibradas, consistentes. As vitórias dos times que dirige não costumam ser por goleadas. Foi assim no Internacional, Grêmio e, principalmente, no Corinthians, que fez dele uma estrela do futebol brasileiro. Eram tantos os resultados com placares econômicos, com muitos empates no meio, que Tite passou a ser chamado de “empatite”.

A Suíça percebeu que o Brasil não era tão avassalador assim e empatou o jogo no reinício da partida. Ele, Zuber, em lance normal, mas que gerou tanta polêmica, cabeceou sem defesa para o goleiro brasileiro Alisson.

O Brasil perdeu o rumo. Tite trocou Casemiro por Fernandinho e Paulinho por Renato Augusto. As alterações não tiveram nenhum efeito prático. Na verdade, a seleção precisava de criatividade. Neymar estava mais preocupado em provocar os adversários, Willian corria desnorteado de um lado para outro, sem nada produzir, e Phillippe Coutinho não conseguia superar a marcação suíça.

Fernandinho é um volante de mais movimentação do que Casemiro, mas de pouca criatividade, portanto incapaz de dar mais talento ao meio-de-campo do Brasil. Renato Augusto foi um jogador importante na primeira fase do trabalho de Tite. Mas não está bem. Além disso, ficou bastante tempo parado por causa de uma contusão e ainda não recuperou a forma ideal. Logo depois, Tite trocou Gabriel Jesus por Roberto Firmino que, na primeira boa chance que teve, chutou muito mal, por cima do gol.

FALTA DE OUSADIA

Nas mudanças que fez, a falta de ousadia de Tite ao escolher os 23 convocados para a Copa da Rússia ficou escancarada. Artur, do Grêmio, comprado pelo Barcelona, no momento é um meia com muito mais poder de criação do que Renato Augusto. Só que Artur ficou fora da lista dos 23.

Por culpa também da falta de ousadia de Tite, o Brasil não tem um fator surpresa no banco de reservas. Vinícius Júnior, comprado pelo Real Madrid ao Flamengo, poderia ser este jogador. Aos 17 anos, rápido, driblador, insinuante, o atacante poderia fazer estragos na defesa da suíça. Caso Tite não fosse tão conservador, poderia ter levado Rodrygo, do Santos, outro menino de 17 anos, adquirido também pelo Real, para tentar mudar o resultado do jogo.

A única opção do Brasil com características ofensivas no banco de reservas era Douglas Costa. O problema é que o rápido e talentoso atacante só nos últimos dias voltou aos treinamentos, após recuperar-se de contusão.

O empate foi ruim, inesperado, principalmente para quem se deixou levar pelos comentários que davam à Seleção Brasileira a condição de favorita para ganhar o Mundial. Mas não foi um desastre. Há tempo para recuperação.

Estreias em copas do mundo sempre mexem com a condição emocional dos jogadores. Não dá para descartar a possibilidade de que Neymar, por exemplo, que foi o destaque negativo do Brasil no domingo, volte a brilhar e ter um comportamento menos personalista nas próximas partidas. Foi a primeira partida oficial que Neymar disputou após a contusão que sofreu, que o deixou de fora dos gramados desde fevereiro deste ano.

O fato de ter voltado a campo para disputar um jogo válido por Copa do Mundo após a goleada por 7 a 1 imposta pela Alemanha no mundial de 2014 disputado no Brasil, também pode ter influenciado no rendimento da Seleção Brasileira.

O empate em 1 a 1 contra a Suíça quebrou uma sequência de nove vitórias em estreias em copas e deixou o Brasil na segunda colocação do Grupo E. O líder é a Sérvia, que derrotou a Costa Rica por 1 a 0.

Sexta-feira, 22/06, o Brasil enfrenta a Costa Rica, em São Petersburgo, às 9 horas da manhã, horário de Brasília. Às 15hs, Sérvia e Suíça se enfrentam em Kaliningrado.

Se vencer, o Brasil ficará na zona de classificação e eliminará a Costa Rica. Se houver empate, a situação ficará bem complicada para o time de Tite. Caso perca, será o caos. O Brasil ficará na terceira colocação do Grupo E, e irá para a rodada final na lanterna.

 

* Wladimir Miranda trabalhou durante anos como jornalista esportivo. Cobriu as copas de 1990, na Itália, 1994, nos Estados Unidos, e 1998, na França, além de inúmeros torneios internacionais, como a Copa Libertadores da América, Copa América e Mundial Interclubes.

Foto: Divulgação Fifa