Brasil

A lenha começa a queimar nos pés de Michel Temer


Presidente enfrenta ao mesmo tempo a Justiça (casos Odebrecht e Porto de Santos) e a contestação das medidas para pôr fim à paralisação dos caminhoneiros


  Por João Batista Natali 07 de Junho de 2018 às 14:40

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Há algo de tragicamente curioso na decadência política do presidente Michel Temer. É algo que está no cruzamento de duas linhas descendentes.

Na primeira, o presidente reproduz ao inverso o mito do rei Midas. Tudo em que toca com os dedos pode virar estrume. É o que aconteceu, na prática, com a reviravolta negativa das medidas que colocaram fim à paralisação dos caminhoneiros.

O tabelamento do frete descontentou e promete revoltas do agronegócio. Com o tabelamento do diesel, os importadores privados, como a Brasil China, não receberam os benefícios dados à Petrobras, o que abre a perspectiva de eles cessarem as importações e, com isso, faltar o combustível.

A segunda linha descendente é judicial. Temer está encurralado pela investigação sobre os R$ 10 milhões dados em 2014 pela Odebrecht e também pela investigação envolvendo propina paga pelas concessionárias do Porto de Santos.

Essa confluência de tragédias acende a luz vermelha para os investidores, que derrubam a Bolsa com baixas sucessivas e especulam contra o real, que se aproxima dos R$ 5 por dólar.

Isso significa inflação pela frente, com o aumento dos preços dos importados –do trigo aos eletroeletrônicos -, e a previsão de que o Banco Central precisará subir a taxa referencial de juros.

O chavão “tempestade perfeita” em nenhum momento se aplicou com maior propriedade ao atual ocupante do Planalto.

Poderia ser pior se não existissem algumas circunstâncias favoráveis, que ocorrem independentemente do presidente da República. Exemplo: não haverá, desta vez, crise cambial.

As reservas de US$ 380 bilhões impedem que se reproduzam os movimentos especulativos que perfuraram a credibilidade da economia nos dois mandatos de FHC (crises no México, no Japão, na Argentina e na Rússia, com efeitos sobre os demais emergentes).

UM CENÁRIO ELEITORAL DESFAVORÁVEL

Esse conjunto de problemas poderia ser aliviado caso se desenhasse no futuro imediato a perspectiva de, a partir de janeiro, o país ter um governo empenhado nas reformas e no equilíbrio fiscal.

Pois é justamente o oposto que indicam as pesquisas de intenção de voto, e que poderão ser confirmadas pelo Datafolha deste domingo (10/6).

A projeção de Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDB) no segundo turno é sinônimo de tempestade para os agentes econômicos, que já superaram de maneira frágil a recessão de Dilma Rousseff e que se desesperam com as relações entre Temer e o Congresso.

É bem verdade que o presidente conseguiu o arquivamento provisório de duas denúncias criminais que o teriam afastado do cargo. Mas desde então nenhuma reforma foi aprovada, e o ano eleitoral alimenta a pulsão de deputados e senadores de criarem novas despesas.

E isso num momento em que não há na área econômica nenhum espaço para concessões. O subsídio ao diesel implicou cortes em programas sociais que derrubaram ainda mais, se é que isso era possível, a avaliação do presidente.

Nesta quinta (7/6), o site O Antagonista revela pesquisa interna do Planalto que constatou pela primeira vez que a aprovação, após a paralisação dos caminhoneiros, caiu abaixo do patamar simbólico de 1%.

Um cenário tão desfavorável apenas pioraria de modo dramático se Lula fosse beneficiado por um habeas corpus e driblasse a Justiça Eleitoral para disputar a Presidência da República.

Não seria mais o “Lulinha paz e amor”. O ex-presidente se transformaria num trator vingativo, capaz de atropelar a Lava Jato e as lideranças que articularam o impeachment de Dilma.

Mas essa hipótese, por enquanto, simplesmente não existe. Se é que essa constatação traz algum colírio para os olhares preocupados com a política e com a economia.

UMA DESESTRUTURAÇÃO RADICAL

O que se assiste, em Brasília, é a desestruturação da malha responsável pela tomada de pequenas e grandes decisões.

Excetuado o Banco Central e o Ministério da Fazenda, cuja credibilidade não foi chamuscada pelas últimas semanas de crise, o que existe é um imobilismo dramático e silencioso.

Com o Executivo em frangalhos, os grupos de pressão tentam salvar o que lhes resta entre os interesses setoriais.

É o caso do presidente da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho (Paulo Skaf está licenciado para concorrer ao governo de São Paulo). Com evidente exagero, ele afirmou que o tabelamento do frete fará com que os produtos encareçam de 30% a 150% para o consumidor final.

No rés-do-chão da economia, as lojas continuam vendendo, as fábricas continuam a produzir e os bancos a fazerem suas operações. Mas tudo a uma velocidade menor, embora não ainda recessiva.

É um quadro que lembra outros momentos em que a dinâmica do mercado, mesmo a um ritmo mais modesto, se contrapõe ao imobilismo das instituições políticas.

Aconteceu, por exemplo, no final do governo Sarney, anuviado pela hiperinflação. Ou no final do governo Collor, quando as investigações sobre a corrupção queimavam-lhe a grama junto aos pés.

 

FOTO: Marcos Corrêa/Presidência da República