Brasil

Bolsonaro pode cair, e Huck volta a subir


Apresentador de TV esboça no Domingão do Faustão volta à candidatura, enquanto deputado fluminense deverá explicar a multiplicação dos imóveis que incorporou ao patrimônio


  Por João Batista Natali 08 de Janeiro de 2018 às 13:35

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Duas novidades na praça mexeram, nas últimas horas, com o cenário presidencial.

A primeira foi o discreto retorno à disputa do empresário e apresentador de TV Luciano Huck.

Ele foi entrevistado pelo Domingão do Faustão e deu indiretamente a entender que a decisão de não mais concorrer, anunciada em 27 de dezembro, pode ser em breve revista.

A segunda novidade está com o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ). O candidato que aparece em segundo lugar nas pesquisas -e se apresenta como o representante da moralidade militar -sofreu seu primeiro escorregão.

A Folha de S. Paulo deste domingo (07/01) publica que ele e os três filhos, que também exercem mandatos eletivos, tiveram o patrimônio em imóveis multiplicado por dez, desde que o capitão reformado ingressou na política, em 1988.

A reportagem não traz nenhuma informação sobre a origem do dinheiro. Mas dá a entender que existe algo de estranho na proliferação de imóveis, que eram apenas dois e são hoje 13.

Em valores de mercado atualizados, os Bolsonaros passaram dos R$ 2 milhões iniciais para R$ ao menos R$ 15 milhões.

O deputado, que não quis responder às perguntas da Folha, soltou pelas redes sociais uma nota em que afirma estar sendo vítima de calúnia.

O CASO LUCIANO HUCK

A primeira pergunta a ser respondida está na motivação para o recuo do empresário em sua disposição anterior de não mais participar da política.

Tudo indica que a resposta está no vazio das intenções de voto no centro do tablado político.

Como alternativa à radicalização dos extremos –por enquanto Lula, à esquerda, e Bolsonaro, à direita –nenhum dos nomes em circulação chegou a superar os 10% das intenções.

Geraldo Alckmin, Rodrigo Maia, Henrique Meirelles e similares não demonstram fôlego para chegar ao segundo turno.

Huck acredita que poderá ocupar esse espaço. Era esse, aliás, o pensamento em comum de assessores informais com os quais ele se reunia regularmente até novembro.

O empresário e apresentador também sabe que sua ascensão tende a descontentar candidatos dos quais inevitavelmente ele tirará votos.

No ano passado, quando ainda lhe davam ouvidos, o tucano Aécio Neves disse que Huck representava “a falência da política”.

As reações mais enraivecidas vieram, agora, do Partido dos Trabalhadores, cuja presidente, Gleisi Hoffmann acusou Huck de “fazer campanha descarada”, sob o patrocínio da Rede Globo.

Seu colega de bancada no Senado, Lindbergh Farias, bateu pelo twitter na mesma tecla.

Se ambos correram para se contrapor a Huck é porque eles sabem que uma eventual candidatura do apresentador provocaria uma erosão fatal no nome que o PT precisará indicar, depois da inviabilidade judicial da candidatura de Lula.

O curioso é que, nas redes sociais, a comunidade petista insiste em não levar Huck politicamente a sério, porque ele não passaria de “uma celebridade”, como a Xuxa ou a cantora Anitta.

Mas é justamente por ser celebridade que ele é potencialmente relevante. E vem com o carimbo de algo novo na política, o que é uma imensa vantagem no Brasil do pós-Lava Jato.

O site O Antagonista revela nesta segunda-feira (08/01) que o apresentador tem mais de 17 milhões de seguidores no Facebook.

Como parte da campanha presidencial será feita este ano pelas redes sociais, essa informação é assustadoramente positiva.

O CASO JAIR BOLSONARO

Uma das vantagens eleitorais do ex-militar e deputado fluminense estava na probidade com que ele se apresentava em público, marcando oposição à corrupção que o Judiciário há três anos vem revelando.

A multiplicação mágica de seu patrimônio não põe em xeque essa imagem. Mas levanta suspeitas sobre as quais ele deverá se explicar.

Por conta própria ou nos debates, durante os quais estará em confronto com os demais concorrentes.

Nesta segunda-feira, a Folha volta à carga e revela que, apesar de ser proprietário de um apartamento em Brasília, que ocupa durante os dias da semana com sessões no Congresso, Bolsonaro aceita que seu holerite traga mensalmente R$ 6 mil como “auxílio moradia”, que a Câmara reserva para os deputados que pagam aluguel ou se hospedam nos hotéis brasilienses.

Não há nisso nada de ilegal. Mas há algo de estranho, com a abertura de um novo flanco ético que o levará à posição de defensiva.

O levantamento que a Folha publicou o domingo tomou por base as declarações de Imposto de Renda do deputado e de seus filhos, somadas a um levantamento nos cartórios de registros de imóveis do Rio de Janeiro.

O jornal desconhece outros bens, como aplicações financeiras, e em nenhum momento acusa Bolsonaro de desonesto. Coloca em discussão, no entanto, um problema que ele deverá explicar.

Basicamente, tais informações isoladamente fariam menos sentido caso Bolsonaro fosse uma sumidade em economia e em políticas sociais, o que ele, em definitivo, não é.

Em lugar de conteúdo programático, ele exibe apenas uma truculência baseada numa noção de ordem pública que esteve em vigor durante o regime militar.

Fala em armar os proprietários rurais para que eles se defendam das invasões do MTST e retoma, com relação à criminalidade urbana, uma linguagem pouco refinada que, no passado, era propriedade de Paulo Maluf, hoje preso na Papuda (DF).

Os adversários de Bolsonaro, bem mais numerosos que seus defensores, com certeza estão esfregando as mãos. Descobriram um calcanhar de Aquiles a partir do qual poderão ataca-lo.

Sem preconceitos ideológicos.

 

FOTOS: Fábio Rodrigues Pozzebon/Agência Brasil, e Gabriela Feola/Wikimedia Commons