Brasil

Atos contra Dilma foram mornos. Mas atos do PT contra Temer foram bem frios


Entenda por que manifestantes a favor do impeachment definitivo da presidente afastada não saíram tão maciçamente às ruas neste domingo (31/07)


  Por João Batista Natali 31 de Julho de 2016 às 18:20

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Manifestações peloimpeachment definitivo da presidente afastada Dilma Rousseff ocorreram neste domingo (31/07) em 18 Estados, mas com um número de manifestantes menor que o dos atos públicos dos últimos 14 meses.

As polícias militares não haviam feito estimativas até o início da noite. Uma das únicas exceções foi a de Brasília, onde estavam reunidas 5 mil pessoas. As maiores manifestações da cidade haviam reunido desde maio de 2015 um número cinco vezes maior.

Mesmo assim, de acordo com comparação de fotos publicadas pelo site G1, foi bem maior a mobilização dos que defendiam do que os que reprovavam o impeachment em sua reta final no Senado.

Em São Paulo, por exemplo, o ato da avenida Paulista contra Dilma ganhou maior força por volta das 16h. Os manifestantes se concentravam com maior densidade em quatro quarteirões.

Os partidários da presidente afastada, reunidos no Largo da Batata, na zona oeste, compunham uma massa de pessoas de três a quatro vezes menor, de acordo com fotografias feitas de cima.

Com isso, tornou-se uma peça de ficção de mau gosto a afirmação dos organizadores de que o "Fora Temer" havia reunido 50 mil. É um número absolutamente inverossímil.

Manifestações favoráveis ao impeachment aconteceram e ao menos em 12 outras cidades paulistas. As maiores se deram em Ribeirão Preto e Campinas.

No Rio, o Fora Dilma reuniu à tarde uma multidão na praia de Copacabana, com cartazes em inglês para dialogarem com a mídia estrangeira, presente na cidade em razão dos Jogos Olímpicos.

Na mesma praia, no período da manhã, a manifestação pró-Dilma tinha apenas 200 pessoas no momento em que deveria começar, por volta das 9h. Esse número se multiplicou apenas por cinco ou seis, conforme se aproximava o momento da dispersão, ao meio-dia.

De modo geral, a motivação para que manifestantes saíssem às ruas foi desta vez menor por pelo menos três motivos.

Em primeiro lugar, o MBL (Movimento Brasil Livre) desta vez não se mobilizou, por acreditar que o momento não era adequado, em razão do último fim de semana das férias escolares e a votação definitiva do Senado ainda distante, prevista para a primeira semana de setembro.

As manifestações anti-Dilma foram convocadas pelo VPR (Vem Pra Rua), que aliás possui menor penetração nas redes sociais e na internet.

Em segundo lugar, Dilma já está afastada e esse quadro é visto pela população como irreversível. Mesmo o PT, segundo manchete deste domingo do jornal O Globo, não acredita mais que ela volte. O impeachment passa a ser visto, então, como uma batalha já ganha, pela qual não é preciso mais sair às ruas.

Por fim, em terceiro lugar, a prioridade de todas asmanifestações anti-Dilmaconsistiu basicamente em afastá-la. O presidente interino Michel Temer foi uma decorrência sem apelo popular específico. Ele não tem popularidade para mobilizar os eleitores a seu favor.

Entre os partidários do Partido dos Trabalhadores as dificuldades são, no entanto, bem maiores, e elas explicam a baixa motivação das manifestações deste domingo.

Além da sucessão de revelações da Lava Jato que comprometem a presidente afastada e sua equipe, há agora também o fato de o ex-presidente Lula ter-se transformado em réu, em processo que corre na Justiça Federal de Brasília.

Além disso, o próprio PT, com a perspectiva de um desempenho eleitoral mais que pífio nas eleições municipais de outubro, está hoje dividido sobre o prosseguimento da defesa de Dilma e do alardeamento da tese de que teria ocorrido um "golpe" para afastá-la do Planalto.

FOTO: Rafael Arbex/Estadão Conteúdo

 





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