Brasil

Apelo ao voto útil e desespero eleitoral


Com quatro candidatos em empate técnico e chances de irem ao segundo turno (Alckmin, Ciro, Marina e Haddad), prevalece nas campanhas esse apelo já no primeiro turno


  Por João Batista Natali 14 de Setembro de 2018 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A grande novidade na campanha presidencial brasileira está no repentino apelo ao voto útil dos eleitores. E isso já no primeiro turno.

O exemplo mais evidente dessa forma de fazer campanha está na pregação de Geraldo Alckmin (PSDB). Ele não tenta apenas convencer as pessoas a votarem nele.

Mas diz também que, se elas votarem em Jair Bolsonaro (PSL), estarão percorrendo o caminho mais curto para favorecer uma vitória eleitoral do PT.

Isso porque Bolsonaro tenderia, no segundo turno, a ser derrotado pelo petista Fernando Haddad. O recado explícito da campanha está no apelo para que, em lugar do capitão reformado, o eleitor vote desde já no candidato tucano.

A lógica tradicional nas eleições consistia em votar útil só no turno final. Ou seja, votar em alguém com quem não estamos necessariamente de acordo, como forma de derrotar o outro finalista com o qual rejeitamos de maneira mais categórica.

O apelo mais precoce ao voto útil tem hoje como pano de fundo a existência de um concorrente em posição confortável do primeiro lugar, que é Bolsonaro, e, em seguida, de um pelotão de quatro candidatos em condição de empate técnico.

A exortação ao voto útil consistiria, então, em procurar se destacar desse grupo para se tornar, no segundo turno, o adversário do capitão da reserva.

HISTÓRIA DO SEGUNDO TURNO

Eleições em dois turnos é algo relativamente recente na história mundial das disputas eleitorais. Elas foram instituídas pela primeira vez na França, com a Constituição de 4 de outubro de 1958.

Vejamos o contexto. A Quarta República (1945-1958) produziu entre os franceses um sistema instável e volátil, com gabinetes que caíam com frequência indesejada. Era o resultado do Parlamentarismo, dentro do qual nenhum partido ou grupo político tinha uma sólida maioria.

O enfraquecimento institucional do Executivo desembocou em duas guerras coloniais (Indochina e Argélia), ambas perdidas pela França. Com a agravante de a segunda delas, a argelina, ter também enfraquecido as Forças Armadas, com tentativas de golpe de Estado.

Foi então que a presidência da República foi entregue ao general Charles De Gaulle (1890-1970), que exigiu no ano seguinte eleições diretas em dois turnos para que, com a maioria de 50% do eleitorado, tivesse mais legitimidade para pôr fim à guerra e recolocar o país na normalidade.

O sistema eleitoral da Quinta República também fixou o critério de escrutínio nominal em dois turnos para os distritos que elegeriam seus deputados. Ou seja, cada parlamentar também teria a legitimidade de metade mais um dos eleitores.

No Brasil, não eram eleitos presidentes com a maioria absoluta dos votos. Quem chegou mais perto foi Getúlio Vargas, em 1950, com 48,7%. Em 1960, Jânio Quadros quase obteve uma percentagem tão elevada, com 48,2%. Mas, em 1955, Juscelino Kubitschek foi eleito com 35,7%.

A ideia de que apenas uma eleição em dois turnos daria legitimidade ao presidente se institucionalizou apenas com a Constituição de 1988. E no ano seguinte, Lula e Collor se enfrentaram no turno final, com a vitória do ex-governador de Alagoas.

O FOGO CRUZADO DE 2018

Geraldo Alckmin é agora o mais explícito em sua pregação pelo voto útil. Além de tentar avançar no terreno eleitoral de Bolsonaro, por meio da ameaça de uma vitória do PT, seus assessores procuram esvaziar as poucas intenções de voto de Álvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB) e João Amoêdo (Novo), que por enquanto não demonstram fôlego para chegar ao segundo turno.

Mas a mesma lógica do voto útil se incorporou às demais campanhas. São cálculos eleitorais feitos a partir das duas últimas pesquisas do Ibope e do Datafolha.

Ciro Gomes (PDT) quer impedir o crescimento de Fernando Haddad (PT). Coloca-se como alternativa para derrotar no segundo turno Jair Bolsonaro e, para tanto, afirma que o candidato petista seria a reedição de Dilma Rousseff.

Marina Silva (Rede), por fim, afirma que a polarização entre PT e PSDB se tornou fonte de corrupção e relações precárias entre o Planalto e o Congresso. Ela por isso se coloca como alternativa a quem pretende votar em Alckmin ou Haddad.

Ela também argumenta, a exemplo de Ciro, que Haddad é um “indicado”, sem luz própria, e por isso se assemelha à presidente que sofreu impeachment em 2016.

A candidata da Rede talvez seja a única, por enquanto, sem cacife para levar adiante seu raciocínio. As pesquisas demonstram uma queda em suas intenções de voto.

Em resumo, a antecipação para o primeiro turno do voto útil quebra o princípio básico desse sistema, que procura eleger governantes com mais de 50% do eleitorado.

Se funcionasse como já ocorreu por aqui, no primeiro turno se votaria no candidato que se pretende eleger. Mas se esse candidato não estiver entre os dois classificados para o turno final, então se vota no candidato menos ruim para derrotar aquele que consideramos péssimo.

IMAGEM: Thinkstock