Brasil

ACSP reverencia os heróis de 1932 e faz homenagens


Lázaro de Mello Brandão, presidente da Fundação Bradesco (com Alfredo Cotait Neto, presidente da entidade) recebeu o colar Carlos de Souza Nazareth; o jornal O Estado de S.Paulo, também homenageado, foi representado por seu diretor-presidente, Francisco Mesquita Neto


  Por Redação DC 05 de Julho de 2019 às 14:13

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


Foram três meses de batalhas e mobilizações populares, mas o evento mudou – e marcou – a história de São Paulo.

No dia 9 de julho de 1932, teve início a Revolução Constitucionalista, um movimento armado capitaneado pelo estado de São Paulo que tinha o objetivo de derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte.

Para saudar a memória dos protagonistas dessa história, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) realiza anualmente a cerimônia de outorga do colar batizado com o nome de Carlos de Souza Nazareth, que presidia a entidade.

Organizado pelo Comitê de Civismo e Cidadania da ACSP desde 2002, a cerimônia celebra o aniversário da Revolução e presta homenagem a pessoas e instituições que, por seus relevantes serviços à sociedade, tornaram-se dignas de reconhecimento.

 

Nesta quinta-feira (04/07), aconteceu a 17ª entrega da honraria. Desta vez, os homenageados foram a Fundação Bradesco, representada por seu presidente Lázaro de Mello Brandão, o jornal O Estado de S.Paulo, por seu diretor-presidente Francisco Mesquita Neto, e o coronel Luiz Eduardo Pesce de Arruda, membro do Comitê de Civismo e Cidadania da ACSP.

ARRUDA COM ANA CLAUDIA BADRA, DO CONSELHO DA MULHER EMPREENDEDORA

“Essa é uma data que nós, paulistas, temos o desejo de comemorar”, disse Alfredo Cotait Neto, presidente da ACSP, durante a cerimônia na sede da entidade. “A ACSP foi protagonista na revolução, apoiando o movimento em logística e mobilização popular”.

Em 1932, sob a presidência de Carlos de Souza Nazareth, a ACSP participou das tentativas de diálogo com o governo federal ao lado de outras lideranças, reivindicando respeito a São Paulo e à autonomia do estado – o que vinha sendo negado pelo então presidente Getúlio Vargas, que revogou a Constituição e centralizou a administração política e econômica do País.

Quando ficou evidente que não havia possibilidade de acordo, a Associação, acompanhando o sentimento geral da população paulista, engajou-se na campanha pela defesa de uma constituinte imediata, que culminou na deflagração da revolução.

A entidade assumiu funções de suporte ao movimento: cuidou das finanças, da intendência e do abastecimento, colaborou para o alistamento e ajudou na captação e distribuição de donativos. Fez também a campanha "Ouro para o bem de SP", cujos recursos remanescentes foram doados à Santa Casa de Misericórdia.

Para Samir Nakle Khoury, coordenador do Comitê de Civismo e Cidadania, a outorga do colar é um resgate de um marco da nossa democracia. “Também promove a justiça aos 2 mil patriotas que lutaram por ideias nobres”, disse Khoury.

OS HOMENAGEADOS

Nascido em 1926, Lazaro Brandão, presidente da Fundação Bradesco, ainda era um infante quando ocorreram os primeiros disparos das carabinas paulistas na revolução.

Aos 16 anos, começou a trabalhar na Casa Bancária Almeida & Nogueira, instituição que deu origem ao Banco Brasileiro de Descontos S.A. que, posteriormente, teve a razão social alterada para a popular Banco Bradesco.

Na sua carteira de trabalho, há o primeiro registro formal, datado em 1º de setembro de 1942, com a modesta função de escriturário.

Economista e administrador de empresas, Brandão passou por diversas posições no banco fundado por Amador Aguiar.

Em 1963, se tornou diretor do Bradesco. 14 anos depois, chegou a vice-presidência. Em 1981, recebeu o bastão das mãos do próprio Aguiar e assumiu a presidência executiva do banco – a partir de 1990, também passou a comandar Conselho de Administração do Bradesco.

Desde 2017, Brandão não é mais executivo do banco – seu lugar foi ocupado por Luiz Carlos Trabuco -, mas se manteve na presidência da Fundação Bradesco. A entidade promove a inclusão e o desenvolvimento social e oferece educação gratuita a milhares de pessoas. A fundação possui 40 escolas e já atendeu mais de 94 mil alunos.

“A honraria da ACSP complementa a conduta da Fundação Bradesco, que é ser solidária e dar uma grande contribuição para a educação, o que implica não só somar e dividir, mas também a integração espiritual, de comportamento e de ética”, disse Brandão.

Durante a entrega ao colar para Brandão, Cotait Neto lembrou que a ACSP e o banco são parceiros de longa data. Uma das primeiras agências do Bradesco foi na Rua Alvares Penteado, bem próxima a sede da ACSP. Na época, Brandão costumava ir à Associação para tomar café com os seus diretores.

Francisco Mesquita é neto de Júlio de Mesquita Filho, o editor à frente do jornal O Estado De São Paulo durante a Revolução Constitucionalista.

MESQUITA NETO: "UMA IRMANDADE BASEADA EM VALORES"

Ele foi um dos homens que ocuparam a linha de frente na exigência de uma nova Constituição para o Brasil. Com a derrota de São Paulo, Mesquita Filho foi exilado do país por ordem de Getúlio Vargas. Em sua viagem rumo ao exilio, compartilhou o mesmo trem com Carlos de Souza Nazareth, também deportado por Vargas.

“O Estado de São Paulo e a ACSP possuem uma irmandade baseada em valores, principalmente a defesa da democracia e da livre iniciativa”, disse Mesquita Neto, que recebeu o colar das mãos de Samir Nakle Khoury, coordenador do Comitê de Civismo e Cidadania.

De acordo com Mesquita Neto, o ano de 1932 foi um marco. “Podemos ter sido derrotados na guerra, mas vencemos na moral”, disse ele.  

Por fim, o colar foi entregue ao Coronel Luiz Eduardo Pesce de Arruda. O militar é um grande entusiasta em preservar viva a memória de 1932. Ele é especializado na história da Revolução Constitucionalista e realiza palestra narrando os feitos dos combatentes paulistas.

Arruda lembrou do papel das mulheres na revolução, que doaram alianças de ouro para ajudar nos custos dos combates, costuraram fardas e, quatro delas, atuaram no front.

O caso mais conhecido é da Maria Soldado, que atuou lado a lado dos homens no campo de batalha. Anos mais tarde, quando Getúlio Vargas veio a São Paulo inaugurar o túnel Nove de Julho, pediu para conhecer Maria. Ela, mesmo sem vontade, compareceu ao evento. Chegando lá, Getúlio estendeu-lhe, mas ela recusou: "Eu não aperto a mão de ditador”.

FOTOS: Divulgação/Dani Ortiz/Somniare