Brasil

As duas ambições que devoram internamente o PSDB


Aécio e seu grupo querem mais ministérios e uma aproximação maior com o governo. Já Alckmin, de olho na presidência em 2018, teme que o partido afunde com Temer


  Por João Batista Natali 21 de Dezembro de 2016 às 13:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Nestas festas de fim de ano estão borbulhando projetos contraditórios na cabeça dos tucanos. O PSDB quer voltar ao poder. Mas duas correntes tucanas já têm dado silenciosas trombadas.

A primeira é liderada pelo senador Aécio Neves (MG). A segunda, pelo governador Geraldo Alckmin (SP).

O ministro das Relações Exteriores José Serra seria um terceiro polo dessa confusão. Mas ele está circunstancialmente aliado a Aécio.

Os três têm dois atributos em comum. Foram todos derrotados no segundo turno por candidatos presidenciais do Partido dos Trabalhadores. Serra perdeu para Lula (2002) e para Dilma (2010). Alckmin, para Lula (2006), e Aécio, para Dilma (2014).

O segundo atributo é mais delicado. Todos estão citados na Lava Jato. Difícil saber se algum ou todos eles sobreviverão à maré de apurações que eles, com foro privilegiado, são objeto na Polícia Federal e na Procuradoria Geral da República.

A regra do jogo consiste, no entanto, em fazer de conta que seus advogados têm toda a razão, ao argumentarem que receberam das empreiteiras apenas doações legais e registradas pela Justiça Eleitoral. É o wishful thinking também comum a dirigentes dos demais partidos.

PRIMEIRO CONFRONTO, A EXECUTIVA NACIONAL

No primeiro grande confronto pela candidatura presidencial tucana em 2018 o senador Aécio Neves saiu na dianteira. Na última quinta-feira (15/12), a Executiva Nacional do partido estendeu até maio de 2018 seu mandato como presidente nacional.

De certo modo, o senador mineiro atropelou os estatutos do partido que previam essa discussão para 2017. A decisão da executiva, por 29 votos a dois, refletiu a correlação de força amplamente favorável a Aécio.

Ele obteve o apoio de 22 diretórios regionais (dos Estados) e foi vetado apenas por dois deputados, Sílvio Torres e Eduardo Cury, ambos da bancada federal paulista.

O argumento utilizado pelo circunstancialmente aecista José Serra até fazia sentido. O ano de 2017 será marcado por votações delicadas das reformas que entrarão na pauta no Congresso, e o PSDB se enfraqueceria caso entrasse dividido nessas discussões.

O aval para que a manobra fosse bem-sucedida foi dado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele e Alckmin estão se estranhando desde as primárias para a escolha de João Doriacomo candidato à Prefeitura de São Paulo.

Pessoas próximas a Serra e a FHC se afastaram do hoje prefeito eleito paulistano – o caso mais eloquente foi o de Andréa Matarazzo, que deixou o partido e acabou como vice de Marta – e mal se empenharam na campanha eleitoral dele.

POSSÍVEL DEBANDADA DOS “ALCKMISTAS”

De olho em 2018, Alckmin tem duas alternativas. A primeira consiste em acreditar que ele sairá incólume da Lava Jato e reunificará o partido em torno de seu nome.

A segunda alternativa consiste em deixar o PSDB e se alojar no PSB, partido do vice-governador paulista e seu aliado, Márcio França.

A operação traslado partidário já começou com uma guerra de nervos, pela qual pessoas próximas de Alckmin afirmam que o governador desossaria o PSDB em São Paulo.

Levantamento entregue à Folha de S. Paulo na última segunda-feira (19/12) indica, sem que se possa apurar a consistência da informação, que nove prefeitos tucanos de grandes municípios deixariam o partido em companhia do governador, entre eles os de Santos, São José dos Campos e Ribeirão Preto.

O estrago no plano parlamentar seria ainda mais violento, pois acompanhariam Alckmin 21 dos 22 deputados estaduais e 10 dos 14 federais.

O embate entre os dois grupos também tem como pivô a relação com Michel Temer. Alckmin acredita que o apoio do PSDB ao governo deve ser apenas formal, o que evitaria maior desgaste em caso de naufrágio ainda maior da popularidade e da reputação do presidente.

Aécio e Serra, no entanto, querem mais espaço no governo para que o partido dê ao Planalto uma consistência doutrinária que os tucanos acreditam inexistir no PMDB.

Os tucanos já ocupam três ministérios: Cidades, com Bruno Araújo, Justiça, com Alexandre de Moraes, e Itamaraty, com José Serra. A ideia mais ambiciosa consistiria, além de Antonio Imbassay para a Secretaria de Governo (que foi ocupada pelo peemedebista de triste memória Geddel Vieira Lima), também os ministérios do Planejamento e Saúde.

Em bom português, o plano dessa facção dos tucanos consistiria em “emparedar” Michel Temer, criando em Brasília uma espécie de “governo dentro do governo”, com as máquinas administrativas e as dotações orçamentárias que viriam a reboque.

A vantagem, argumentam alguns, não se restringiria apenas ao plano tucano de em breve voltar à Presidência da República. Esse monte de ministros plumados daria a Temer o poder de barganhar em situação de força com o centrão, ou Centro Democrático em sua certidão de batismo, que é o conjunto de pequenas bancadas mais afeitas ao fisiologismo.

Como pano de fundo, essa aliança contaria com o acordo um tanto irônico do próprio FHC, aquele que qualificou de “pinguela” um governo que verbalmente se definia há um ano com a expressão bem mais ambiciosa de “ponte para o futuro”.

Qualquer prospecção quanto aos vencedores desse confronto não depende apenas da força e do capital político de seus integrantes. A variável que nenhum deles controla é justamente outra, e se chama Lava Jato.

FOTOS: Valter Campanato; Fábio Rodrigues Pozzebom; Antônio Cruz/Agência Brasil





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