Brasil

Ai, que susto! Campanha eleitoral começa nervosa


Boatos sobre Alckmin derrubaram o Bovespa na terça, enquanto Bolsonaro tenta apagar o incêndio verbal provocado por seu vice


  Por João Batista Natali 08 de Agosto de 2018 às 15:50

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A campanha presidencial começa apenas no próximo dia 16, e na televisão, no dia 31. Mas já se espalha no ar uma densa nuvem de nervosismo.

Nesta terça-feira (7/8), correram rumores catastróficos para o campo liberal. Circulavam, bem distorcidos, os resultados de uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) ao instituto MDA.

A pesquisa saiu na quarta, e –embora circunscrita ao Estado de São Paulo –não trazia nada de mais.

Jair Bolsonaro (PSL), com 18,9%, e Geraldo Alckmin (15%) estão tecnicamente empatados, deixando para trás Marina Silva (Rede), com 8,4%, e Fernando Haddad (PT), com 8,3%.

E isso apenas no eleitorado paulista, sem nenhuma projeção nacional.

Outros boatos davam conta que Laurence Casagrande Lourenço, ex-secretário dos Transportes de Alckmin, e que está preso, decidira fazer delação premiada. A informação foi prontamente desmentida pelos advogados dele.

Mas o pânico, com efeito manada no mercado, derrubou o Bovespa em 1,2% (recuperou-se ligeiramente depois), e o dólar subiu 0,93%.

Pesquisas internas do PSDB indicam que o partido será certamente finalista para o segundo turno de 28 de outubro, e que as intenções de voto, antes da propaganda no rádio e TV, fornecem um retrato imperfeito do que acabará saindo do primeiro turno.

Alckmin é um homem cauteloso, e por enquanto não caiu em nenhuma das armadilhas que lhe foram montadas.

Enganou-se quanto ao prenome da mulher de Luciano Huck, gafe só comentada por simpatizantes do PT nas redes sociais, e evitou um conflito barulhento com a burocracia universitária – defendeu que os cursos de pós-graduação fossem pagos, mas em seguida recuou.

DE BOLSONARO A HADDAD

O clima anda bem mais tenso no entourage de Jair Bolsonaro. Não tanto pelo candidato, mas por seu vice, o general da reserva Hamilton Mourão, que declarou, em cerimônia pública, que o Brasil herdou a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos.

Com uma simples frase, o militar detonou duas minorias – o culturalismo que ele exprime não faz mais o menor sentido, depois dos estudos de Gilberto Freire – e ainda colocou em estado de alerta outros grupos que temem cair na mesma berlinda.

As feministas e a comunidade LGBT não são eleitores do ex-capitão do Exército, mas têm um invejável poder de fogo verbal, numa época em que a postura identitária (pertencer a determinada minoria) substituiu, na política, o tradicional apego à ideologia, que caracterizava os partidos até o final da Guerra Fria.

Bolsonaro tentou consertar o estrago de seu vice. Disse em Brasília a um grupo de repórteres, que “indolência” é a característica de quem sabe perdoar.

O que não é em absoluto verdade. Além de enfrentar as esquerdas e a social democracia, ele também entra em conflito com a semântica da língua portuguesa.

No campo de Fernando Haddad, as tensões são bem outras. Há em primeiro lugar a dificuldade de convencer o eleitor e o Judiciário que o PT concorre com uma espécie de tríplex eleitoral: Lula, vetado pela Ficha Limpa, o próprio Haddad e sua futura candidata a vice, Manuela d´Ávila (PC do B).

É uma construção que não para em pé. Quem é que representará o partido no primeiro debate entre os candidatos, nesta quinta (9/9) na Rede Bandeirantes? Com certeza, ninguém, se for para levar em conta o Tribunal Regional Federal de Porto Alegre e os demais concorrentes.

O eleitor também fica confuso. Lula, esse personagem que os petistas julgam infalível, quer que seu nome continue exposto, apesar de sua condição de presidiário nas dependências da Polícia Federal, em Curitiba.

Isso é útil para seus advogados, para os quais a manutenção da ambiguidade acoberta planos de defesa de difícil execução.

Mas o leitor de menor escolaridade nos rincões do Nordeste ficará às tontas, quando, na manhã de 7 de outubro, ver-se diante da urna eletrônica, e o retrato do ex-presidente não aparecer depois que ele teclar o número 13.

É um problema que o PT não conseguirá resolver com facilidade, sobretudo porque a manutenção do faz-de-conta possui, como pano de fundo, o fato de Lula não querer, de forma alguma. “entregar o osso”. Ou seja, passar adiante o comando de seu partido.

BOULOS E MARINA

Em meio a esse nó, Ciro Gomes (PDT) se prepara para uma campanha oficial bastante debilitado –Lula tirou dele o PSB, com o qual pretendia se aliar e que lhe daria mais tempo de TV-, enquanto Guilherme Boulos (Psol) se preocupa.

Ele sabe que uma chapa Haddad-Manuela, além de fotogênica, tiraria parte das bases de universitários de esquerda que ele pretendia manter em seu quintal.

Por via das dúvidas, então, ele começou a atacar o PT por suas alianças, em 16 Estados, com “golpistas” que trabalharam, em 2016, pelo impeachment de Dilma.

A única candidata de maior histórico que não demonstra nervosismo é Marina Silva. É bem provável que ela esteja conformada com o desempenho pífio que terá desta vez, em razão de seus menos de 15 segundos em cada horário eleitoral da televisão.

Seu grupo da Rede evidentemente exagera sobre a capacidade de mobilização da internet, para onde ela pretende transferir parte de sua campanha.

Nada, no entanto, permite que ela projete a repetição do cenário que a beneficiou em 2914, quando, então pelo PSB, ela chegou a liderar as pesquisas e foi abatida em pleno voo pela campanha caluniosa e imoral da petista Dilma Rousseff.

 

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