Brasil

Alckmin critica Bolsonaro por ameaça à imprensa


"Os ataques feitos pelo futuro presidente à Folha de S Paulo representam um acinte a toda a imprensa", disse o ex-governador tucano


  Por Estadão Conteúdo 30 de Outubro de 2018 às 17:15

  | Agência de notícias do Grupo Estado


O presidente do PSDB, Geraldo Alckmin, criticou nesta segunda-feira (29/10), o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) após ele dizer ao Jornal Nacional, da TV Globo, que pretende tirar recursos do governo federal de veículos de imprensa que se comportarem de maneira "indigna" como é supostamente o caso, segundo Bolsonaro, do jornal Folha de S.Paulo.

Na primeira manifestação de Alckmin desde o primeiro turno da eleição, no qual o tucano terminou em quarto lugar, com 4,76% dos votos, o ex-governador disse que Bolsonaro começou mal. 

"A defesa da liberdade ficou no discurso de ontem (domingo). Os ataques feitos hoje pelo futuro presidente à Folha de S Paulo representam um acinte a toda a imprensa e a ameaça de cooptar veículos de comunicação pela oferta de dinheiro público é uma ofensa à moralidade e ao jornalismo nacional", disse Alckmin em sua conta no Facebook.

Ao JN, Bolsonaro prometeu respeitar a liberdade de imprensa, mas disse que o repasse de verbas de anúncios da União é uma coisa diferente.
 
"Sou totalmente favorável à liberdade de imprensa, mas temos a questão da propaganda oficial de governo, que é outra coisa", disse. "Não quero que (a Folha) acabe. Mas, no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal. Por si só esse jornal se acabou."

Para o presidente do PSDB, as declarações de Bolsonaro sinalizam que o presidente eleito pretende substituir a liberdade de imprensa pelo clientelismo de imprensa.
 
"Alguns fazem críticas aos seus críticos porque não conhecem seus próprios limites. O futuro presidente vai ter de conviver e de respeitar todos e, em especial, os que a ele dirijam críticas", disse.

Alckmin não divulgou voto no segundo turno, e o PSDB manteve-se neutro na eleição. Seu afilhado político, João Doria, eleito governador de São Paulo, aderiu com afinco a campanha do candidato do PSL.
 
No discurso da vitória, o ex-prefeito de São Paulo elogiou Bolsonaro e disse que "o meu PSDB tem lado".
 
LEIA MAIS: A importância da imprensa livre  
 
ENTIDADES CONDENAM
 
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) criticaram nesta terça-feira, 30, as declarações dadas pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, do PSL, sobre o jornal Folha de S. Paulo.

"É preocupante que o presidente eleito tenha manifestado a intenção de usar verbas publicitárias oficiais como forma de punição a um jornal por discordar de seu noticiário", disse o presidente da ANJ, Marcelo Rech. "Os investimentos do governo em publicidade, como qualquer outra verba pública, devem seguir sempre critérios técnicos, e não políticos ou partidários".

A Abraji disse receber com apreensão as declarações dadas por Bolsonaro a respeito da imprensa nos últimos dois dias. "O respeito à Constituição - à qual o presidente fará um juramento solene de obediência no dia 1º de janeiro de 2019 - não é pleno quando a imprensa se converte em objeto de ataques e de ameaças", afirmou a entidade em nota.
 
"Fiscalizar o poder público - e em particular as ações do presidente da República - sempre foi e seguirá sendo uma função inerente ao jornalismo, exercida em nome do interesse público. Zelar por essa função é missão primordial da Abraji, assim como deve ser objeto de zelo de todo governo democrático."

O presidente eleito contestou reportagens da Folha, publicadas em janeiro e em agosto, que mostrou que uma assessora parlamentar, identificada como Walderice dos Santos da Conceição, vendia açaí e prestava serviços particulares ao deputado em Angra dos Reis, no Rio, onde ele tem casa de praia.

Em agosto, o Ministério Público abriu os primeiros procedimentos para analisar se oferece denúncia contra Bolsonaro. A notícia de fato, como é chamada, partiu de uma denúncia anônima. O procurador responsável pelo caso é João Gabriel Morais de Queiroz.