Brasil

Alckmin e Meirelles tentam ocupar o espaço liberal na briga pela Presidência


Com a desistência de Luciano Huck, o campo liberal está aberto à disputa entre o governador paulista e o ministro da Fazenda. Mas nenhum dos dois ainda demonstra densidade eleitoral para chegar ao Planalto


  Por João Batista Natali 29 de Novembro de 2017 às 13:44

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Depois da retirada da pré-candidatura de Luciano Huck, na segunda-feira (27/11), agravou-se o vazio de nomes liberais e de centro na disputa pela Presidência da República, em outubro de 2018.

Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles, dois candidatos de bom peso biográfico. Mas por enquanto anêmicos em termos de intenção de votos. O governador de São Paulo tem 8%, e o ministro da Fazenda, 2%, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, do início de outubro.

Ambos têm um longo caminho para se viabilizarem, num cálculo que, por enquanto, descarta a candidatura do prefeito paulistano João Doria. Mas é um longo caminho bem acidentado.

A questão é importante para se afastar o cenário da extrema polarização, que prevê um segundo turno entre o ex-presidente Lula (PT) e o deputado Jair Bolsonaro (PSD). Eles por enquanto encabeçam as intenções de voto.

Vejamos o caso do governador. Além da desistência de Huck, que teoricamente abriu um espaço que ele pode ocupar, ele tem também, a partir de agora, a máquina do PSDB em suas mãos. Será o presidente nacional dos tucanos a partir da Convenção do início de dezembro.

Mas é uma máquina com a antiga energia afetada por um personagem externo, o presidente Michel Temer, e pelos estragos provocados pelo senador Aécio Neves, desde as gravações divulgadas em maio passado e que o comprometem com o esquema de suborno da JBS.

O senador mineiro se aliou ao presidente para que ambos escapassem da Lava Jato com o apoio do Congresso.

Temer já o fez, ao conseguir na Câmara dos Deputados uma segunda votação que afasta a interrupção de seu mandato para ser julgado pelo STF. Aécio ainda espera que seu caso seja analisado pela Comissão de Ética do Senado, onde o PMDB próximo do Planalto promete ajudá-lo a se safar.

DIVISÃO TUCANA ENFRAQUECE ALCKMIN

Mas essa movimentação feriu gravemente a unidade da cúpula tucana. E a questão que se coloca é se os 46 deputados federais do PSDB estão ou não ao lado do projeto presidencial de Reforma da Previdência. A respeito, os prognósticos são ruins. Apenas 25 a 30 dos deputados votariam com o governo.

Alckmin não teria fôlego para mudar essa previsão, por mais que a questão previdenciária seja uma velha bandeira de seu partido.

No fundo, os deputados tucanos acreditam que fortalecer Temer equivaleria a apoiar o plano de impunidade que também beneficiaria Aécio, hoje proprietário de uma biografia manchada e que uma parcela do partido não tem força ou disposição para carregar.

O PSDB dividido tira por enquanto de Alckmin o cacife necessário para se apresentar à sociedade como a opção moderada que desviaria o país da rota da radicalização, hoje representada pelo binômio Lula/Bolsonaro.

Nesse jogo, tornam-se personagens secundários o senador Tasso Jereissati (CE), que se movimenta para que o partido se afaste do presidente da República, ou o governador Marcondes Perillo (GO), que atua em sentido inverso.

E nenhum desse conjunto de personagens "de alta plumagem" - como eram antigamente designados os dirigentes do PSDB -teve a oportunidade de consultar "sua excelência o eleitor", que hoje está certamente afastado dessas disputas de alta indigência política e baixa aspiração democrática.

O fato é que as acusações contra Aécio contaminaram a previsão de que o PSDB caminhava para um roteiro eleitoralmente glorioso, esboçado pelas eleições municipais de 2016, quando o partido cresceu em 15% no número de prefeituras, e bem mais que isso na importância do eleitorado conquistado, e relegou o PT à mais amarga derrota desde que o petismo surgiu no cenário eleitoral em 1980.

É claro que Alckmin e sua equipe de assessores esperam que as dificuldades possam ser superadas e que o governador, já derrotado em 2010 por Dilma Rousseff em seu projeto de chegar ao Planalto, se transforme em alternativa do mercado e do eleitorado que apoia a moderação.

O VOO CURTO DE MEIRELLES

O ministro da Fazenda, por sua vez, percebeu que para decolar na disputa presidencial não bastava acumular, como combustível, o apoio de setores evangélicos, que tem frequentado com insistência, ou a muleta do PSD, o partido ao qual se filiou e que não está convencido de tê-lo na efetiva liderança.

A Folha de S. Paulo publica nesta quarta-feira (29/11) que Meirelles lançou discretamente uma operação destinada a atrair o apoio de Temer e de Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados.

Por trás de ambos estariam as máquinas eleitorais do PMDB e do DEM. O que significa uma multidão de governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores mais ou menos unidos em torno do ministro da Fazenda.

O roteiro é por enquanto um frágil embrião. Ninguém garante que peemedebistas e democratas se disponham a pisar numa embarcação ainda incapaz de atingir dois dígitos nas intenções de voto. Longe disso.

E que se unam em torno de um homem de extrema competência na gestão da economia, mas que não possui o carisma dos palanques para atrair eleitores com menor escolaridade e que votam por ímpetos emocionais.

Paradoxalmente, o ainda frágil Henrique Meirelles tenta se apropriar de um terreno relativamente virgem, em razão da não aparição de alternativas que seriam, por exemplo, semelhantes ao pequeno e simpático Partido Novo, de João Almoêdo. Sem contar com incógnitas incertas, como o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa.

O ministro da Fazenda tem uma característica rara. As suposições contra ele simplesmente não prosperam.

Poderia estar sendo acusado de cúmplice indireto de Lula, mas ninguém evoca os oito anos em que foi presidente do Banco Central sob as asas do petista. E tampouco o associam à J&F, na qual foi por dois anos presidente do conselho de administração.

O problema é saber se tais associações não pegam porque ele tem uma forte reputação de honestidade, ou então porque seu peso eleitoral é tão pequenininho que não vale a pena se incomodar com figurantes menores.

Em resumo, Alckmin e Meirelles já se lançaram em campo para a atração dos peemedebistas, dos democratas e de outros partidos de centro-direita que tragam consigo preciosos minuto de horário eleitoral gratuíto.

O jogo ainda não foi feito. Mas por enquanto os liberais não têm garantias de que entrarão na disputa presidencial com chances de ganhar.

FOTO: Ascom/Divulgação