Brasil

A fake news do rosário que o papa mandou para Lula


Emissário argentino se apresentou segunda-feira com o objeto na Polícia Federal de Curitiba, mas Vaticano desmentiu que fosse um presente de Francisco


  Por João Batista Natali 13 de Junho de 2018 às 12:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A informação é tão esquisita e tão desprovida de fundamento que acabou gerando uma forte comicidade. Segundo ela, o papa Francisco mandou de presente um rosário a Luís Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba e cumprindo pena de 12 anos por corrupção e lavagem de dinheiro.

Se fosse verdade, o papa estaria se integrando ao grupo segundo o qual o ex-presidente foi condenado sem provas, é vítima de uma conspiração e por isso mereceria a solidariedade pontifícia.

Mas tudo não passa da fake news, embora as redes sociais e a mídia petista reproduzam o “episódio” como se fosse uma inequívoca prova de solidariedade política do papa. É aliás a versão que também aparece no site pessoal do ex-presidente.

Vejamos os fatos. Na última segunda-feira (11/6), apresentou-se à entrada da Polícia Federal, na capital paranaense, o cidadão argentino Juan Grabois. Ele é advogado, tem 35 anos e milita em favor dos catadores de papel de Buenos Aires, os chamados “cartoneros”.

Pois bem, ele disse ser consultor do Pontifício Conselho de Justiça e Paz e trazia um estojo de cartolina revestido de tecido vermelho. Dentro dele havia um rosário. Afirmou aos jornalistas que a peça fora benzida pelo papa Francisco, que o encarregara de entregá-la a Lula.

A carceragem da PF não permitiu que Grabois tivesse acesso ao ex-presidente. O nome dele não constava da lista de religiosos autorizados à visita nas segundas, por cumprirem missão espiritual.

Mas os blogs de simpatizantes imediatamente espalharam a notícia.

Eis que, no dia seguinte, o próprio Vaticano se encarregou formalmente de fazer um desmentido. Nota publicada pela agência de notícias da Santa Sé disse que a entrega do rosário não partiu de uma decisão do papa ou da cúpula da Igreja.

UMA HISTÓRIA INVEROSSÍMIL

Uma soma de detalhes tornava o fato pouco digno de credibilidade. Eles foram compilados por Hugo Studart, jornalista e professor de História da Universidade de Brasília.

1 – Se quisesse enviar algo para Lula, o portador do papa Francisco seria seu embaixador no Brasil, o núncio apostólico, ou ao menos um cardeal.

2 – O Pontifício Conselho ao qual Grabois disse pertencer foi extinto em janeiro do ano passado.

3 – A caixinha é idêntica às encontradas nas lojas de souvenirs nas imediações do Vaticano. Caso fosse um presente do papai, o rosário viria numa caixa luxuosa, com o brasão da Santa Sé.

4 – Não havia nenhum bilhete ou carta do papa, mas um cartão com a assinatura impressa na Tipografia Vaticana. O cartão também é vendido nas lojas de souvenirs.

Grabois é um reincidente. No ano passado, ele entregou a Lula um exemplar da encíclica Laudato Si, dizendo que ela havia sido enviada pelo papa Francisco.

Acontece que a edição da brochura era da Paulus/Loyola, impressa no Brasil. Quando o papa presenteia suas encíclicas, o cerimonial do Vaticano seleciona uma cópia da tradução feita pela própria Santa Sé.

UMA OUTRA TROMBADA COM A IGREJA

Um episódio anterior também acabou geraldo forte incômodo entre a hierarquia católica e o ex-presidente.

No dia em que ele se entregou à Polícia Federal, 7 de abril, circulavam na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde ele se encontrava, roteiros discrepantes sobre a melhor maneira de encerrar o assunto.

As alternativas iam de uma fuga para uma embaixada estrangeira, sugerida por conhecida blogueira petista, a um ato de resistência, que forçaria agentes da PF a agarrarem Lula à força para levá-lo preso.

Era o que defendia Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT.

Mas os advogados do ex-presidente negociaram a alternativa menos traumática. Ele deixaria o prédio do sindicato, em São Bernardo do Campo, e, sem ser algemado – aliás uma exigência do juiz Sérgio Moro – seguiria para Curitiba.

Pois bem, Lula foi bastante hábil para teatralizar ao máximo seus momentos finais de liberdade. E em lugar de se entregar no sábado, 6 de abril, como exigia Moro, informou à PF que o faria no dia seguinte, depois de uma missa em homenagem ao primeiro ano da morte de sua mulher, Marisa Letícia.

Na verdade, a ex-primeira-dama morreu em 3 de fevereiro de 2017. A data, 7 de abril, é aquela em que ela estaria comemorando 68 anos, caso estivesse ainda viva.

A controvérsia está justamente nesse ponto. Um grupo de religiosos, entre eles frei Betto e o bispo Angélico Sândalo Bernardino, emérito de Blumenau e amigo de longa data do ex-presidente, subiu ao carro de som para aquilo que qualificaram de culto ecumênico.

O ato estava sendo retransmitido por todas as emissoras de televisão, o que irritou profundamente o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer.

O raciocínio dele era compreensível. Associar a igreja a uma solidariedade política ao ex-presidente significava, ao mesmo tempo, afastar a igreja de todos os demais brasileiros que acreditavam que o réu, condenado em segunda instância, tinha todas as razões para ser preso.

Na segunda-feira (8/4), d. Odilo lamentou “a instrumentalização política” da cerimônia no sindicato. Ou seja, deu indiretamente um puxão de orelha no bispo Angélico Sândalo Bernardino.

 

FOTO: Claudio Kbene (lula.com.br)