Brasil

Boatos são malucos, mas empurram Temer para a defensiva


Expediente obrigatório de 12 horas para o trabalhador e confisco do FGTS não integram o repertório de intenções oficiais. Mas governo não tem uma política clara e competente de comunicação


  Por João Batista Natali 09 de Setembro de 2016 às 14:37

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Por volta das 18h desta quarta-feira (08/09), as redes sociais foram entulhadas com a informação segundo a qual, de agora em diante, o presidente Michel Temer “obrigaria os trabalhadores” a um expediente diário de 12 horas.

A notícia era falaciosa e distorcia vergonhosamente uma entrevista à imprensa do ministro do Trabalho Ronaldo Nogueira, pouco depois de um encontro dele com centrais sindicais.

A verdadeira intenção do governo era bem outra. Em meio a medidas da reforma da legislação trabalhista, a ser enviada ao Congresso, Nogueira se referiu à necessidade de criação de uma segurança jurídica para os assalariados que já fazem plantões de 12 horas seguidas, como médicos e enfermeiros em hospitais, policiais ou vigilantes.

Para o ministro, a segurança era necessária para eliminar a dubiedade da lei, que permite 12 horas de expediente em troca de 36 horas seguintes de repouso, mas que a Justiça do Trabalho tende por vezes a forçar o empregador a pagar como horas extras quatro das horas trabalhadas nesses plantões, já que o limite legal, para outras carreiras, é de oito horas diárias.

Se tudo é tão simples assim, a versão distorcida da intenção oficial não foi apenas uma marotagem desonesta de adversários do governo. Daqueles que insistem em qualificar o impeachment de Dilma Rousseff como “golpe” e que qualificam Temer de “usurpador de extrema direita”, predisposto a passar por cima dos direitos dos mais pobres e dos assalariados.

A realidade é um pouco mais complexa. Claro que existem segundas intenções do Partido dos Trabalhadores e de seus aliados partidários ou sindicais. Mas o importante é a existência de um clima de verossimilhança – aquilo que tem a aparência de verdade, sem o ser necessariamente -, dentro do qual todas as intenções originárias do atual governo “devem” ser necessariamente negativas e condenáveis.

A mesma lógica inspirou o boato de que o Planalto pretende agora congelar o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), impedindo que o recém-desempregado tenha acesso a um dinheiro que é dele, e não do governo.

Ainda nesta sexta (09/09), o próprio Temer negou a uma colunista de O Globo que a questão esteja sendo estudada.

“Impedir que o trabalhador tenha acesso ao seu FGTS em caso de demissão seria loucura. Não pensei nisso e acho que, além de absolutamente inviável, é injusto”.

O presidente acrescentou ter consultado Henrique Meirelles, o ministro da Fazenda, para saber se a ideia estapafúrdia estava sendo ventilada na área econômica. A resposta dele: “não há nada sobre o assunto.”

PASSIVIDADE OFICIAL

Dentro de um ambiente em que barbaridades se transformam em possibilidades, o governo tem certa responsabilidade pelos estragos políticos desses rumores, porque não ter uma política hábil de comunicação.

Um exemplo. O ministro Ronaldo Nogueira poderia muito bem ter citado a intenção quanto aos expedientes mais longos, sem, no entanto, quantifica-los, já que a questão invariavelmente cairia na rede previsível das potocas.

Do mesmo modo, quando estava na semana passada na China, o próprio presidente não precisava afirmar que eram “apenas 40” os manifestantes que foram às ruas em São Paulo para chamá-lo de golpista. Eram bem mais que isso, o que, aliás, não dá lastro algum de autenticidade às palavras de ordem do ato público ou às ações de vandalismo e violência que se seguiram.

Uma das consequências da receptividade das narrativas fantasiosas está no fato de o governo ser colocado na defensiva. Ele passa a ter a necessidade de se justificar em ocasiões nas quais a posição de força passa a ser ocupada por aqueles que o acusam.

Em outras palavras, dá sinais de fraqueza, o que é de imediato interpretado como suscetível de concessões, dentro do maior coletivo de esperteza da cultura nacional, que é o Congresso. O mesmo Congresso do qual o Executivo depende para aprovar reformas que revigorem a economia.

Esse quadro agrava sensivelmente um cenário político já complicado pelo inconformismo dos partidários de Lula e Dilma. São eles que acreditam (ou pretendem acreditar) que a Lava Jato é “seletiva”, porque não pune em proporções idênticas todos os partidos políticos. É óbvio, no entanto, que os parceiros da operação que drenou recursos da Petrobras eram claramente capitaneados pelo Partido dos Trabalhadores.

São eles que também insistem na tese de que a queda de Dilma mergulhou o país num espaço político incompatível com a democracia. A analogia ao golpe de 1964 é imediata, por mais que Temer não tenha baixado atos institucionais, não tenha cassado mandatos e o país não saiba hoje o que são prisioneiros políticos.

Mas estamos diante de um cenário no qual a verdade se tornou desimportante diante da narrativa capciosa, desde que ela seja conveniente do ponto de vista ideológico.

É por isso que Temer continuará a ser “golpista”, continuará a ganhar ares verossímeis a versão de que “Dilma foi deposta porque era mulher” e todas as demais histórias que dão legitimidade social às supostas vítimas e apontam o presidente da República como maior algoz.

A pergunta pertinente passa então a ser a seguinte: será que Temer terá condições de promover o saneamento das finanças públicas e fazer as reformas a que se propõe caso, ao mesmo tempo, se transforme num patético perdedor da batalha da comunicação? É difícil que isso aconteça. Muito difícil.