Brasil

As duas versões da Lava Jato: a verdadeira e a da conspiração


Cármen Lúcia homologou as delações da Odebrecht, e Eike Batista foi preso ao voltar ao Brasil. Mas Dilma e Lula enxergam complôs estrangeiros na máquina de combate à corrupção


  Por João Batista Natali 30 de Janeiro de 2017 às 13:32

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Existem aparentemente duas versões da Lava Jato em curso no país. A primeira é a da ministra Cármen Lúcia, que homologou nesta segunda-feira (30/01) as 77 delações de executivos da Odebrecht.

E é ainda a da Polícia Federal, que prendeu Eike Batista, também na manhã desta segunda, quando ele desembarcava no Rio, vindo de Nova York.

A segunda Lava Jato existe dentro da cabeça de Lula e de Dilma Rousseff. Ambos argumentam que, por trás do combate à corrupção, existem interesses estrangeiros que procuram enfraquecer o Brasil, para inviabilizar a candidatura presidencial de Lula ou se apoderar dos recursos do pré-sal.

Ou seja, uma boa teoria conspiratória para o consumo de réus virtuais ou concretos, interessados em criar uma cortina de fumaça para motivar seus cada vez menos numerosos seguidores.

Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), encaminhou as delações, devidamente homologadas, à Procuradoria Geral da República, para que as informações que elas trazem sejam investigadas.

Ela provou a fragilidade da tese de que a morte de Teori Zavascki, no último dia 19/01, atrasaria de forma comprometedora a Lava Jato e favoreceria a impunidade dos implicados, que pertencem a praticamente todos os partidos políticos.

O conteúdo dessa imensa delação deverá dobrar o atual número de investigados, segundo o procurador Deltan Delagnol, chefe da equipe do Ministério Público que opera, em Curitiba, ao lado do juiz Sérgio Moro

O conteúdo das delações ficará por enquanto em sigilo, por mais que o presidente da OAB, Cláudio Lamachia, tenha pedido uma ampla e imediata divulgação.

Mas Cármen Lúcia decidiu que a suspensão do sigilo deverá ser determinada apenas pelo novo relator da Lava Jato no STF, que até o final da semana substituirá o ministro Teori, na tramitação e julgamento dos réus com foro privilegiado.

Os demais, sem mandato eletivo, serão entregues a Curitiba, a Brasília e ao Rio de Janeiro, onde o Judiciário e o Ministério Público Federal está empenhado nas investigações.

EIKE BATISTA, O RETORNO

Quanto a Eike Batista, o grande aventureiro que em 2012 possuía US$ 30 bilhões e era o homem mais rico do Brasil, sua prisão foi determinada na quinta-feira (25/01), mas ele havia viajado dois dias antes para os Estados Unidos, “a negócios”, segundo seu advogado.

Depois de exames no Instituto Médico Legal, Eike foi transferido para o Presídio Ary Franco. Trata-se de uma instituição reservada a réus sem diploma superior, o que é o caso do ex-magnata.

Presídio, com capacidade para 958 presos, foi construído em 1974 no bairro carioca da Água Santa, e é considerado um dos mais degradados do sistema penitenciário fluminense, com a presença abundante de insetos e ratos.

Mas Eike permaneceu naquelas dependências por apenas duas horas. A pedido de seus advogados, ele foi transferido para o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu. A transferência se deu às 13h30, e ele estava com a cabeça raspada. 

A prisão de Eike teve como pivô o pagamento de propina de US$ 16,5 milhões ao então governador fluminense, Sérgio Cabral, que também está preso e pode ter desviado cerca de US$ 100 milhões.

A investigação é coordenada no Rio pelo juiz federal Marcelo Bretas, responsável pelas operações Calicute e Eficiência, derivações da Lava Jato e com as quais as equipes de Curitiba têm pouquíssimo a ver.

São também os casos de Ricardo Leite e de Vallisney de Souza Oliveira, juízes federais de Brasília que têm em mãos dois dos processos em que Lula é réu.

Em resumo, é tão grande o número de magistrados envolvidos, da primeira instância ao STF, que se torna leviano acreditar na existência de uma suposta “conspiração” contra políticos importantes, que vão de Lula e Dilma ao presidente Michel Temer.

A CONSPIRAÇÃO, SEGUNDO LULA E DILMA

Pois é nessa a tecla em que batem os dois últimos presidentes da República filiados ao Partido dos Trabalhadores.

Lula declarou a sindicalistas, em Brasília (24/01) ter a “convicção” de que “tem dedo estrangeiro nesse negócio de Lava Jato. Tem interesse no pré-sal”.

Na semana anterior, também discursando para sindicalistas em Salvador, ele dissera que pediria a deputados e senadores do PT para que investigassem “informações” de que a Lava Jato fora orientada por interesses norte-americanos, interessados nas imensas reservas da Petrobras.

Tal narrativa inverte tudo aquilo que sabemos ser a verdade. A Petrobras não teria sido vítima da sangria de recursos operada pelos governos petistas.

A estatal seria refém, de acordo com essa espantosa “pós-verdade”, de interesses imperialistas que teriam como agente camuflado o juiz Sérgio Moro e sua equipe.

Quanto a Dilma, a quem poucos procuram para se aconselhar, no Rio e em Porto Alegre, onde ela mantém domicílios, as insinuações foram feitas em Sevilha, na Espanha, onde ela discursou como convidada na terça-feira passada (24/01).

Seu raciocínio: a Lava Jato traz “interesses escusos” ao beneficiar empresas estrangeiras nos contratos mais recentes da Petrobras, já que as empreiteiras tradicionais estão “interditadas” (sic) pelas investigações.

E sem que ninguém conseguisse recolocar os pés dela no chão, Dilma também afirmou que está em curso no Brasil “um golpe dentro do golpe”. O primeiro deles teria sido o impeachment, e o segundo é a tentativa de inviabilizar para 2018 a candidatura presidencial de seu padrinho político.

Obviamente, se Lula não puder concorrer, é porque ele terá sido condenado em segunda instância, num dos cinco processos que responde como réu. É a lei. Mas isso é mero detalhe que prejudicaria o raciocínio tortuoso de Madame.

 

FOTOS: Nelson Jr.(STF), Juliana Coutinho (WIKIMEDIA), Elza Riúza e Renato Araújo (AGÊNCIA BRASIL)