Brasil

Agora é oficial. Finalmente Lula caiu nas redes da Lava Jato


Ministério Público denunciou ex-presidente nesta quarta (14/09) por corrupção e lavagem de dinheiro. O apartamento do Guarujá não passaria de propina em troca de contratos com a Petrobras


  Por João Batista Natali 14 de Setembro de 2016 às 14:34

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Em definitivo, esta quarta-feira (14/09) foi um péssimo dia para Luís Inácio Lula da Silva. O ex-presidente foi indiciado, em Curitiba, pelo Ministério Público Federal por corrupção e lavagem de dinheiro na reforma do tríplex do Guarujá.

Se a denúncia for aceita pelo juiz Sérgio Moro, Lula se tornará réu, o que seria o primeiro passo para sua condenação à provável pena de prisão, o que o transformaria no maior e mais conhecido personagem da operação Lava Jato.

A gravidade política do episódio levou Lula a reunir no final da manhã, em São Paulo, o conselho político do Partido dos Trabalhadores. Os advogados do ex-presidente reiteradamente afirmam que ele não é proprietário do imóvel e que, no passado, teve apenas uma opção de compra da qual abriu mão no ano passado.

Na mesma denúncia do MPF desta quarta Lula foi denunciado por ter aceito que a empreiteira OAS, uma das mais envolvidas em corrupção da Petrobras, pagasse pelo armazenamento da mudança que ele trouxe de Brasília, ao deixar a Presidência da República, em 2011.

O espaço de guarda-móveis da empresa Granero já teria custado R$ 1,3 milhão.

O tríplex e o armazenamento já haviam sido objeto de indiciamento de Lula, em agosto último, pela Polícia Federal. Mas não é a polícia que oferece a denúncia ao juiz. Quem o faz são os promotores, o que está agora oficializado.

O imóvel do Guarujá, no edifício Solares, foi construído pela Bancoop, cooperativa habitacional dos bancários, cujo presidente foi João Vaccari Neto, que depois se tornou tesoureiro do PT e está preso desde o primeiro semestre de 2015, condenado a 27 anos de prisão.

LEIA MAIS: Lula foi o "comandante máximo" da corrupção, diz procurador

Quando a cooperativa entrou em situação pré-falimentar, a conclusão do imóvel foi entregue à OAS, que dotou o apartamento de Lula de um elevador privativo, fez benfeitorias que a Polícia Federal avaliou em R$ 777 mil e ainda comprou por R$ 320 mil um luxuoso equipamento de cozinha.

A obra foi supervisionada pelo engenheiro Paulo Gordilho, dos quadros da OAS. Por sua vez, ao menos numa oportunidade o então presidente da empreiteira, Leo Pinheiro, esteve no local em companhia de Lula e de sua mulher.

Em 4 de março, quando foi objeto de condução coercitiva para depor, Lula afirmou não conhecer Gordilho. Mas vídeos captados com celular provaram que o ex-presidente e o engenheiro estiveram juntos no apartamento, e troca de e-mails acertavam detalhes sobre a reforma e o acabamento com os familiares dele.

Quanto a Leo Pinheiro, em sua primeira delação premiada – anulada em seguida pela Procuradoria Geral da República – ele afirma ter discutido com Vaccari sobre o estatuto das despesas que seriam feitas no imóvel do Guarujá, e obtido a concordância para que o dinheiro fosse descontado da propina que a OAS estava pagando por seus contratos fraudulentos com a Petrobras.

Vaccari não apenas concordou com o acerto, como também, por insistência de Pinheiro, respondeu que Lula estava ciente da operação.

OUTRAS INVESTIGAÇÕES

Lula também é objeto de um outro inquérito apurado em Curitiba, sobre o sítio no município de Atibaia (SP), que foi frequentado por ele e por sua família e que ele insiste em afirmar que não é proprietário.

O imóvel foi ampliado pela OAS e por outra empreiteira, a Odebrecht, com a ajuda de José Carlos Bumlai, que está preso pela Lava Jato.

Um terceiro processo, que não corre em Curitiba, mas sim na Justiça Federal de Brasília, tem Lula como indiciado por obstrução de Justiça.

O ex-presidente e Bumlai são suspeitos de terem procurado comprar o silêncio de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras que acabou fazendo delação premiada, com informações altamente esclarecedoras sobre as ligações do núcleo político do Planalto com a corrupção na estatal.

Por enquanto, como foco paralelo de preocupações, o ex-presidente aguarda a conclusão da delação de Marcelo Odebrecht e dos 60 executivos da empreiteira que comandava. O empresário está preso desde junho de 2015, e na semana passada Emilio Odebrecht, pai dele e mentor da empresa, esteve longamente com Sérgio Moro.

A Odebrecht já foi a fornecedora da Petrobras mais próxima de Lula. Ele teria obtido para ela contratos no exterior, trazendo na manga da camisa a possibilidade de financiá-los pelo BNDES, e isso quando ele não era mais presidente da República.

A Odebrecht também encomendou a Lula conferências pelas quais o ex-presidente foi remunerado em R$ 17 milhões. Não há provas de que essas conferências tenham todas ocorrido, o que caracterizaria a existência de suborno.

Por três ocasiões, Lula recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) para que as investigações fossem retiradas de Curitiba e caíssem em mãos de um juiz que não fosse Sergio Moro.

O argumento era de que imóveis como o apartamento do Guarujá e o sítio de Atibaia não estavam na alçada geográfica do Paraná. Mas, por três vezes, o recurso foi negado pelo ministro Teori Zavascki, que ainda acusou o hoje indiciado de procurar conturbar o processo.

O ministro acredita que, por envolver corrupção na Petrobras, Lula continuará a ser investigado e julgado em Curitiba, onde as demais investigações estão centradas.

Advogados do ex-presidente e dirigentes do PT também recorreram à Comissão de Direitos Humanos da ONU, sob o argumento de que Sérgio Moro atuava com parcialidade e de forma persecutória. O organismo internacional não se manifestou.

FOTO: Agência Brasil






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